Aburrimiento

Onde é que estás? Vieste por onde? Por que rua…avenida…beco…? Não sei se reparaste como eu, mas demorei o Zoom da minha retina nas antenas enferrujadas e arqueológicas dos prédios, e nas pombas que emasculam os seus bicos e se escondem ao entardecer – como virgens envergonhadas ou eunucos a sangrar - nas bermas dos telhados e nos peitoris novecentistas das janelas, na mulher de pernas cilíndricas que empurrava um cesto com rodas sob os insultos e as piadas de dois tipos que não consegui fixar na memória porque apenas guardo deles o pus etéreo das suas vozes. No ar insular e alheado de uma jovem encostada a um poste, com uma camisola pelos ombros e uma manga dessa camisola a insinuar um turbante sobre os seus cabelos fosforescentes, ela dedilhava aborta o ecrã táctil de um telemóvel, passei por ela e levantou o olhar por breves segundos, mas não o dirigiu a mim, aguardava do ar uma resposta que lhe chegou em seguida com um sinal sonoro com os sete primeiros acordes da música dos Marretas. Isso, não deves ter visto, foi demasiado célere, casual. Mas talvez tenhas descido ao parque de estacionamento subterrâneo. Que lugar estranho e triste. Como as catacumbas. Se caísse sobre a cidade um meteoro gigante que esmagasse a vida tal como a desconhecemos, o parque subterrâneo seria o lugar onde nos reuniríamos, seriam as catacumbas e os templos dos novos cultos, os seus tetos de anfractuosidades côncavas como tabuleiros invertidos de ovos, em cartão, esses tetos, enfim, são ideais para a acústica dos nossos cânticos de horror e nojo, e os charutos de ventilação com uma ventoinha em cada extremidade propagariam esses cânticos (when the shit hits the fan) por todos os cantos das catacumbas e do mundo exterior; e o nosso pastor usaria, além de um cajado de guardar cabras, um uniforme de segurança, porque os seguranças dos parques de estacionamento já são potenciais encarnações de Deus, investidos de toda a grandiosidade e solenidade de um Moisés ou de um Frodo. Nesta nova religião das catacumbas, os neófitos e recém-nascidos seriam batizados com óleo Castrol, os fiéis teriam por hóstia as pastilhas dos travões, e sentir-se-iam mais leves e próximos dos céus por ingerirem apenas, mas com frugalidade, gasolina sem chumbo. Vieste por onde? Estás onde? Espero-te no sentido exato dos teus calcanhares! Decerto que me encontrarás…

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