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Santiago

     Santiago nasceu acidentalmente, fora de tempo e fora do lugar como um cogumelo. Os pais não estavam à espera de ter mais um filho. Os filhos dos pais não estavam à espera de ter mais um irmão. Apareceu junto à sua casa como um bacorinho trazido de outra pocilga. Olharam-no com atenção, era feio como o raio! Os pais taparam os olhos, e os irmãos taparam o nariz como se a fealdade fedesse. Deram-no para adoção a um mercador que por ali passou com a família numa viagem impossível à Jerusalém dos velhos versículos. O mercador e a esposa aceitaram-no e trataram-no muito bem. Davam-lhe incessantemente comida e, em breve, enquanto a caravana cruzava a Boémia, já Santiago estava gordo como um porquinho destinado ao abate. Não era acidental ele estar gordo, pelo menos, não tão acidental como o seu aparecimento no mundo. O caminho estava repleto de salteadores, e eles poderiam sempre oferecer-lhes  a criança como um bem precioso e tentador, sobretudo se os salteadores gostassem de carne humana e sentissem apetite pela gordura suína de Santiago. E também havia a possibilidade de o venderem nalgum mercado de escravos; no fim de contas, eles eram uma família de mercadores, e a gordura poderia ser olhada por muitos interessados como um sinal de saúde e vitalidade. A caravana foi prosseguindo – já vos contei que a família do mercador julgava que ainda encontrariam intacto o grande Templo de Jerusalém, porque uma profecia antiga dizia que o futuro da família estava inscrito na coluna de cobre Boaz? – e não apareceram salteadores, nem mercadores de escravos. Mas entraram numa região estranha que não encontravam nos mapas. A região tinha cidades e aldeias e rios tímidos na planura. Como outras regiões. Mas era estranha porque todos os seus habitantes eram feios e porcinos como Santiago, custava olhar de frente para a sua fealdade sem semicerrar os olhos. À passagem da caravana, todos festejavam e saudavam Santiago como a um irmão reencontrado; havia mesmo famílias que suplicavam ao mercador para que Santiago ficasse ali, e partilhasse um dos seus lares. Santiago pediu o mesmo ao mercador, e ele acedeu. Uma onda de euforia propagou-se pela planície, uma alegria esfusiante que se comunicou aos animais e aos rios na planície. Enquanto os cânticos e as danças esfogueavam à sua volta, Santiago admirou a caravana a afastar-se. Não se sentia triste, antes pelo contrário. Agora sabia que não era feio, apenas ainda não encontrara o seu povo de cisnes.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...