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O céu dos carros

Delfina não tem história.
Podia ter nascido, se a sua potencial mãe tivesse tido filhos. Não os teve. Acasalou algumas vezes com o seu potencial pai no banco traseiro de um elegante Renault Dauphine, mas dali não resultou nada.
(Dauphine foi um belo nome para se dar a um carro, recorda Delfos, Delfim, um golfinho).
Delfina não existe, ao contrário de Dauphine. Só falo nela porque ainda retenho a imagem e o nome do carro e o som tranquilizador do seu motor nos meus ouvidos. Quando ainda trabalhava, e circulava por aí com a tranquila majestade de um delfim.
Delfina é o título adequado para uma elegia possível a um Dauphine esquecido a desfazer-se a um canto num cemitério de carros. Um Dauphine sem motor. Já sem motor. Como um que conheço.
Delfina já não existe.
Paz à alma do Dauphine.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...