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A flor dourada

Templo de Taktsang Palphug (Ninho do Tigre)

          O Lama olhou o discípulo nos olhos enquanto ele repetia os mantras sagrados. Há cinco anos que o recebera naquele templo no sopé dos Himalaias. Chegara ali sujo e com as mãos queimadas pelo frio, mas percebeu de imediato naquele filho de carregador a inteligência e a humilde dedicação que o fizera escolher para permanecer ali. Era um discípulo perfeito, com uma vontade indómita e uma sede inesgotável de conhecimento, servida por um espírito lúcido e perspicaz como um céu luminoso e sem nuvens            Agora, no entanto, sentia nele uma ausência indefinida, uma distância que fazia as palavras dos mantras soarem sem expressão. Acontecia por vezes aos jovens discípulos ficarem tristes sem mesmo eles saberem porquê, a melancolia surpreendia-os repentinamente no isolamento das montanhas e fazia-os sofrer enquanto admiravam com um olhar triste as escarpas nevadas dos montes, ou escutavam os silvos do vento agreste e eterno que devassava os seus íntimos com a mesma violência com que fustigava a cordilheira.            Aquilo que atormentava o discípulo, ele não se sentia digno de o descrever ao seu mestre, eram palavras inúteis de um mundo impuro, assustador e longínquo. Quando descera com outros monges até á povoação mais próxima, deixara-se encantar pelas narrações de um mercador de pele acobreada que viera do sul, das terras sem neve de Caxemira. Ficara como que preso durante horas escutando, maravilhado, as histórias estranhas que aquele homem trouxera de tão longe, lendas de príncipes e princesas enredados numa paixão que invariavelmente resultava em tragédia, descrições de minaretes recobertos com metal onde a luz do Sol acendia outras tantas estrelas, e aves de mil cores com olhos brilhantes nas penas da cauda. A palavra amor ressurgia em cada descrição e em cada história, acompanhada de versos onde se cantava a beleza de dançarinas miríficas de cabelos escuros entrelaçados com fios dourados, rostos de uma beleza perfeita e corpos quase nus com ventres palpitantes e seios de mamilos ornados de safiras.            Pensar nisso aturdia o discípulo. Refugiava-se então nos mantras que repetia com fervor, e enfrentava o ar gelado do exterior para pedir aos antepassados que moravam nos cumes das montanhas que descessem pelos seus sonhos para reconciliar o seu espírito com o caminho do Iluminado. Sempre em busca de paz e respostas, inquiria aos monges mais jovens sobre o que era o amor, mas estes mostravam-se tão perplexos como ele próprio. Cansado de tantas evasivas, recorreu ao Lama e repetiu-lhe a pergunta com o coração inundado de terror. O mestre sorriu-lhe com complacência; e com uma tranquilidade ancestral explicou-lhe que o amor era ilusão, criado para dispersar o espírito que procura o Nirvana, como a flor dourada dos deuses que os caminhantes imprudentes julgam avistar nas montanhas, e que perseguem para acabarem mortos no fundo de um abismo ou soterrados por uma avalancha de neve. Nada disso era real, e tão inútil como as nuvens que parecem ter uma forma real aos nossos olhos mas que se desfazem com o vento, ou os grãos de areia que julgamos poder conter numa mão mas que se escapam sempre, deixando-a vazia.            O discípulo sentiu-se grato pela sabedoria do seu mestre. Algo dentro dele ainda se agitava, mas encontrou quietude na meditação e no silêncio. Regressou aos ritos e orações com uma intensidade redobrada, e nada lhe parecia mais importante do que repetir os ensinamentos de Gautama Buda, e seguir humildemente as suas pisadas em direcção ao Nirvana. Passaram-se semanas, em que todos os outros o viam recolhido e de tal forma mergulhado em si mesmo, que começaram a sentir-se preocupados com ele, pensando que alguma doença o consumia. Quando chegou o momento de se encetar a viagem ás povoações amenas da planície para se obter víveres, decidiram levá-lo também, a ver se recuperava a vivacidade e o entusiasmo que lhe conheciam.            Os monges que tomaram o caminho do vale, foram escolhidos por serem jovens e robustos, porque teriam de transportar a carga assente nas espaldas. O jovem seguiu-os como um sonâmbulo, olhando de vez em quando para os picos nevados, para ver se também ele era capaz de avistar a flor dourada dos deuses. A medida que iam descendo de altitude, o clima tornava-se menos rigoroso, e já conseguiam descobrir porções de solo onde a vegetação se percebia sobre a neve. Quando atingiram a primeira povoação Sherpa de casas modestas, pareciam terem mergulhado num outro mundo, as roupas das pessoas eram menos pesadas do que no alto, a luz sobre o vale era diferente, e enchia-lhes a vista um riacho borbulhante que se formara nos glaciares dos picos.            Enquanto os seus companheiros se afadigavam a reunir os géneros, o monge caminhou distraidamente, e avistou  uma jovem envergando um vestido de peles, que enchia o seu recipiente no riacho. Tinha os cabelos negros e luzidios, como nunca antes vira. Quando ela se virou, o monge sentiu-se aturdido ao contemplar o seu rosto arredondado e alegre, e o traço perfeito dos seus olhos amendoados. Ficou cravado ao solo enquanto ela caminhava na sua direcção com a vasilha. Quando a jovem estava próxima, ela tropeçou numa pedra e deixou cair o recipiente que se estilhaçou perto de si. Algo dentro do monge pareceu ter-se estilhaçado no mesmo instante. Saltou para diante, e recolheu rapidamente na cova de um dos braços, todos os cacos de que foi capaz. Ergueu-se com cuidado e aproximou-se dela com as batidas do coração a repercutirem-se nas têmporas, e ela sorriu-lhe. Levantando a dobra da sua capa, ela formou uma bolsa onde o monge depositou os fragmentos, e num gesto de gratidão, ela ergueu a mão e afagou-lhe o rosto, arrepiando-o com aquele contacto macio e cálido.            Ficou a contemplá-la, preso dos seus movimentos. Quando se reuniu aos seus companheiros, estava mais inquieto e agitado do que nunca. De regresso ao mosteiro, não foi preciso desfazer-se em palavras inúteis para que o seu mestre se apercebesse do peso que guardava dentro de si. As preces e os mantras deixavam-no indiferente, e dava longos passeios pelas salas do mosteiro como se não conseguisse fixar-se em lugar algum. Foi, pois, sem surpresa que o Lama o viu surgir diante de si com as vestes vermelhas rasgadas e os ombros cobertos de cinzas, num gesto inequívoco de ruptura. Com uma tigela de barro cheia de água, o monge lavou os pés ao seu mestre num último sinal de respeito e deferência. O mestre perguntou-lhe com desalento se já não almejava a libertação e a luz, ao que o discípulo baixou as pálpebras num sinal de desconhecimento, e refugiou-se no silêncio até se retirar.            Horas depois o jovem abandonou o templo. Enquanto o mestre observava a sua partida do largo alpendre do templo, ele tomou o caminho das aldeias do vale, em busca da flor dourada dos deuses que lhe aparecera sob a forma de uma mulher.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...