INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

galope

Uma vida de emoções forte, o clique metálico do agrafador a unir as folhas dos despachos, a teia de aranha no teto do corredor, a mancha colorida no linóleo do chão, não aguento tantas emoções em disparada, a pulsação sobe, os vasos linfáticos inflam e linfam, sinto as mãos a tremer com os nervos, o tropel de emoções acelera, a sombra do cortinado batido pelo Sol da manhã avança sobre mim, há corpúsculos cósmicos de pó a dançar na atmosfera, o rapaz da sala de arquivo passa por mim como se fugisse de um fogo de feno na pradaria, tenho de me controlar, preciso refrear os nervos ou o coração ainda me rebenta no peito como uma melancia esmagada por uma marreta de ferro, calma, calma, respiro fundo para me acalmar e no fundo também há emoções, fogo, lava, tarântulas e salamandras de fogo, sarças ardentes de frutos de polpa sanguínea, as coisas estão a descontrolar-se, os puxadores ovais das portas estão muito mais manchados do que antes, e pulsam como pequenos corações de serpente, o coração, o meu coração, bombeia-me sangue alucinógeno para todo o corpo e já não me sinto capaz de manter os meus pensamentos seguros ao meu espírito e os meus membros colados ao meu corpo estou a desintegrar-me em centenas de células em losango que se cravam nas paredes e no teto como pontas de flecha em aço diamantino, estou a pulverizar-me mas o somatório de todas essas partículas não me representa, não sou eu, algum desses pontos, algum ponto será mais importantes do que todos os demais, e será o que eu sou como uma semente à escala planetária pressionada e comprimida até dimensões microscópicas e invisíveis a olho nu
- José?!
- Sim?
- Deixa de escrever nos relatórios e arquiva-os de uma vez por todas!!

O plano arquitetónico minuciosamente ajustado e concretizado da cidade de Xanadu-Al

Xanadu-Al era uma cidadezinha de província, que começou por ser como todas as cidadezinhas de província, sem origem certa e com uma mais-do-que-certa-ausência-de-futuro. Mas a mão do homem contrariou esse aparente determinismo. Ou a mão do sátrapa anatólico de Xanadu-Al. Gizando planos arquitetónicos fabulosos para a cidadezinha, deu ordens para que se iniciassem de imediato as obras.

E elas arrancaram, com um brilho e uma ambição desmedidas.

O alcatrão das ruas foi coberto por placas ovais de obsidiana, fundidas umas às outras com cordões de chumbo derretidos por feixes de Laser.

Um canal subterrâneo desviou da superfície o rio de águas lodosas que os gangsteres costumavam alimentar com os cadáveres resultantes das suas incessantes vendettas.

O cristal e o jaspe branco vestiram com novas roupas os prédios modernos mas esteticamente desajustados.

Os plátanos e os álamos antigos foram substituídos por árvores de zircão e ouro, onde pássaros mecânicos enchiam os ares com os seus cânticos.

Deixaram de existir portas fechadas em Xanadu-Al e todas as portas das casas se abriam para vestíbulos inundados de luz e das fragrâncias do incenso.

Os animais de estimação passeavam-se livremente pelas avenidas e pelos parques de árvores artificiais.

Xanadu-Al tinha TUDO para que alguém se sentisse feliz em viver dentro dela.

Mas Xanadu-Al não tinha ninguém. Já não existiam ali pessoas.

O sátrapa anatólico de Xanadu-Al teve de as vender, e aos seus bens, para custear as obras.

E teve de inciar as obras para dissimular as vísceras da cidade que começavam a sair pela boca dos túneis e pelas chagas no alcatrão das avenidas.

Majestade congelada

As pessoas, todas as pessoas, passavam sem lhe dizer nada - nem uma palavra! Não demoram o seu tempo, não moram os seus olhos nele; antes quebram o olhar diante de si, e infletem a atenção para uma carica de garrafa no lajedo, ou o caminhar balouçante de um pombo de penas sujas. As pessoas não queriam nada dele, nem mesmo as crianças, que são mais sãs e generosas do que os seus pares mais velhos e envilecidos.
Sentia-se mortificado e trazia o coração num bloco de pedra.
Era uma estátua muito triste.

Aburrimiento

Onde é que estás? Vieste por onde? Por que rua…avenida…beco…? Não sei se reparaste como eu, mas demorei o Zoom da minha retina nas antenas enferrujadas e arqueológicas dos prédios, e nas pombas que emasculam os seus bicos e se escondem ao entardecer – como virgens envergonhadas ou eunucos a sangrar - nas bermas dos telhados e nos peitoris novecentistas das janelas, na mulher de pernas cilíndricas que empurrava um cesto com rodas sob os insultos e as piadas de dois tipos que não consegui fixar na memória porque apenas guardo deles o pus etéreo das suas vozes. No ar insular e alheado de uma jovem encostada a um poste, com uma camisola pelos ombros e uma manga dessa camisola a insinuar um turbante sobre os seus cabelos fosforescentes, ela dedilhava aborta o ecrã táctil de um telemóvel, passei por ela e levantou o olhar por breves segundos, mas não o dirigiu a mim, aguardava do ar uma resposta que lhe chegou em seguida com um sinal sonoro com os sete primeiros acordes da música dos Marretas. Isso, não deves ter visto, foi demasiado célere, casual. Mas talvez tenhas descido ao parque de estacionamento subterrâneo. Que lugar estranho e triste. Como as catacumbas. Se caísse sobre a cidade um meteoro gigante que esmagasse a vida tal como a desconhecemos, o parque subterrâneo seria o lugar onde nos reuniríamos, seriam as catacumbas e os templos dos novos cultos, os seus tetos de anfractuosidades côncavas como tabuleiros invertidos de ovos, em cartão, esses tetos, enfim, são ideais para a acústica dos nossos cânticos de horror e nojo, e os charutos de ventilação com uma ventoinha em cada extremidade propagariam esses cânticos (when the shit hits the fan) por todos os cantos das catacumbas e do mundo exterior; e o nosso pastor usaria, além de um cajado de guardar cabras, um uniforme de segurança, porque os seguranças dos parques de estacionamento já são potenciais encarnações de Deus, investidos de toda a grandiosidade e solenidade de um Moisés ou de um Frodo. Nesta nova religião das catacumbas, os neófitos e recém-nascidos seriam batizados com óleo Castrol, os fiéis teriam por hóstia as pastilhas dos travões, e sentir-se-iam mais leves e próximos dos céus por ingerirem apenas, mas com frugalidade, gasolina sem chumbo. Vieste por onde? Estás onde? Espero-te no sentido exato dos teus calcanhares! Decerto que me encontrarás…

O céu dos carros

Delfina não tem história.
Podia ter nascido, se a sua potencial mãe tivesse tido filhos. Não os teve. Acasalou algumas vezes com o seu potencial pai no banco traseiro de um elegante Renault Dauphine, mas dali não resultou nada.
(Dauphine foi um belo nome para se dar a um carro, recorda Delfos, Delfim, um golfinho).
Delfina não existe, ao contrário de Dauphine. Só falo nela porque ainda retenho a imagem e o nome do carro e o som tranquilizador do seu motor nos meus ouvidos. Quando ainda trabalhava, e circulava por aí com a tranquila majestade de um delfim.
Delfina é o título adequado para uma elegia possível a um Dauphine esquecido a desfazer-se a um canto num cemitério de carros. Um Dauphine sem motor. Já sem motor. Como um que conheço.
Delfina já não existe.
Paz à alma do Dauphine.

João e Maria, uma história de amor

João ama Maria, Maria ama João. Começaram a namorar cedo, João imberbe e com acne, Maria franzina e de olhar sonhador. Os pais de Maria não aprovaram. João era pobre e não tinha futuro. Maria tinha de casar com alguém bem colocado na vida, e casaram-na com um velho. Maria aceitou. A decisão dos pais, e o velho que cheirava a velho sob a coberta perfumada de cetim da sua cama de menina. João não emigrou, não fugiu, nem se escondeu. Ficou sempre por perto, nas ruas por perto, nos bares da vizinhança. Maria e João continuaram a ver-se. Amavam-se, pois então. Viam-se às escondidas, e namoravam às escondidas, provando o fruto proibido nos lábios do Amor. Mal madurou um pouco, e se sentiu sustentada pelos esteios da sua própria vontade, Maria separou-se do velho e foi morar para o quartinho do João, para grande desgosto e condenação de quase toda a gente. Para Maria, era a única coisa sensata a fazer. Mas o peso dos outros, dos familiares e estranhos que moravam fora do quartinho deles, fazia-os sentirem-se asfixiados dentro dele. Decidiram emigrar os dois, procurar fortuna e liberdade num outro país. Foram os dois para a Austrália. Conseguiram arranjar um apartamento modesto para começarem uma nova vida, e ambos empregaram-se por lá. O dinheiro começou a entrar na casa e então João mudou. Fazia noitadas, jogava, bebia; batia na Maria, A felicidade dos dois era cada dia maior. Vieram os filhos, e nada mudou. João fazia noitadas, jogava, bebia, batia na Maria. Maria saiu de casa com os filhos, não por ser infeliz mas porque queria evangelizar a humanidade com o seu amor e a sua felicidade. João procurou-a, com a ajuda da polícia, não porque lhe desejasse mal ou aos filhos, mas porque queria contribuir e ajudar Maria a espalhar o amor que sentia por ele e pela vida. João vive desde então à procura da Maria e Maria a viajar pelos lugares onde ele não se encontra. E mais não narramos porque é difícil segui-los a ambos, mais os filhos; mas, em todo o caso, é uma bela história de amor inconclusa, que promete acabar bem como todas as belas histórias de amor

Santiago

     Santiago nasceu acidentalmente, fora de tempo e fora do lugar como um cogumelo. Os pais não estavam à espera de ter mais um filho. Os filhos dos pais não estavam à espera de ter mais um irmão. Apareceu junto à sua casa como um bacorinho trazido de outra pocilga. Olharam-no com atenção, era feio como o raio! Os pais taparam os olhos, e os irmãos taparam o nariz como se a fealdade fedesse. Deram-no para adoção a um mercador que por ali passou com a família numa viagem impossível à Jerusalém dos velhos versículos. O mercador e a esposa aceitaram-no e trataram-no muito bem. Davam-lhe incessantemente comida e, em breve, enquanto a caravana cruzava a Boémia, já Santiago estava gordo como um porquinho destinado ao abate. Não era acidental ele estar gordo, pelo menos, não tão acidental como o seu aparecimento no mundo. O caminho estava repleto de salteadores, e eles poderiam sempre oferecer-lhes  a criança como um bem precioso e tentador, sobretudo se os salteadores gostassem de carne humana e sentissem apetite pela gordura suína de Santiago. E também havia a possibilidade de o venderem nalgum mercado de escravos; no fim de contas, eles eram uma família de mercadores, e a gordura poderia ser olhada por muitos interessados como um sinal de saúde e vitalidade. A caravana foi prosseguindo – já vos contei que a família do mercador julgava que ainda encontrariam intacto o grande Templo de Jerusalém, porque uma profecia antiga dizia que o futuro da família estava inscrito na coluna de cobre Boaz? – e não apareceram salteadores, nem mercadores de escravos. Mas entraram numa região estranha que não encontravam nos mapas. A região tinha cidades e aldeias e rios tímidos na planura. Como outras regiões. Mas era estranha porque todos os seus habitantes eram feios e porcinos como Santiago, custava olhar de frente para a sua fealdade sem semicerrar os olhos. À passagem da caravana, todos festejavam e saudavam Santiago como a um irmão reencontrado; havia mesmo famílias que suplicavam ao mercador para que Santiago ficasse ali, e partilhasse um dos seus lares. Santiago pediu o mesmo ao mercador, e ele acedeu. Uma onda de euforia propagou-se pela planície, uma alegria esfusiante que se comunicou aos animais e aos rios na planície. Enquanto os cânticos e as danças esfogueavam à sua volta, Santiago admirou a caravana a afastar-se. Não se sentia triste, antes pelo contrário. Agora sabia que não era feio, apenas ainda não encontrara o seu povo de cisnes.

Não vou escrever metáforas para a vida, o futuro ou as palavras. Não vou. Não escrever metáforas é a minha meta – fora com as metáforas! Cada palavra será tão exata e ineludível como os termos de uma equação matemática. Não sigo com imagens fluidas do real concreto, ecos suavizados do estampido de uma arma ou da violência inaudita de uma exclamação de alegria. Narciso apodrece no fundo das águas. Singremos. Sem olhos na nuca, nem resíduos de nostalgia, a abocanhar os lótus de paz. Os horizontes germinam diante de nós, Polaris dos nossos sonhos tristes de penumbra, espiralam os seus ramos negros na linha do horizonte como uma mata pélvica que promete o prazer, e nos concede antes os frutos negros da morte, a gangrena das palavras em nós. Não vou escrever metáforas!

A flor dourada

Templo de Taktsang Palphug (Ninho do Tigre)

          O Lama olhou o discípulo nos olhos enquanto ele repetia os mantras sagrados. Há cinco anos que o recebera naquele templo no sopé dos Himalaias. Chegara ali sujo e com as mãos queimadas pelo frio, mas percebeu de imediato naquele filho de carregador a inteligência e a humilde dedicação que o fizera escolher para permanecer ali. Era um discípulo perfeito, com uma vontade indómita e uma sede inesgotável de conhecimento, servida por um espírito lúcido e perspicaz como um céu luminoso e sem nuvens            Agora, no entanto, sentia nele uma ausência indefinida, uma distância que fazia as palavras dos mantras soarem sem expressão. Acontecia por vezes aos jovens discípulos ficarem tristes sem mesmo eles saberem porquê, a melancolia surpreendia-os repentinamente no isolamento das montanhas e fazia-os sofrer enquanto admiravam com um olhar triste as escarpas nevadas dos montes, ou escutavam os silvos do vento agreste e eterno que devassava os seus íntimos com a mesma violência com que fustigava a cordilheira.            Aquilo que atormentava o discípulo, ele não se sentia digno de o descrever ao seu mestre, eram palavras inúteis de um mundo impuro, assustador e longínquo. Quando descera com outros monges até á povoação mais próxima, deixara-se encantar pelas narrações de um mercador de pele acobreada que viera do sul, das terras sem neve de Caxemira. Ficara como que preso durante horas escutando, maravilhado, as histórias estranhas que aquele homem trouxera de tão longe, lendas de príncipes e princesas enredados numa paixão que invariavelmente resultava em tragédia, descrições de minaretes recobertos com metal onde a luz do Sol acendia outras tantas estrelas, e aves de mil cores com olhos brilhantes nas penas da cauda. A palavra amor ressurgia em cada descrição e em cada história, acompanhada de versos onde se cantava a beleza de dançarinas miríficas de cabelos escuros entrelaçados com fios dourados, rostos de uma beleza perfeita e corpos quase nus com ventres palpitantes e seios de mamilos ornados de safiras.            Pensar nisso aturdia o discípulo. Refugiava-se então nos mantras que repetia com fervor, e enfrentava o ar gelado do exterior para pedir aos antepassados que moravam nos cumes das montanhas que descessem pelos seus sonhos para reconciliar o seu espírito com o caminho do Iluminado. Sempre em busca de paz e respostas, inquiria aos monges mais jovens sobre o que era o amor, mas estes mostravam-se tão perplexos como ele próprio. Cansado de tantas evasivas, recorreu ao Lama e repetiu-lhe a pergunta com o coração inundado de terror. O mestre sorriu-lhe com complacência; e com uma tranquilidade ancestral explicou-lhe que o amor era ilusão, criado para dispersar o espírito que procura o Nirvana, como a flor dourada dos deuses que os caminhantes imprudentes julgam avistar nas montanhas, e que perseguem para acabarem mortos no fundo de um abismo ou soterrados por uma avalancha de neve. Nada disso era real, e tão inútil como as nuvens que parecem ter uma forma real aos nossos olhos mas que se desfazem com o vento, ou os grãos de areia que julgamos poder conter numa mão mas que se escapam sempre, deixando-a vazia.            O discípulo sentiu-se grato pela sabedoria do seu mestre. Algo dentro dele ainda se agitava, mas encontrou quietude na meditação e no silêncio. Regressou aos ritos e orações com uma intensidade redobrada, e nada lhe parecia mais importante do que repetir os ensinamentos de Gautama Buda, e seguir humildemente as suas pisadas em direcção ao Nirvana. Passaram-se semanas, em que todos os outros o viam recolhido e de tal forma mergulhado em si mesmo, que começaram a sentir-se preocupados com ele, pensando que alguma doença o consumia. Quando chegou o momento de se encetar a viagem ás povoações amenas da planície para se obter víveres, decidiram levá-lo também, a ver se recuperava a vivacidade e o entusiasmo que lhe conheciam.            Os monges que tomaram o caminho do vale, foram escolhidos por serem jovens e robustos, porque teriam de transportar a carga assente nas espaldas. O jovem seguiu-os como um sonâmbulo, olhando de vez em quando para os picos nevados, para ver se também ele era capaz de avistar a flor dourada dos deuses. A medida que iam descendo de altitude, o clima tornava-se menos rigoroso, e já conseguiam descobrir porções de solo onde a vegetação se percebia sobre a neve. Quando atingiram a primeira povoação Sherpa de casas modestas, pareciam terem mergulhado num outro mundo, as roupas das pessoas eram menos pesadas do que no alto, a luz sobre o vale era diferente, e enchia-lhes a vista um riacho borbulhante que se formara nos glaciares dos picos.            Enquanto os seus companheiros se afadigavam a reunir os géneros, o monge caminhou distraidamente, e avistou  uma jovem envergando um vestido de peles, que enchia o seu recipiente no riacho. Tinha os cabelos negros e luzidios, como nunca antes vira. Quando ela se virou, o monge sentiu-se aturdido ao contemplar o seu rosto arredondado e alegre, e o traço perfeito dos seus olhos amendoados. Ficou cravado ao solo enquanto ela caminhava na sua direcção com a vasilha. Quando a jovem estava próxima, ela tropeçou numa pedra e deixou cair o recipiente que se estilhaçou perto de si. Algo dentro do monge pareceu ter-se estilhaçado no mesmo instante. Saltou para diante, e recolheu rapidamente na cova de um dos braços, todos os cacos de que foi capaz. Ergueu-se com cuidado e aproximou-se dela com as batidas do coração a repercutirem-se nas têmporas, e ela sorriu-lhe. Levantando a dobra da sua capa, ela formou uma bolsa onde o monge depositou os fragmentos, e num gesto de gratidão, ela ergueu a mão e afagou-lhe o rosto, arrepiando-o com aquele contacto macio e cálido.            Ficou a contemplá-la, preso dos seus movimentos. Quando se reuniu aos seus companheiros, estava mais inquieto e agitado do que nunca. De regresso ao mosteiro, não foi preciso desfazer-se em palavras inúteis para que o seu mestre se apercebesse do peso que guardava dentro de si. As preces e os mantras deixavam-no indiferente, e dava longos passeios pelas salas do mosteiro como se não conseguisse fixar-se em lugar algum. Foi, pois, sem surpresa que o Lama o viu surgir diante de si com as vestes vermelhas rasgadas e os ombros cobertos de cinzas, num gesto inequívoco de ruptura. Com uma tigela de barro cheia de água, o monge lavou os pés ao seu mestre num último sinal de respeito e deferência. O mestre perguntou-lhe com desalento se já não almejava a libertação e a luz, ao que o discípulo baixou as pálpebras num sinal de desconhecimento, e refugiou-se no silêncio até se retirar.            Horas depois o jovem abandonou o templo. Enquanto o mestre observava a sua partida do largo alpendre do templo, ele tomou o caminho das aldeias do vale, em busca da flor dourada dos deuses que lhe aparecera sob a forma de uma mulher.

Kimura


A cerejeira de ramos despidos localizava-se junto ao muro de pedra, no topo norte do jardim. Era inverno. Kimura inspecionou o jardim. Pela primeira vez em muitas semanas, o frio diminuíra e o sol espreitara um pouco nesse dia. A Primavera parecia possível, agora. As glicínias, os animais e insetos, as flores na trepadeira do muro de pedra, as árvores de fruto a desabrochar numa sofreguidão vegetal. Kimura sentou-se num banco de pedra. Sentia-se feliz, poderia entoar um mantra ou um verso de Bashô, mas contivera-se por deferência aos dois pardais cor de canela que saltitavam e trinavam nos ramos despidos da cerejeira, os primeiros pássaros que ali via nesse Inverno.

Nota etnográfica citadina

Resultado de imagem para manekineko

     O gato de cerâmica animado com uma das patas levantadas a acenar que se encontra em lojas chinesas e restaurantes de comida oriental, chama-se Maneki Neko (gato que acena), atrai clientes à loja ou boa-sorte aos que o possuírem (algumas crenças diferenciam o tipo de benefício, consoante seja a pata direita ou esquerda a agitar-se). É comum o Maneki Neko ser representado com uma preocupação naturalista, fazendo-o semelhante ao Bobtail, a raça de gatos japonesa, mas muitas vezes são dourados, para o associarem à riqueza e ao ouro. A própria raça de gatos Bobtail é considerada uma raça-talismã para a fortuna e boa sorte, porque não é raro terem os dois olhos de cor diferente, um amarelo (ouro) e o outro azul (cor que simboliza a prata na cultura japonesa).
     O Maneki Neko é suscetível de gerar alguns equívocos nos espíritos ocidentais menos preparados. É corrente, algumas pessoas pensarem que o gato que acena na entrada das lojas se está a despedir dos clientes, ou que representam um aviso subliminar de que serão punidos se não pagarem o que levam ou tentarem furtar algum artigo (como se a pata que acena estivesse a querer alcançá-los com a garra). Quando alguém informa essas pessoas sobre a função do gato, logo eles supõe, em virtude do anglo-saxonismo dominante, que o seu nome é Money Kineko. De todas as formas, o lugar em que se encontra o Maneki Neko nestas lojas chinesas e restaurantes orientais, é um ótimo ponto de encontro para os clientes, sobretudo se tiverem cauda e se chamarem Bob, Roberto ou Esponja.

Marx

O médico estuda o velho visionário que oscila na sua cadeira de balouço com mais impulso e força do que aquela que seria realmente necessário empregar. É um louco e faz coisas de louco – deveria pensar. Mas continua a estudá-lo com afinco. Balança-se para trás e para a frente com energia, mas sem excesso, não existe o risco dos movimentos da cadeira se descontrolarem e ele ser projetado. É uma força exagerada, mas empregue com medida e razão. Não indicam sanidade mental mas, no entanto, também não a excluem. Tenta fazer conversa, colocar questões que sabe serem úteis e importantes para avaliar alguém, mas não obtém nenhuma resposta. O médico aborrece-se por fim, e deixa o senhor Marx na sua cadeira de balouço, rumando para o seu próprio camarote. Marx é um visionário que balança a sua cadeira de balouço ao ritmo da ondulação do mar. Antes de chegar ao camarote, faz um desvio até ao refeitório. Aproximava-se a hora de almoço. Os poucos comensais que já ali estavam estão agarrados as mesas ou às próprias cadeiras em que estão sentados. Balançam à mesma, mas segundo os caprichos do mar. E parecem tão assustados e mal-dispostos que o médico duvida que consigam comer alguma coisa.

Lío

Todo esto es un lío!Troou o taxista espanhol quando nos vimos imobilizados num engarrafamento em Pamplona.
O quê? Apetecia-me perguntar. O que é que é um lío? O trânsito, o FMI, o futebol, o frio? Sim, o que é que é um lío? Nada perguntei de viva voz e por tal, nenhuma resposta obtive. Ficamos ali, no meio do trânsito, presos, o taxista em pé ao lado do carro, com a porta aberta e um pé enraizado no interior (o direito, se interessa saber qual), e eu sentado no banco de trás, sem respostas e sem ansiolíticos, com os cotovelos suados colados à napa do assento e uma vontade terrível de acender o cigarro proibido. Por fim, o trânsito começou a mexer, o taxista aterrou no seu assento e ligou o carro, e enquanto as rodas rodavam os primeiros metros no alcatrão, olhou para o banco de trás pelo espelho, mas eu já não estava lá. Ascendia pelas espirais anis de fumo até ao terraço da nicotina.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...