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A mostrar mensagens de Março, 2015

galope

Uma vida de emoções forte, o clique metálico do agrafador a unir as folhas dos despachos, a teia de aranha no teto do corredor, a mancha colorida no linóleo do chão, não aguento tantas emoções em disparada, a pulsação sobe, os vasos linfáticos inflam e linfam, sinto as mãos a tremer com os nervos, o tropel de emoções acelera, a sombra do cortinado batido pelo Sol da manhã avança sobre mim, há corpúsculos cósmicos de pó a dançar na atmosfera, o rapaz da sala de arquivo passa por mim como se fugisse de um fogo de feno na pradaria, tenho de me controlar, preciso refrear os nervos ou o coração ainda me rebenta no peito como uma melancia esmagada por uma marreta de ferro, calma, calma, respiro fundo para me acalmar e no fundo também há emoções, fogo, lava, tarântulas e salamandras de fogo, sarças ardentes de frutos de polpa sanguínea, as coisas estão a descontrolar-se, os puxadores ovais das portas estão muito mais manchados do que antes, e pulsam como pequenos corações de serpente, o cor…

O plano arquitetónico minuciosamente ajustado e concretizado da cidade de Xanadu-Al

Xanadu-Al era uma cidadezinha de província, que começou por ser como todas as cidadezinhas de província, sem origem certa e com uma mais-do-que-certa-ausência-de-futuro. Mas a mão do homem contrariou esse aparente determinismo. Ou a mão do sátrapa anatólico de Xanadu-Al. Gizando planos arquitetónicos fabulosos para a cidadezinha, deu ordens para que se iniciassem de imediato as obras.
E elas arrancaram, com um brilho e uma ambição desmedidas.
O alcatrão das ruas foi coberto por placas ovais de obsidiana, fundidas umas às outras com cordões de chumbo derretidos por feixes de Laser.
Um canal subterrâneo desviou da superfície o rio de águas lodosas que os gangsteres costumavam alimentar com os cadáveres resultantes das suas incessantes vendettas.
O cristal e o jaspe branco vestiram com novas roupas os prédios modernos mas esteticamente desajustados.
Os plátanos e os álamos antigos foram substituídos por árvores de zircão e ouro, onde pássaros mecânicos enchiam os ares com os seus cântic…

Majestade congelada

As pessoas, todas as pessoas, passavam sem lhe dizer nada - nem uma palavra! Não demoram o seu tempo, não moram os seus olhos nele; antes quebram o olhar diante de si, e infletem a atenção para uma carica de garrafa no lajedo, ou o caminhar balouçante de um pombo de penas sujas. As pessoas não queriam nada dele, nem mesmo as crianças, que são mais sãs e generosas do que os seus pares mais velhos e envilecidos.
Sentia-se mortificado e trazia o coração num bloco de pedra.
Era uma estátua muito triste.

Aburrimiento

Onde é que estás? Vieste por onde? Por que rua…avenida…beco…? Não sei se reparaste como eu, mas demorei o Zoom da minha retina nas antenas enferrujadas e arqueológicas dos prédios, e nas pombas que emasculam os seus bicos e se escondem ao entardecer – como virgens envergonhadas ou eunucos a sangrar - nas bermas dos telhados e nos peitoris novecentistas das janelas, na mulher de pernas cilíndricas que empurrava um cesto com rodas sob os insultos e as piadas de dois tipos que não consegui fixar na memória porque apenas guardo deles o pus etéreo das suas vozes. No ar insular e alheado de uma jovem encostada a um poste, com uma camisola pelos ombros e uma manga dessa camisola a insinuar um turbante sobre os seus cabelos fosforescentes, ela dedilhava aborta o ecrã táctil de um telemóvel, passei por ela e levantou o olhar por breves segundos, mas não o dirigiu a mim, aguardava do ar uma resposta que lhe chegou em seguida com um sinal sonoro com os sete primeiros acordes da música dos Marre…

O céu dos carros

Delfina não tem história.
Podia ter nascido, se a sua potencial mãe tivesse tido filhos. Não os teve. Acasalou algumas vezes com o seu potencial pai no banco traseiro de um elegante Renault Dauphine, mas dali não resultou nada.
(Dauphine foi um belo nome para se dar a um carro, recorda Delfos, Delfim, um golfinho).
Delfina não existe, ao contrário de Dauphine. Só falo nela porque ainda retenho a imagem e o nome do carro e o som tranquilizador do seu motor nos meus ouvidos. Quando ainda trabalhava, e circulava por aí com a tranquila majestade de um delfim.
Delfina é o título adequado para uma elegia possível a um Dauphine esquecido a desfazer-se a um canto num cemitério de carros. Um Dauphine sem motor. Já sem motor. Como um que conheço.
Delfina já não existe.
Paz à alma do Dauphine.

João e Maria, uma história de amor

João ama Maria, Maria ama João. Começaram a namorar cedo, João imberbe e com acne, Maria franzina e de olhar sonhador. Os pais de Maria não aprovaram. João era pobre e não tinha futuro. Maria tinha de casar com alguém bem colocado na vida, e casaram-na com um velho. Maria aceitou. A decisão dos pais, e o velho que cheirava a velho sob a coberta perfumada de cetim da sua cama de menina. João não emigrou, não fugiu, nem se escondeu. Ficou sempre por perto, nas ruas por perto, nos bares da vizinhança. Maria e João continuaram a ver-se. Amavam-se, pois então. Viam-se às escondidas, e namoravam às escondidas, provando o fruto proibido nos lábios do Amor. Mal madurou um pouco, e se sentiu sustentada pelos esteios da sua própria vontade, Maria separou-se do velho e foi morar para o quartinho do João, para grande desgosto e condenação de quase toda a gente. Para Maria, era a única coisa sensata a fazer. Mas o peso dos outros, dos familiares e estranhos que moravam fora do quartinho deles, fa…

Santiago

Santiago nasceu acidentalmente, fora de tempo e fora do lugar como um cogumelo. Os pais não estavam à espera de ter mais um filho. Os filhos dos pais não estavam à espera de ter mais um irmão. Apareceu junto à sua casa como um bacorinho trazido de outra pocilga. Olharam-no com atenção, era feio como o raio! Os pais taparam os olhos, e os irmãos taparam o nariz como se a fealdade fedesse. Deram-no para adoção a um mercador que por ali passou com a família numa viagem impossível à Jerusalém dos velhos versículos. O mercador e a esposa aceitaram-no e trataram-no muito bem. Davam-lhe incessantemente comida e, em breve, enquanto a caravana cruzava a Boémia, já Santiago estava gordo como um porquinho destinado ao abate. Não era acidental ele estar gordo, pelo menos, não tão acidental como o seu aparecimento no mundo. O caminho estava repleto de salteadores, e eles poderiam sempre oferecer-lhes  a criança como um bem precioso e tentador, sobretudo se os salteadores gostassem de carne h…
Não vou escrever metáforas para a vida, o futuro ou as palavras. Não vou. Não escrever metáforas é a minha meta – fora com as metáforas! Cada palavra será tão exata e ineludível como os termos de uma equação matemática. Não sigo com imagens fluidas do real concreto, ecos suavizados do estampido de uma arma ou da violência inaudita de uma exclamação de alegria. Narciso apodrece no fundo das águas. Singremos. Sem olhos na nuca, nem resíduos de nostalgia, a abocanhar os lótus de paz. Os horizontes germinam diante de nós, Polaris dos nossos sonhos tristes de penumbra, espiralam os seus ramos negros na linha do horizonte como uma mata pélvica que promete o prazer, e nos concede antes os frutos negros da morte, a gangrena das palavras em nós. Não vou escrever metáforas!

A flor dourada

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O Lama olhou o discípulo nos olhos enquanto ele repetia os mantras sagrados. Há cinco anos que o recebera naquele templo no sopé dos Himalaias. Chegara ali sujo e com as mãos queimadas pelo frio, mas percebeu de imediato naquele filho de carregador a inteligência e a humilde dedicação que o fizera escolher para permanecer ali. Era um discípulo perfeito, com uma vontade indómita e uma sede inesgotável de conhecimento, servida por um espírito lúcido e perspicaz como um céu luminoso e sem nuvens            Agora, no entanto, sentia nele uma ausência indefinida, uma distância que fazia as palavras dos mantras soarem sem expressão. Acontecia por vezes aos jovens discípulos ficarem tristes sem mesmo eles saberem porquê, a melancolia surpreendia-os repentinamente no isolamento das montanhas e fazia-os sofrer enquanto admiravam com um olhar triste as escarpas nevadas dos montes, ou escutavam os silvos do vento agreste e eterno que devassava os seus íntimos com a mesma violência com …

Kimura

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A cerejeira de ramos despidos localizava-se junto ao muro de pedra, no topo norte do jardim. Era inverno. Kimura inspecionou o jardim. Pela primeira vez em muitas semanas, o frio diminuíra e o sol espreitara um pouco nesse dia. A Primavera parecia possível, agora. As glicínias, os animais e insetos, as flores na trepadeira do muro de pedra, as árvores de fruto a desabrochar numa sofreguidão vegetal. Kimura sentou-se num banco de pedra. Sentia-se feliz, poderia entoar um mantra ou um verso de Bashô, mas contivera-se por deferência aos dois pardais cor de canela que saltitavam e trinavam nos ramos despidos da cerejeira, os primeiros pássaros que ali via nesse Inverno.

Nota etnográfica citadina

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Marx

O médico estuda o velho visionário que oscila na sua cadeira de balouço com mais impulso e força do que aquela que seria realmente necessário empregar. É um louco e faz coisas de louco – deveria pensar. Mas continua a estudá-lo com afinco. Balança-se para trás e para a frente com energia, mas sem excesso, não existe o risco dos movimentos da cadeira se descontrolarem e ele ser projetado. É uma força exagerada, mas empregue com medida e razão. Não indicam sanidade mental mas, no entanto, também não a excluem. Tenta fazer conversa, colocar questões que sabe serem úteis e importantes para avaliar alguém, mas não obtém nenhuma resposta. O médico aborrece-se por fim, e deixa o senhor Marx na sua cadeira de balouço, rumando para o seu próprio camarote. Marx é um visionário que balança a sua cadeira de balouço ao ritmo da ondulação do mar. Antes de chegar ao camarote, faz um desvio até ao refeitório. Aproximava-se a hora de almoço. Os poucos comensais que já ali estavam estão agarrados as m…

Lío

Todo esto es un lío!Troou o taxista espanhol quando nos vimos imobilizados num engarrafamento em Pamplona.
O quê? Apetecia-me perguntar. O que é que é um lío? O trânsito, o FMI, o futebol, o frio? Sim, o que é que é um lío? Nada perguntei de viva voz e por tal, nenhuma resposta obtive. Ficamos ali, no meio do trânsito, presos, o taxista em pé ao lado do carro, com a porta aberta e um pé enraizado no interior (o direito, se interessa saber qual), e eu sentado no banco de trás, sem respostas e sem ansiolíticos, com os cotovelos suados colados à napa do assento e uma vontade terrível de acender o cigarro proibido. Por fim, o trânsito começou a mexer, o taxista aterrou no seu assento e ligou o carro, e enquanto as rodas rodavam os primeiros metros no alcatrão, olhou para o banco de trás pelo espelho, mas eu já não estava lá. Ascendia pelas espirais anis de fumo até ao terraço da nicotina.