INSTRUÇÕES:

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O perigo


     Saúl foi contratado para trabalhar como paquete no hotel, no dia que se seguiu ao início das aulas. Foi mesmo assim. Começou as aulas e nesse mesmo dia a mãe viu que não havia dinheiro para os estudos dele e, no regresso a casa, parou no Hotel Estrela a conversar com o porteiro, velho amigo de família. Quando Saúl chegou a casa, ainda eufórico da alegria enfunada do primeiro dia de aulas - de rever os colegas, e de passear pela cidade com eles, a deitar o olho a tudo o que fosse mulher e tivesse menos de setenta anos - a mãe comunicou-lhe que arranjara emprego para ele, e que começava logo na manhã seguinte, sem delongas. Para Saúl foi como um cataclismo, com a terra de promissão avistada do alto de uma colina, e logo a terra a abrir-se debaixo dos seus pés, e ele a cair direto num inferno a abarrotar de línguas de fogo e demónios chifrudos.
     Naquela noite, Saúl revoltou-se, mas sozinho. Chorou, soltou imprecações, esmurrou a almofada. De manhã, quando o pai lhe bateu à porta do quarto, estava deitado no chão ao lado da cama, e as lágrimas já lhe haviam secado nas faces, deixando aí a sua epiderme salgada. Vestiu-se e foi para o hotel.
     O trabalho, até nem se revelou muito mau. Trabalhava de paquete no átrio da receção, e também ajudava na entrada e saída dos ascensores, ou a pôr as mesas quando se aproximava a hora das refeições. Quando não havia mesmo nada para fazer, ia conversar um pouco com o porteiro, tendo o cuidado de regressar ao interior do hotel sempre que avistava no passeio algum dos seus amigos da escola. Não queria ser visto ali, naquele uniforme ridículo, e com aqueles sapatos negros e antiquados que brilhavam mais do que um corvo que tivesse caído numa barrica de melaço. Por vezes, o porteiro, tirava da gaveta de uma mesinha uma garrafa espalmada que lhe oferecia sempre para beber (recusando logo ele) antes de erguer o gargalo aos lábios e beber, sôfrego, como um velho que tivesse encontrado o elixir da longevidade. Os dias foram correndo, e Saúl começou a sentir curiosidade pela garrafa e pelo líquido no seu interior. À primeira vez que se atreveu, desenroscou a tampa e o cheiro da aguardente fê-lo recuar a cabeça, conseguindo com isso dar uma violenta nucada num bengaleiro alto da entrada. Ficou meio aturdido, enquanto o porteiro, entre risos e fazendo desaparecer a garrafa num passe de mágica antes que aparecesse alguém, e lhe segredou: Amanhã, trago uma só para ti!
     No dia seguinte, o porteiro saudou-o com uma interjeição inusitada, talvez a sugerir cumplicidade e trato afável entre dois velhos compinchas, e apontou-lhe uma outra gaveta, a gaveta central de um móvel de apoio no átrio do hotel - e Saúl soube que a garrafa estava ali. A meio da manhã, resgatou-a, envolvendo-a numa revista e levando-a à socapa para a casa-de-banho. Fechou-se numa das divisões, sentou-se em cima do tampo da sanita, e sondou aquela oferenda do porteiro. Desenroscou-a e o mesmo cheiro entrou-lhe pelo nariz adentro como se fosse amónia ou cianeto. Encheu-se de coragem e experimentou saborear um gole, e aquela bebida queimou-o por dentro a boca e a garganta, fazendo-o tossir de aflição. Recobrou a compostura e a respiração, e bebeu um segundo gole, que encaixou com mais facilidade. Depois de esvaziar metade da garrafa, o sabor e a força da bebida já he pareciam razoáveis, e mesmo o cheiro parecia ter o seu quê de agradável e familiar, como o odor do tabaco de charuto, ou os perfumes carregados em exagero de algumas damas que entravam no hotel na fugaz companhia de hóspedes comprometidos. Sentia as pernas fracas, como se fossem de borracha, e a flor-de-lis anil do rodapé da casa-de-banho parecia iridiscer-se como uma lança de brilhante lápis-lazúli. Bateram à porta, pancadas secas mas firmes, que lhe fizeram estremecer os neurónios.
     - Saúl!?
     Era o porteiro. Deitou a garrafa no balde dos papéis e só com esse gesto sentiu a cabeça a andar à roda.
     - Tens de sair daí, pá! Está lá uma dama carregada de malas para tu levares para cima.
     Saúl estremeceu. Abriu a torneira do lavatório e sujeitou àquele jato de água fria a parte da cabeça que conseguiu colocar entre o perlator da torneira e a louça de grés, depois, tomando uma porção de água nas mãos em concha, encharcou o resto do cabelo e a cara transpirada como se isso o pudesse arrancar daquele torpor etílico. Enxugou-se como pôde e, determinado, abriu a porta de rompante. O porteiro já se tinha eclipsado e ele tomou o caminho da receção, encontrando nas paredes o suporte que as pernas lhe negavam por inteiro. Mal o viu, o rececionista debitou uma ordem para o ar e apontou uma figura diante de si. Saúl percebeu que ele falara no 304, sabia que o 304 se situava no quinto piso do hotel, menos mal, ainda se recordava de algumas coisas - empilhou três malas num trólei prateado para malas, mantendo o olhar baixo para ninguém perceber o seu estado mas foi assim, de olhos rasos de medo de encontrar outros olhares perscutadores e inquisitoriais, que ele chegou aos pés da nova hóspede, e admirou uns maravilhosos sapatos pretos de cunha, e umas pernas perfeitas e torneadas envoltas em meias negras de seda. A mulher usava uma saia subida ou recuada (não sabia como por as coisas) que terminava menos de um palmo abaixo do V entre as pernas. Tentando ocultar a sua excitação, começou a puxar o trólei das malas com tanto ímpeto que aquela que estava por cima caiu de imediato, rolando pelo chão alcatifado. Foi a própria hóspede que a recuperou e colocou de novo no carrinho, soltando uma risadinha cristalina que fez esfumar as desconfianças do rececionista que se avolumavam no ar como uma nuvem de tempestade. Antes que o efeito positivo daquela reacção se desvanecesse, Saúl tomou de novo o caminho do elevador com o carro de malas, seguido pela hóspede. Entraram no elevador, com ele sempre a fugir com o olhar para os pontos do cubículo onde ela não estava, o chão, o painel do ascensor, o tecto vítreo com uma lâmpada de luz amarelada na parte superior povoada de muitos insetos minúsculos. Quando o elevador se deteve, seguiu a mesma estratégia, a puxar pelo carro das malas, e ouvindo atrás de si o andar compassado da hóspede, amortecido pelo chão alcatifado. Parou frente ao quarto requisitado e enquanto ela abria a porta, teve de se apoiar na ombreira, com a cabeça às voltas.
     - Entre - convidou ela com uma voz brincalhona.
     Saúl cambaleou para dentro dos aposentos e deixou-se cair numa poltrona. O mundo rodou em volta e deslizou pelas paredes de uma torre alta como pedra e metal derretidos. com ele a oscilar no topo da torre, e as luzes do teto a encadearem-no como sóis ateados no quarto. Segurou-se aos braços da poltrona para se tentar levantar mas uma mão suave e macia pousou no seu peito e sossegou os seus terrores. Deixou-se ficar, admitindo a sua derrota e a sua impotência. Fechou os olhos, a tentar recuperar o auto-controlo, e adormeceu sem dar conta disso. Quando acordou, várias horas tinham decorrido. Estava deitado na cama do quarto, despido quase por inteiro, e sentiu junto ao seu o corpo nu e quente da hóspede, sentiu um lampejo de pânico, desvanecido de imediato pelo calor que emanava dela, e pelo perfume suave que se desprendia da sua pele. Ela abraçou o seu torso, refugiando-se sob o seu braço, com os seios macios pousados nas suas costelas. O seu rosto encontrava-se junto ao seu, com os lábios carnudos pintados de vermelho escuro. Os olhos grandes e cândidos com uma simplicidade de adolescente fitavam-no, cúmplices, como se ambos se conhecessem desde sempre, e fosse a coisa mais natural do mundo estarem juntos. Os seus rostos tocaram-se, e os lábios e as línguas desfaleceram numa vertigem de húmido desejo.
     Verónica, assim se chamava a hóspede, era casada e estanciava naquele hotel enquanto o marido participava num congresso numa cidade próxima. Verónica fazia tempo enquanto o marido ficava retido no congresso, havendo combinado que ambos regressariam então juntos a casa. Depois daquela experiência complicada com a garrafa de aguardente, Saúl focava-se agora e apenas em Verónica. Encontravam-se quase sempre, no quarto dela, em encontros fugazes e tórridos durante o dia, ou em momentos langorosos quando Saúl lá passava a noite. Mas ela também gostava da sensação do risco, de terem sexo no elevador, na lavandaria do hotel, ou no anexo da recepção onde se guardavam as malas dos hóspedes que aí as depositavam para serem levantadas mais tarde. Foi com satisfação e uma ponta de orgulho que Saúl constatou que no hotel todo o pessoal gostava de Verónica e simpatizava com a sua maneira alegre de ser. Dos cozinheiros ao seu amigo porteiro, todos os funcionários da receção, os cozinheiros e camareiras, e entre elas a carnuda e libidinosa morena que as chefiava. Todos sem exceção diziam maravilhas da sua simpatia e boa-disposição, e era com um misto de desejo e carinho que Saúl comparecia quando ela o chamava, como se ela e Verónica fossem passageiros permanentes de uma viagem que nunca iria acabar. De certo modo, notava-se que Verónica também sentia algo por ele, talvez estivesse apaixonada. Numa vez em que acordou a meio da noite e a viu entrar no quarto sem que tivesse notado que ela se ausentara daí, ela despiu-se e enfiou-se de novo na cama, explicando:
     - Sentia-me irrequieta e fui lá abaixo ao bar beber um drink.
     Ele pensou em argumentar que havia bebidas no quarto, mas isso pareceu-lhe algo estúpido de se fazer. Abraçou-a apenas.
     - Meu amigo, meu perigo! - sussurrou ela, usando pela primeira vez aquela frase que se tornaria corrente.
     - Não percebi...?
     - Quando somos muito amigos de alguém, amigos como nós somos, corre-se sempre o risco de nos envolvermos mais do que seria prudente. É aí que está o perigo...
     Ele sentiu um carinho sufocante por ela, e sentiu-se emocionado quando ela se alcandorou nele, envolvendo o seu corpo num amplexo faminto.

     A felicidade de Saúl durou apenas mais uns dias. Um recado deixado na receção preveniu a sua amante (era incrível como essa palavra aquecia o íntimo de Saúl) que o congresso havia terminado e que o marido dela a viria buscar na manhã seguinte. Verónica narrou isso entre lágrimas, abraçado a ele, e repetindo como numa litania: meu amigo, meu perigo!
     Saúl esteve com Verónica no quarto dela ao fim da tarde, e depois não mais a viu. Voltou a bater-lhe à porta do quarto depois do jantar e a altas horas da noite, mas ninguém abrira, nem se ouvia qualquer som vindo do interior, era como se ela já tivesse abandonado o Hotel. Angustiado e depois de muito esperar, Saúl adormeceu no corredor junto à porta do quarto dela. Foi um toque suave no seu ombro que o despertou e Saúl levantou-se de um salto. Verónica estava junto a si, com as malas feitas na entrada do quarto. Ajudou-a a transportá-las até ao elevador. No caminho cruzaram-se com a encarregada do serviço de quartos que despediu com um gesto uma camareira que conferenciava com ela, aproximou-se de Verónica e as duas abraçaram-se e beijaram-se na boca perante o olhar pasmo de Saúl - minha amiga, minha amiga!, disse-lhe Verónica num lamento. Ainda não refeito da surpresa, Saúl viu o velho Elias, que recolhia e engraxava os sapatos dos hóspedes, abraçar-se em pranto a Verónica, que o puxou para si com as mãos no seu traseiro enquanto sussurrava ao seu ouvido em jeito de consolação: meu amigo, meu perigo. As manifestações tórridas de carinho e aquele estribilho repetiram-se uma e outra vez até chegarem ao exterior do Hotel, sem falsos pudores nem reservas sociais, o cozinheiro, os empregados da copa, os funcionários da receção, o seu amigo porteiro.
     Cá fora na rua, o marido de Verónica esperava no estacionamento, de pé ao lado do carro, e enquanto Saúl puxava pelo trólei com as malas, ela, junto a si, lembrou-se de lhe afiançar:
    - Foste o meu maior perigo, amigo meu!
    Saúl não tinha como responder, carregou acabrunhado as malas na bagageira aberta da viatura, e quando a fechou, Verónica, em jeito de despedida, segurou-lhe nas mãos a pretexto de lhe dar uma gorjeta. Tinha as mãos a escaldar. Ou eram as dele que haviam gelado com a surpresa que tivera.


Grandes remédios



     - Como se sente?
    - Dói-me, dói-me cá dentro, como se uma bomba tivesse explodido e calcinado todos os meus sonhos, memórias, esperança ou vontade de lutar, é uma aspereza, ou um buraco fundo e sem fundo, uma cave escura sem portas, o interior de um caixão.
     - Descreva-me melhor o que o levou a isso!
     - Não sei bem, acho que foi uma espécie de desgosto de amor, tinha uma esperança numa pessoa, alimentei sentimentos ternos e fantasias por ela e acabei por descobrir que essa esperança era irreal, farrapo de névoa a desfazer-se aos primeiros raios de Sol da manhã. Quando constatei isso caí desamparado na tal dor que mencionei. Não sei como sair disto.
     - Não se preocupe com isso porque nós tomaremos a sua recuperação nas nossas mãos. Vou-lhe receitar uns comprimidos para o efeito, vão-lhe causar alguma sonolência ou uma sensação de torpor e distanciamento daquilo que o rodeia, mas são efeitos temporários e reversíveis. Daremos instruções ao seu tutor laboral para aumentar o seu número diário de horas de trabalho porque nestas coisas a atividade acrescida tem um notório efeito salutar. Nos tempos livres, se não estiver a dormir, procure ver televisão no canal do Estado que, aliás, é o único que existe - também irá colher um grande benefício disso...
     - E acha que será suficiente, doutor?
     - Estou convencido disso, mas se porventura os sintomas persistirem depois desse tratamento, podemos inscrevê-lo numa daquelas florescentes cirurgias profiláticas ao sistema límbico. Uma pequena intervenção e passará a recuperar mais depressa das complicações afetivas e ficará mais fortalecido para outras complicações que possam surgir no futuro. Estas situações atrofiantes e improdutivas são escolhos nos desígnios que o Estado traça para os cidadãos.
     - Não sei como lhe hei-de agradecer, doutor?!
     - Sacuda esses resíduos virais do seu íntimo e trabalhe, trabalhe muito. Não deixe que uma mera doença lhe retire as oportunidades de que dispõe para que os outros sintam orgulho em si e no seu contributo para o país.

Vida profícua

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Cena do filme Forrest Gump, de Robert Zemeckis (1994)

     Se beberes 2 litros de água por dia, não odiares ninguém e comeres muito alho, vais ter saúde e ser feliz!

     Releu o que escrevera, e apagou antes de fazer uma nova tentativa:

     Se mudares para um emprego que te mereça, deixares de pagar a pensão à tua ex-mulher e com esse dinheiro pagares a joia de incrição numa academia de ioga, as coisas vão ficar mais fáceis e a felicidade virá ao teu encontro!

     Não precisou de reler para perceber que não prestava, fechou a publicação do Facebook, não, não queria permanecer na página, fez Log out, e levantou-se da cadeira. A biblioteca da Penitenciária não tinha quase ninguém àquela hora, o que se ajustava à vontade permanente que sentia de não ver nem falar com ninguém, aproximou-se do vidro espesso entre ele e as grades da janela e olhou para fora, no canto superior direito ainda se descortinava uma nesga de solo com com montes escurecidos e algumas árvores despontando na linha do horizonte como espinhos de cardos. O céu encontrava-se escuro ensem detalhes. Odiou-se por sentir calor e comichão nas faces e odiou o mundo por existir e estar lá fora, e haver grades e vidros-torpedo entre eles, e gente, gente inúmera e sem fim a encher todos os recantos e escaninhos do mundo dentro e fora da prisão, detestava pessoas e só sentia fascínio e atração pelas suas entranhas viscosas e olorentas, sentou-se de novo diante do computador. Leonardo Mascarenhas (era esse o seu nome público) era uma pequena estrela em ascensão. A sua página de conselhos e ensinamentos contava já com trinta mil seguidores e no YouTube o mesmo sucesso repetia-se com uma adesão maciça de viewers aos seus vídeos repletos de beleza e sabedoria. Consolidara o seu nome e o seu prestígio com fotos editadas de terceiros, do Taj Mahal, dos dançarinos ropiantes sufis, de jardins de meditação de um templo budista. Como isso não parecesse suficiente, enriqueceu o seu espólio com montagens fotográficas dele e de personalidades famosas: o Dalai Lama, Lanza del Vasto, a taróloga Quirina do Barreiro, e o Papa Francisco. O seu eu, o alter-ego de imagem que usava, eram as fotos de um modelo masculino que pilhara de uma sessão fotográfica gravada no portal de uma marca de vestuário.

     Ouviu bater na porta da biblioteca, e soube que o iam buscar. O guarda prendeu-lhe primeiro os pulsos com umas algemas, e depois verificou se não estava lassa a máscara que lhe cobria a cara, assim como o estado do respiradouro perfurado que lhe protegia a boca, ou protegia os outros da sua boca de antropófago esfaimado e obsessivo. Quando o retiraram da divisão, os outros presos entreolharam-se, mais aliviados, enquanto nas extremidades algodoadas da teia de comunicação que ligava aquele lugar a todos os pontos do mundo, centenas de olhares apreensivos notavam que nenhum ensinamento de vida era transmitido há dois dias por Leonardo Mascarenhas, e as suas almas inquietas, desamparadas como a de órfãos recentes, divagam então pela Web, a tentar ultrapassar o seu desalento e o seu recatado e corrosivo desespero.


uma pessoa

A morte procurou o poeta, não a morte alegórica e negra de gadanha e face óssea-áspera, mas a morte interior-e-íntima, que semeia nas vísceras do corpo a podridão ectoplásmica que escorre do espírito e do coração. Mas a morte não encontrou o poeta, não às primeiras. Não o encontrou no cavalheiro de nome gentil que criara para resgatar a presença do pai falecido. Não o encontrou igualmente no Iskandar peregrino que procurava os limites do mundo anglo-saxónico, ou no pedante que embrulhava em latinismos as suas divagações de todos os dias, escapou-lhe enfim no engenheiro frustrado e amargo que mal se conseguia soerguer do seu opiáceo pessimismo, e fugiu-lhe por antecipação em Caeiro que se resolvera a morrer de tísica antes que ela o aniquilasse. Quando a morte alcançou o poeta numa cama de hospital, já não havia lugar para a morte. As palavras que criara em múltiplas vidas eram a antítese fecunda do nada que nada é e da vida pobre que em nada se torna.

Névoa

     Ainda não me tinha apercebido de mim mesmo, e já sabia que desejava ser névoa, desejava-o com todas as moléculas de vapor que dançavam na corrente rubra das minhas veias, e nas nuvens algodoadas dos meus olhos azulínos. Logo na hora de nascer, a minha mãe e a parteira perceberam o mesmo, eu era mais nuvem que carne e só me conseguiam segurar e aconchegar enrolando-me o torso em mantas quentinhas que impediam que eu desejasse sair dali. Toda a minha vida foi uma luta incessante entre um eu absurdo e os outros que me tinham medo ou pavor, ao escárnio dos meus amigos e família eu equilibrava e compensava nas doces horas de recolhimento no meu quarto, repousando na cama, e debaixo dela, no ar junto às paredes, e no teto, onde a minha mãe pintara uma Lua, porque dizia que era ali que eu tinha a cabeça. E então, aconteceu Flâmula. Flâmula era uma jovem de longos cabelos dourados, tão bela e doce, quanto irrascível e dada a grandes fúrias, tudo dependendo do momento e da companhia. E Flâmula gostava de estar ao pé de mim, dizia que a minha presença lhe fazia bem, e acalmava-a, como se ela fosse um astro incandescente pousado na lama e eu me estendesse em volta como um lago de águas profundas e coroado de névoa. Flâmula começou a ficar em minha casa, no meu quarto, com a concordância benevolente, mas algo triste, dos meus pais. Dormíamos juntos, vapor e fogo, matéria e ar. A humidade e o fogo conjugavam-se como contrários na vertigem do beijo e na libertação do sémen, e os nossos corpos entrelaçavam-se numa orgia dionisíaca de elementos fecundos. O desejo era grande e os nossos tempos de intimidade pareciam que nunca iriam acabar. Mas pessoas não gostavam da Flâmula e não gostavam de mim. Éramos estranhos e bizarros, olhavam-nos de soslaio quando passeávamos juntos na encosta dos moinhos, apontando-nos as foicinhas com que colhiam o cereal, e o meirinho não disfarçava o ódio que me tinha, enquanto todos notavam que desejava Flâmula, que a queria ter. O meirinho veio a minha casa com os soldados e falou com os meus pais, primeiro tentou convencê-los a expulsarem Flâmula de casa para o seu próprio bem, porque eu tinha alma de demónio, porque só estes se transformam em nuvens, depois passou às ameaças, mutilaram o meu pai e queimaram o cereal que tínhamos guardado no celeiro. Flâmula e eu falamos em fugir, precisávamos fugir, mas demoramos muito tempo, porque os nossos corpos e aquele quarto casavam-se como uma solução nova na retorta do alquimista que a criou. E o meirinho agiu primeiro do que nós, com dois homens foi capturar Flâmula, enquanto outros dois foram ao meu quarto para acabar comigo. E conseguiram, quando saíram da casa, o meu corpo ficou no chão do quarto, trespassado e cortado pelas espadas, enquanto Flâmula livrou-se do meirinho e dos seus ajudantes ao carbonizar os seus corpos como quem deita um archote numa pilha de feno. A morte libertou-me, não da forma que eu queria, mas libertou-me. Segui Flâmula na sua fuga para longe, acompanhei os seus passos, velei pelo seu sono, envolvendo os sonhos que sonhava. De manhã, ela vê-me e sorri, esteja eu no seu quarto, ou pairando baixo entre as árvores de um pomar ou nos recessos dos vales fundos. Por umas horas, e até ao entardecer, deixamos de nos ver, nessas horas em que os seus cabelos louros e a sua tez dourada brilham com tons de fogo, e a sua beleza resplandece como um templo de ouro sob o sol do meio-dia.

(...)

Turquesa e azul escuro a noite descia sobre a Terra esbraseada e calcinada pelo sol, as corujas abriram os olhos de luz, os vermes cor-de-osso irromperam na terra gretada como pensamentos recalcados e magros que aguardavam na penúria o apelo das trevas e a brisa entre as árvores trouxe-lhe esporos caídos das caudas dos cometas
Ele permanecia quieto, desvaído, sem forças
Turquesa e azul escuro a noite escurecida e a despertar a Terra dessedentada pelas estrelas,
ambas reais, sensíveis, presentes ao olhar e ao tacto, estavam ali, à sua volta, quietas e absortas, como se contemplassem com fundo respeito, o sangue renovador que fluía dos seus pulsos cortados

Um amor quântico


Dia após dia, os dois voltavam a encontrar-se. Como não? Trabalhavam juntos, gostavam das mesmas coisas e sentiam-se identificados um com o outro, o que um dizia, contava, gracejava, o outro ouvia, bebendo as suas palavras, e deslizando docilmente no caminho das suas palavras e piadas como um barquinho à vela com o vento de feição num lago de águas calmas. Por vezes, lembravam-se, percebiam a distância que se espraiava entre os dois, o arame farpado das suas próprias dúvidas e medos a alancear o coração. Então, ela falava dos filhos, da escola dos filhos, dos trabalhos e projetos do marido, e ele, contrafeito, sentia que tinha de representar as suas falas e o papel que lhe estava atribuído pelo universo, e falava também das suas próprias filhas e de como ele e a mulher se sentiam assoberbados por viverem com três filhas adolescentes em casa, uma ilha acossada por um mar de inquietações e hormonas. A amizade dos dois, terna e embaraçada, prosseguiu durante anos. Mas não em todos os dias do mês e do ano, porque eles deram um jeito, improvisaram, acreditaram que o impossível não existia. Uma vez por mês, os dois passaram a encontrar-se. Como dois namorados de liceu, iam ter a um lugar combinado, longe das famílias de ambos, um banco de jardim ou um promontório na costa com vista sobre o mar, e então namoravam um pouco. Refugiavam-se nos braços um do outro, comungavam carinho, desesperavam beijos, Era o seu oásis, o seu tempo condensado. Um minuto de felicidade juntos valia por dias e semanas de uma secreta e melancólica infelicidade. E, por ironia, foi esse tempo mínimo, exíguo, insuficiente e sôfrego, que os perdeu a ambos,

De «O Mito de Sísifo» de Albert Camus:


          Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos tem um
começo irrisório. As grandes obras nascem, frequentemente, na
esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante. Assim
também a absurdidade. O mundo absurdo, mais do que qualquer outro,
extrai a sua nobreza desse nascimento miserável. Em certas
situações, responder «nada» a uma questão sobre a natureza dos
seus pensamentos pode ser uma dissimulação para com um
homem. Os entes queridos sabem disso. Mas se essa resposta é
sincera; se representa esse estado d'alma em que o vazio se torna
eloquente, em que a cadeia dos gestos quotidianos é rompida, e
em que o coração inutilmente procura o elo que a restabeleça,
então ela é como que o primeiro sinal da absurdidade.
          Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, autocarro,
quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, autocarro, quatro horas de
trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e
sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior
parte do tempo. Um dia, apenas o porquê desponta e tudo começa
com esse cansaço tingido de espanto.
          "Começa", isso é importante.
          O cansaço está no final dos actos de uma vida mecânica, mas
inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a
desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno
inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo
do despertar vem, com o tempo, a consequência: suicídio ou
restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de
desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo
começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas
observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora
isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento
sumário das origens do absurdo. A simples "preocupação" está na
origem de tudo.
          Da mesma forma, e ao longo de todos os dias de uma vida sem
brilho, o tempo nos carrega. Mas sempre chega um momento em
que é preciso carregar com o tempo.
          (...)
          [O mito de Sísifo]
          Os deuses tinham condenado Sísifo a fazer rolar um rochedo
incessantemente até ao cimo de uma montanha, de onde a pedra
caía de novo devido ao seu próprio peso. Eles tinham pensado, com
razões muito próprias, que não existe punição mais terrível do que
o trabalho inútil e sem esperança   Se acreditarmos em Homero,
Sísifo era o mais sábio e o mais prudente dos mortais. Segundo uma outra
tradição, porém, ele tinha queda para o ofício de salteador. Não vejo
aí qualquer contradição. Diferem as opiniões sobre os motivos que lhe
valeram ser o trabalhador inútil dos infernos. Reprovam-lhe, antes de tudo,
certa leviandade para com os deuses. Espalhou os segredos deles. Egina,
filha de Asopo, foi raptada por Júpiter. O pai, abalado por esse desaparecimento,
queixou-se a Sísifo. Este, que tomara conhecimento do rapto, propôs a Asopo
orientá-lo ao respeito, com a condição de que fornecesse água à cidadela
de Corinto. Às cóleras celestes ele preferiu a bênção da água. Foi punido por
isso nos infernos. Homero nos conta ainda que Sísifo acorrentara a Morte.
Plutão não pôde tolerar o espetáculo de seu império deserto e silencioso.
Despachou o deus da guerra, que libertou a Morte das mãos de seu vencedor.
  (...)
          Já deu para compreender que Sísifo é o herói absurdo. Ele o é tanto
por suas paixões como pelo seu sofrimento. O desprezo pelos deuses,
o ódio à Morte e a paixão pela vida lhe valeram esse suplício
indescritível em que todo o ser se ocupa em não completar nada. É
o preço a pagar pelas paixões deste mundo. Nada nos foi dito sobre
Sísifo nos infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os
anime. Neste caso, vê-se apenas todo o esforço de um corpo
estirado para levantar a pedra enorme, rolá-la e fazê-la subir uma
encosta, tarefa cem vezes recomeçada. Vê-se o rosto crispado, a
face colada à pedra, o socorro de uma espádua que recebe a
massa recoberta de barro, e de um pé que a escora; a repetição na
base do braço, a segurança toda humana de duas mãos cheias de
terra. Ao final desse esforço imenso, medido pelo espaço sem céu e
pelo tempo sem profundidade, o objetivo é atingido. Sísifo, então, vê
a pedra desabar em alguns instantes para esse mundo inferior de
onde será preciso reerguê-la até os cimos. E desce de novo para a
planície.
          É durante esse retorno, essa pausa, que Sísifo me interessa. Um
rosto que pena, assim tão perto das pedras, é já ele próprio pedra!
Vejo esse homem descer de novo, com o passo pesado mas igual, para o
tormento cujo fim não conhecerá. Essa hora que é como uma
respiração e que ressurge tão certamente quanto sua infelicidade,
essa hora é aquela da consciência. A cada um desses momentos,
em que ele deixa os cimos e se afunda pouco a pouco no covil dos
deuses, ele é superior ao seu destino. É mais forte que seu
rochedo.
          Se esse mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde
 estaria, de facto, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de
ser bem-sucedido? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua
vida nas mesmas tarefas e esse destino não é menos absurdo. Mas
ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente.
Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a
extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa
enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento
consome, com a mesma força, a sua vitória. Não existe destino que
não se supere pelo desprezo.
          Se a descida, assim, em certos dias se faz para a dor, ela também
se pode fazer para a alegria. Esta palavra não é excessiva. Imagino
ainda Sísifo indo outra vez para o seu rochedo, e a dor estava apenas no
começo. Quando as imagens da terra se mantêm muito intensas na
lembrança, quando o apelo da felicidade se faz demasiadamente
pesado, acontece que a tristeza se impõe ao coração humano: é a
vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O enorme desgosto é
pesado demais para carregar. São as nossas noites de Getsêmani.
          Mas as verdades esmagadoras perecem ao serem reconhecidas.
Assim, Édipo de início obedece ao destino sem o saber. A partir do
momento em que ele SABE, a sua tragédia principia. Mas no mesmo
instante, cego e desesperado, reconhece que o único laço que o
prende ao mundo é o frescor da mão de uma garota. Uma fala
descomedida ressoa então: «Apesar de tantas experiências, a minha
idade avançada e a grandeza da minha alma fazem-me achar que
tudo está bem». O Édipo de Sófocles, como o Kirílov de Dostoiévski,
dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga torna a
encontrar-se com o heroísmo moderno.
          Não se descobre o absurdo sem ser tentado a escrever algum
manual de felicidade. "Mas como, com umas trilhas tão estreitas?"
No entanto, só existe um mundo. A felicidade e o absurdo são dois
filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a
felicidade nasce forçosamente da descoberta do absurdo. Ocorre do
mesmo modo o sentimento do absurdo nascer da felicidade. "Acho
que tudo está bem", diz Édipo, e essa fala é sagrada. Ela ressoa no
universo feroz e limitado do homem. Ensina que tudo não é e não
foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele havia entrado
com a insatisfação e o gosto pelas dores inúteis. Faz do destino um
assunto do homem e que deve se acertado entre os homens.
          Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence.
Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo,
quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No
universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil
pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e
secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o
preço da vitória. Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a
noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço não acaba mais. Se
há um destino pessoal, não há nenhuma desígnio superior ou,
pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível. No
mais, ele se tem como senhor dos seus dias. Nesse instante subtil em
que o homem se volta sobre sua própria vida, Sísifo, regressando ao
seu rochedo, contempla essa sequência de actos sem nexo que se
torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar da sua
memória e em breve selado pela sua morte. Assim, convencido da
origem inteiramente humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e
que sabe que a noite não tem fim, ele encontra-se sempre em marcha. O
rochedo continua a rolar.
          Deixo Sísifo no sopé da montanha! Sempre se reencontra o seu
fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e
levanta os rochedos. Ele também acha que tudo está bem. Esse
universo, doravante sem senhor, não lhe parece nem estéril nem fútil.
          Cada um dos grãos dessa pedra, cada clarão mineral dessa
montanha cheia de noite, só para ele forma um mundo. A própria
luta em direção aos cimos é suficiente para preencher um coração
humano.
          É preciso imaginar Sísifo feliz!

O (des)enlace


          A noiva entrou na taberna escura e suja com a longa cauda do seu vestido apanhada na curva do braço. Arfava, tentando ser paciente e mostrar condescendência, o que representava um esforço condenado ao fracasso. O seu amado estava sentado a uma mesa de carvalho de tampo de mármore, com o cálice de aguardente vazio a rodar entre os seus indicadores inquietos, desapertara a gravata do fato e ela iria jurar que já distinguira nele uma ou duas nódoas gordurosas.
          - O que é que se passa? Mudaste de ideias?
          Ele encolheu os ombros, todas as palavras lhe pareciam bolas de sabão diante daquele tsunami de Hokaido, erguido aos píncaros a esbravejar de fúria e de espuma salgada.
          - Não te mereço...
          Ela continuava à espera de uma resposta, de uma que explicasse alguma coisa, que desse um ar decente àquele repentino caos.
          - És boa demais para mim, acho que deverias procurar outro homem, que estivesse à tua altura e te fizesse feliz.
          Ela não desarmou o seu olhar, continuava apontado a ele, ao seu coração ou a um ponto frágil no meio da sua testa suada. Ele percebeu que batera no fundo. Esgotara as frases feitas que absorvera de filmes e novelas de televisão. Já não tinha por onde fugir.
          - Eu vou voltar para a limusina e compor o véu. Quero-te ao pé do altar em menos de cinco minutos para fazer abortar toda a coscuvilhice e troça dos ciganos, que aquela igreja está cheia deles. Não percebo porquê, escolhi a Sé por ser o templo mais elegante da cidade e tinha de estar cheia daquela gente suja e mal-cheirosa. Vi-os entrar aos magotes, parecia que estavam em dia de feira - interrompeu-se, lembrando-se do que viera ali fazer - Cinco minutos, ouviste? Nem mais um minuto!
          Saiu disparada da taberna, e o tsunami amainou e ficou chão, marulhando apenas no eco do som dos seus passos e no olhar aturdido do velho taberneiro.
          Foi a sua vez de abandonar a taberna, Galgou os degraus polidos da Sé e deteve-se no topo da escada com o pretexto de compor o casaco e a gravata. A noiva estava dentro da limusina com as damas-de-honor, buliçosas, em volta dela como de uma abelha-mestra. Relanceou o olhar pela praça, e viu-a, àquela que amava, o seu tudo-que-mais. A cigana encontrava-se de pé, semi-eclipsada pela esquina de uma casa, com os longos cabelos a esvoaçar na brisa. Não lhe conseguia ver os olhos e não sabia dizer se chorava. Segurava pela mão o pequeno Breno, o seu Breno. Sentiu-se agoniado, tomado de uma dor que o atingiu como um soco no estômago.
          Encolheu os ombros, murmurou uma desculpa que ninguém ouviria a não ser o Criador, e entrou no velho templo.


galope

Uma vida de emoções forte, o clique metálico do agrafador a unir as folhas dos despachos, a teia de aranha no teto do corredor, a mancha colorida no linóleo do chão, não aguento tantas emoções em disparada, a pulsação sobe, os vasos linfáticos inflam e linfam, sinto as mãos a tremer com os nervos, o tropel de emoções acelera, a sombra do cortinado batido pelo Sol da manhã avança sobre mim, há corpúsculos cósmicos de pó a dançar na atmosfera, o rapaz da sala de arquivo passa por mim como se fugisse de um fogo de feno na pradaria, tenho de me controlar, preciso refrear os nervos ou o coração ainda me rebenta no peito como uma melancia esmagada por uma marreta de ferro, calma, calma, respiro fundo para me acalmar e no fundo também há emoções, fogo, lava, tarântulas e salamandras de fogo, sarças ardentes de frutos de polpa sanguínea, as coisas estão a descontrolar-se, os puxadores ovais das portas estão muito mais manchados do que antes, e pulsam como pequenos corações de serpente, o coração, o meu coração, bombeia-me sangue alucinógeno para todo o corpo e já não me sinto capaz de manter os meus pensamentos seguros ao meu espírito e os meus membros colados ao meu corpo estou a desintegrar-me em centenas de células em losango que se cravam nas paredes e no teto como pontas de flecha em aço diamantino, estou a pulverizar-me mas o somatório de todas essas partículas não me representa, não sou eu, algum desses pontos, algum ponto será mais importantes do que todos os demais, e será o que eu sou como uma semente à escala planetária pressionada e comprimida até dimensões microscópicas e invisíveis a olho nu
- José?!
- Sim?
- Deixa de escrever nos relatórios e arquiva-os de uma vez por todas!!

O plano arquitetónico minuciosamente ajustado e concretizado da cidade de Xanadu-Al

Xanadu-Al era uma cidadezinha de província, que começou por ser como todas as cidadezinhas de província, sem origem certa e com uma mais-do-que-certa-ausência-de-futuro. Mas a mão do homem contrariou esse aparente determinismo. Ou a mão do sátrapa anatólico de Xanadu-Al. Gizando planos arquitetónicos fabulosos para a cidadezinha, deu ordens para que se iniciassem de imediato as obras.

E elas arrancaram, com um brilho e uma ambição desmedidas.

O alcatrão das ruas foi coberto por placas ovais de obsidiana, fundidas umas às outras com cordões de chumbo derretidos por feixes de Laser.

Um canal subterrâneo desviou da superfície o rio de águas lodosas que os gangsteres costumavam alimentar com os cadáveres resultantes das suas incessantes vendettas.

O cristal e o jaspe branco vestiram com novas roupas os prédios modernos mas esteticamente desajustados.

Os plátanos e os álamos antigos foram substituídos por árvores de zircão e ouro, onde pássaros mecânicos enchiam os ares com os seus cânticos.

Deixaram de existir portas fechadas em Xanadu-Al e todas as portas das casas se abriam para vestíbulos inundados de luz e das fragrâncias do incenso.

Os animais de estimação passeavam-se livremente pelas avenidas e pelos parques de árvores artificiais.

Xanadu-Al tinha TUDO para que alguém se sentisse feliz em viver dentro dela.

Mas Xanadu-Al não tinha ninguém. Já não existiam ali pessoas.

O sátrapa anatólico de Xanadu-Al teve de as vender, e aos seus bens, para custear as obras.

E teve de inciar as obras para dissimular as vísceras da cidade que começavam a sair pela boca dos túneis e pelas chagas no alcatrão das avenidas.

Majestade congelada

As pessoas, todas as pessoas, passavam sem lhe dizer nada - nem uma palavra! Não demoram o seu tempo, não moram os seus olhos nele; antes quebram o olhar diante de si, e infletem a atenção para uma carica de garrafa no lajedo, ou o caminhar balouçante de um pombo de penas sujas. As pessoas não queriam nada dele, nem mesmo as crianças, que são mais sãs e generosas do que os seus pares mais velhos e envilecidos.
Sentia-se mortificado e trazia o coração num bloco de pedra.
Era uma estátua muito triste.

Aburrimiento

Onde é que estás? Vieste por onde? Por que rua…avenida…beco…? Não sei se reparaste como eu, mas demorei o Zoom da minha retina nas antenas enferrujadas e arqueológicas dos prédios, e nas pombas que emasculam os seus bicos e se escondem ao entardecer – como virgens envergonhadas ou eunucos a sangrar - nas bermas dos telhados e nos peitoris novecentistas das janelas, na mulher de pernas cilíndricas que empurrava um cesto com rodas sob os insultos e as piadas de dois tipos que não consegui fixar na memória porque apenas guardo deles o pus etéreo das suas vozes. No ar insular e alheado de uma jovem encostada a um poste, com uma camisola pelos ombros e uma manga dessa camisola a insinuar um turbante sobre os seus cabelos fosforescentes, ela dedilhava aborta o ecrã táctil de um telemóvel, passei por ela e levantou o olhar por breves segundos, mas não o dirigiu a mim, aguardava do ar uma resposta que lhe chegou em seguida com um sinal sonoro com os sete primeiros acordes da música dos Marretas. Isso, não deves ter visto, foi demasiado célere, casual. Mas talvez tenhas descido ao parque de estacionamento subterrâneo. Que lugar estranho e triste. Como as catacumbas. Se caísse sobre a cidade um meteoro gigante que esmagasse a vida tal como a desconhecemos, o parque subterrâneo seria o lugar onde nos reuniríamos, seriam as catacumbas e os templos dos novos cultos, os seus tetos de anfractuosidades côncavas como tabuleiros invertidos de ovos, em cartão, esses tetos, enfim, são ideais para a acústica dos nossos cânticos de horror e nojo, e os charutos de ventilação com uma ventoinha em cada extremidade propagariam esses cânticos (when the shit hits the fan) por todos os cantos das catacumbas e do mundo exterior; e o nosso pastor usaria, além de um cajado de guardar cabras, um uniforme de segurança, porque os seguranças dos parques de estacionamento já são potenciais encarnações de Deus, investidos de toda a grandiosidade e solenidade de um Moisés ou de um Frodo. Nesta nova religião das catacumbas, os neófitos e recém-nascidos seriam batizados com óleo Castrol, os fiéis teriam por hóstia as pastilhas dos travões, e sentir-se-iam mais leves e próximos dos céus por ingerirem apenas, mas com frugalidade, gasolina sem chumbo. Vieste por onde? Estás onde? Espero-te no sentido exato dos teus calcanhares! Decerto que me encontrarás…

O céu dos carros

Delfina não tem história.
Podia ter nascido, se a sua potencial mãe tivesse tido filhos. Não os teve. Acasalou algumas vezes com o seu potencial pai no banco traseiro de um elegante Renault Dauphine, mas dali não resultou nada.
(Dauphine foi um belo nome para se dar a um carro, recorda Delfos, Delfim, um golfinho).
Delfina não existe, ao contrário de Dauphine. Só falo nela porque ainda retenho a imagem e o nome do carro e o som tranquilizador do seu motor nos meus ouvidos. Quando ainda trabalhava, e circulava por aí com a tranquila majestade de um delfim.
Delfina é o título adequado para uma elegia possível a um Dauphine esquecido a desfazer-se a um canto num cemitério de carros. Um Dauphine sem motor. Já sem motor. Como um que conheço.
Delfina já não existe.
Paz à alma do Dauphine.

João e Maria, uma história de amor

João ama Maria, Maria ama João. Começaram a namorar cedo, João imberbe e com acne, Maria franzina e de olhar sonhador. Os pais de Maria não aprovaram. João era pobre e não tinha futuro. Maria tinha de casar com alguém bem colocado na vida, e casaram-na com um velho. Maria aceitou. A decisão dos pais, e o velho que cheirava a velho sob a coberta perfumada de cetim da sua cama de menina. João não emigrou, não fugiu, nem se escondeu. Ficou sempre por perto, nas ruas por perto, nos bares da vizinhança. Maria e João continuaram a ver-se. Amavam-se, pois então. Viam-se às escondidas, e namoravam às escondidas, provando o fruto proibido nos lábios do Amor. Mal madurou um pouco, e se sentiu sustentada pelos esteios da sua própria vontade, Maria separou-se do velho e foi morar para o quartinho do João, para grande desgosto e condenação de quase toda a gente. Para Maria, era a única coisa sensata a fazer. Mas o peso dos outros, dos familiares e estranhos que moravam fora do quartinho deles, fazia-os sentirem-se asfixiados dentro dele. Decidiram emigrar os dois, procurar fortuna e liberdade num outro país. Foram os dois para a Austrália. Conseguiram arranjar um apartamento modesto para começarem uma nova vida, e ambos empregaram-se por lá. O dinheiro começou a entrar na casa e então João mudou. Fazia noitadas, jogava, bebia; batia na Maria, A felicidade dos dois era cada dia maior. Vieram os filhos, e nada mudou. João fazia noitadas, jogava, bebia, batia na Maria. Maria saiu de casa com os filhos, não por ser infeliz mas porque queria evangelizar a humanidade com o seu amor e a sua felicidade. João procurou-a, com a ajuda da polícia, não porque lhe desejasse mal ou aos filhos, mas porque queria contribuir e ajudar Maria a espalhar o amor que sentia por ele e pela vida. João vive desde então à procura da Maria e Maria a viajar pelos lugares onde ele não se encontra. E mais não narramos porque é difícil segui-los a ambos, mais os filhos; mas, em todo o caso, é uma bela história de amor inconclusa, que promete acabar bem como todas as belas histórias de amor

Santiago

     Santiago nasceu acidentalmente, fora de tempo e fora do lugar como um cogumelo. Os pais não estavam à espera de ter mais um filho. Os filhos dos pais não estavam à espera de ter mais um irmão. Apareceu junto à sua casa como um bacorinho trazido de outra pocilga. Olharam-no com atenção, era feio como o raio! Os pais taparam os olhos, e os irmãos taparam o nariz como se a fealdade fedesse. Deram-no para adoção a um mercador que por ali passou com a família numa viagem impossível à Jerusalém dos velhos versículos. O mercador e a esposa aceitaram-no e trataram-no muito bem. Davam-lhe incessantemente comida e, em breve, enquanto a caravana cruzava a Boémia, já Santiago estava gordo como um porquinho destinado ao abate. Não era acidental ele estar gordo, pelo menos, não tão acidental como o seu aparecimento no mundo. O caminho estava repleto de salteadores, e eles poderiam sempre oferecer-lhes  a criança como um bem precioso e tentador, sobretudo se os salteadores gostassem de carne humana e sentissem apetite pela gordura suína de Santiago. E também havia a possibilidade de o venderem nalgum mercado de escravos; no fim de contas, eles eram uma família de mercadores, e a gordura poderia ser olhada por muitos interessados como um sinal de saúde e vitalidade. A caravana foi prosseguindo – já vos contei que a família do mercador julgava que ainda encontrariam intacto o grande Templo de Jerusalém, porque uma profecia antiga dizia que o futuro da família estava inscrito na coluna de cobre Boaz? – e não apareceram salteadores, nem mercadores de escravos. Mas entraram numa região estranha que não encontravam nos mapas. A região tinha cidades e aldeias e rios tímidos na planura. Como outras regiões. Mas era estranha porque todos os seus habitantes eram feios e porcinos como Santiago, custava olhar de frente para a sua fealdade sem semicerrar os olhos. À passagem da caravana, todos festejavam e saudavam Santiago como a um irmão reencontrado; havia mesmo famílias que suplicavam ao mercador para que Santiago ficasse ali, e partilhasse um dos seus lares. Santiago pediu o mesmo ao mercador, e ele acedeu. Uma onda de euforia propagou-se pela planície, uma alegria esfusiante que se comunicou aos animais e aos rios na planície. Enquanto os cânticos e as danças esfogueavam à sua volta, Santiago admirou a caravana a afastar-se. Não se sentia triste, antes pelo contrário. Agora sabia que não era feio, apenas ainda não encontrara o seu povo de cisnes.

Não vou escrever metáforas para a vida, o futuro ou as palavras. Não vou. Não escrever metáforas é a minha meta – fora com as metáforas! Cada palavra será tão exata e ineludível como os termos de uma equação matemática. Não sigo com imagens fluidas do real concreto, ecos suavizados do estampido de uma arma ou da violência inaudita de uma exclamação de alegria. Narciso apodrece no fundo das águas. Singremos. Sem olhos na nuca, nem resíduos de nostalgia, a abocanhar os lótus de paz. Os horizontes germinam diante de nós, Polaris dos nossos sonhos tristes de penumbra, espiralam os seus ramos negros na linha do horizonte como uma mata pélvica que promete o prazer, e nos concede antes os frutos negros da morte, a gangrena das palavras em nós. Não vou escrever metáforas!

A flor dourada

Templo de Taktsang Palphug (Ninho do Tigre)

          O Lama olhou o discípulo nos olhos enquanto ele repetia os mantras sagrados. Há cinco anos que o recebera naquele templo no sopé dos Himalaias. Chegara ali sujo e com as mãos queimadas pelo frio, mas percebeu de imediato naquele filho de carregador a inteligência e a humilde dedicação que o fizera escolher para permanecer ali. Era um discípulo perfeito, com uma vontade indómita e uma sede inesgotável de conhecimento, servida por um espírito lúcido e perspicaz como um céu luminoso e sem nuvens            Agora, no entanto, sentia nele uma ausência indefinida, uma distância que fazia as palavras dos mantras soarem sem expressão. Acontecia por vezes aos jovens discípulos ficarem tristes sem mesmo eles saberem porquê, a melancolia surpreendia-os repentinamente no isolamento das montanhas e fazia-os sofrer enquanto admiravam com um olhar triste as escarpas nevadas dos montes, ou escutavam os silvos do vento agreste e eterno que devassava os seus íntimos com a mesma violência com que fustigava a cordilheira.            Aquilo que atormentava o discípulo, ele não se sentia digno de o descrever ao seu mestre, eram palavras inúteis de um mundo impuro, assustador e longínquo. Quando descera com outros monges até á povoação mais próxima, deixara-se encantar pelas narrações de um mercador de pele acobreada que viera do sul, das terras sem neve de Caxemira. Ficara como que preso durante horas escutando, maravilhado, as histórias estranhas que aquele homem trouxera de tão longe, lendas de príncipes e princesas enredados numa paixão que invariavelmente resultava em tragédia, descrições de minaretes recobertos com metal onde a luz do Sol acendia outras tantas estrelas, e aves de mil cores com olhos brilhantes nas penas da cauda. A palavra amor ressurgia em cada descrição e em cada história, acompanhada de versos onde se cantava a beleza de dançarinas miríficas de cabelos escuros entrelaçados com fios dourados, rostos de uma beleza perfeita e corpos quase nus com ventres palpitantes e seios de mamilos ornados de safiras.            Pensar nisso aturdia o discípulo. Refugiava-se então nos mantras que repetia com fervor, e enfrentava o ar gelado do exterior para pedir aos antepassados que moravam nos cumes das montanhas que descessem pelos seus sonhos para reconciliar o seu espírito com o caminho do Iluminado. Sempre em busca de paz e respostas, inquiria aos monges mais jovens sobre o que era o amor, mas estes mostravam-se tão perplexos como ele próprio. Cansado de tantas evasivas, recorreu ao Lama e repetiu-lhe a pergunta com o coração inundado de terror. O mestre sorriu-lhe com complacência; e com uma tranquilidade ancestral explicou-lhe que o amor era ilusão, criado para dispersar o espírito que procura o Nirvana, como a flor dourada dos deuses que os caminhantes imprudentes julgam avistar nas montanhas, e que perseguem para acabarem mortos no fundo de um abismo ou soterrados por uma avalancha de neve. Nada disso era real, e tão inútil como as nuvens que parecem ter uma forma real aos nossos olhos mas que se desfazem com o vento, ou os grãos de areia que julgamos poder conter numa mão mas que se escapam sempre, deixando-a vazia.            O discípulo sentiu-se grato pela sabedoria do seu mestre. Algo dentro dele ainda se agitava, mas encontrou quietude na meditação e no silêncio. Regressou aos ritos e orações com uma intensidade redobrada, e nada lhe parecia mais importante do que repetir os ensinamentos de Gautama Buda, e seguir humildemente as suas pisadas em direcção ao Nirvana. Passaram-se semanas, em que todos os outros o viam recolhido e de tal forma mergulhado em si mesmo, que começaram a sentir-se preocupados com ele, pensando que alguma doença o consumia. Quando chegou o momento de se encetar a viagem ás povoações amenas da planície para se obter víveres, decidiram levá-lo também, a ver se recuperava a vivacidade e o entusiasmo que lhe conheciam.            Os monges que tomaram o caminho do vale, foram escolhidos por serem jovens e robustos, porque teriam de transportar a carga assente nas espaldas. O jovem seguiu-os como um sonâmbulo, olhando de vez em quando para os picos nevados, para ver se também ele era capaz de avistar a flor dourada dos deuses. A medida que iam descendo de altitude, o clima tornava-se menos rigoroso, e já conseguiam descobrir porções de solo onde a vegetação se percebia sobre a neve. Quando atingiram a primeira povoação Sherpa de casas modestas, pareciam terem mergulhado num outro mundo, as roupas das pessoas eram menos pesadas do que no alto, a luz sobre o vale era diferente, e enchia-lhes a vista um riacho borbulhante que se formara nos glaciares dos picos.            Enquanto os seus companheiros se afadigavam a reunir os géneros, o monge caminhou distraidamente, e avistou  uma jovem envergando um vestido de peles, que enchia o seu recipiente no riacho. Tinha os cabelos negros e luzidios, como nunca antes vira. Quando ela se virou, o monge sentiu-se aturdido ao contemplar o seu rosto arredondado e alegre, e o traço perfeito dos seus olhos amendoados. Ficou cravado ao solo enquanto ela caminhava na sua direcção com a vasilha. Quando a jovem estava próxima, ela tropeçou numa pedra e deixou cair o recipiente que se estilhaçou perto de si. Algo dentro do monge pareceu ter-se estilhaçado no mesmo instante. Saltou para diante, e recolheu rapidamente na cova de um dos braços, todos os cacos de que foi capaz. Ergueu-se com cuidado e aproximou-se dela com as batidas do coração a repercutirem-se nas têmporas, e ela sorriu-lhe. Levantando a dobra da sua capa, ela formou uma bolsa onde o monge depositou os fragmentos, e num gesto de gratidão, ela ergueu a mão e afagou-lhe o rosto, arrepiando-o com aquele contacto macio e cálido.            Ficou a contemplá-la, preso dos seus movimentos. Quando se reuniu aos seus companheiros, estava mais inquieto e agitado do que nunca. De regresso ao mosteiro, não foi preciso desfazer-se em palavras inúteis para que o seu mestre se apercebesse do peso que guardava dentro de si. As preces e os mantras deixavam-no indiferente, e dava longos passeios pelas salas do mosteiro como se não conseguisse fixar-se em lugar algum. Foi, pois, sem surpresa que o Lama o viu surgir diante de si com as vestes vermelhas rasgadas e os ombros cobertos de cinzas, num gesto inequívoco de ruptura. Com uma tigela de barro cheia de água, o monge lavou os pés ao seu mestre num último sinal de respeito e deferência. O mestre perguntou-lhe com desalento se já não almejava a libertação e a luz, ao que o discípulo baixou as pálpebras num sinal de desconhecimento, e refugiou-se no silêncio até se retirar.            Horas depois o jovem abandonou o templo. Enquanto o mestre observava a sua partida do largo alpendre do templo, ele tomou o caminho das aldeias do vale, em busca da flor dourada dos deuses que lhe aparecera sob a forma de uma mulher.

Kimura


A cerejeira de ramos despidos localizava-se junto ao muro de pedra, no topo norte do jardim. Era inverno. Kimura inspecionou o jardim. Pela primeira vez em muitas semanas, o frio diminuíra e o sol espreitara um pouco nesse dia. A Primavera parecia possível, agora. As glicínias, os animais e insetos, as flores na trepadeira do muro de pedra, as árvores de fruto a desabrochar numa sofreguidão vegetal. Kimura sentou-se num banco de pedra. Sentia-se feliz, poderia entoar um mantra ou um verso de Bashô, mas contivera-se por deferência aos dois pardais cor de canela que saltitavam e trinavam nos ramos despidos da cerejeira, os primeiros pássaros que ali via nesse Inverno.

Nota etnográfica citadina

Resultado de imagem para manekineko

     O gato de cerâmica animado com uma das patas levantadas a acenar que se encontra em lojas chinesas e restaurantes de comida oriental, chama-se Maneki Neko (gato que acena), atrai clientes à loja ou boa-sorte aos que o possuírem (algumas crenças diferenciam o tipo de benefício, consoante seja a pata direita ou esquerda a agitar-se). É comum o Maneki Neko ser representado com uma preocupação naturalista, fazendo-o semelhante ao Bobtail, a raça de gatos japonesa, mas muitas vezes são dourados, para o associarem à riqueza e ao ouro. A própria raça de gatos Bobtail é considerada uma raça-talismã para a fortuna e boa sorte, porque não é raro terem os dois olhos de cor diferente, um amarelo (ouro) e o outro azul (cor que simboliza a prata na cultura japonesa).
     O Maneki Neko é suscetível de gerar alguns equívocos nos espíritos ocidentais menos preparados. É corrente, algumas pessoas pensarem que o gato que acena na entrada das lojas se está a despedir dos clientes, ou que representam um aviso subliminar de que serão punidos se não pagarem o que levam ou tentarem furtar algum artigo (como se a pata que acena estivesse a querer alcançá-los com a garra). Quando alguém informa essas pessoas sobre a função do gato, logo eles supõe, em virtude do anglo-saxonismo dominante, que o seu nome é Money Kineko. De todas as formas, o lugar em que se encontra o Maneki Neko nestas lojas chinesas e restaurantes orientais, é um ótimo ponto de encontro para os clientes, sobretudo se tiverem cauda e se chamarem Bob, Roberto ou Esponja.

Marx

O médico estuda o velho visionário que oscila na sua cadeira de balouço com mais impulso e força do que aquela que seria realmente necessário empregar. É um louco e faz coisas de louco – deveria pensar. Mas continua a estudá-lo com afinco. Balança-se para trás e para a frente com energia, mas sem excesso, não existe o risco dos movimentos da cadeira se descontrolarem e ele ser projetado. É uma força exagerada, mas empregue com medida e razão. Não indicam sanidade mental mas, no entanto, também não a excluem. Tenta fazer conversa, colocar questões que sabe serem úteis e importantes para avaliar alguém, mas não obtém nenhuma resposta. O médico aborrece-se por fim, e deixa o senhor Marx na sua cadeira de balouço, rumando para o seu próprio camarote. Marx é um visionário que balança a sua cadeira de balouço ao ritmo da ondulação do mar. Antes de chegar ao camarote, faz um desvio até ao refeitório. Aproximava-se a hora de almoço. Os poucos comensais que já ali estavam estão agarrados as mesas ou às próprias cadeiras em que estão sentados. Balançam à mesma, mas segundo os caprichos do mar. E parecem tão assustados e mal-dispostos que o médico duvida que consigam comer alguma coisa.

Lío

Todo esto es un lío!Troou o taxista espanhol quando nos vimos imobilizados num engarrafamento em Pamplona.
O quê? Apetecia-me perguntar. O que é que é um lío? O trânsito, o FMI, o futebol, o frio? Sim, o que é que é um lío? Nada perguntei de viva voz e por tal, nenhuma resposta obtive. Ficamos ali, no meio do trânsito, presos, o taxista em pé ao lado do carro, com a porta aberta e um pé enraizado no interior (o direito, se interessa saber qual), e eu sentado no banco de trás, sem respostas e sem ansiolíticos, com os cotovelos suados colados à napa do assento e uma vontade terrível de acender o cigarro proibido. Por fim, o trânsito começou a mexer, o taxista aterrou no seu assento e ligou o carro, e enquanto as rodas rodavam os primeiros metros no alcatrão, olhou para o banco de trás pelo espelho, mas eu já não estava lá. Ascendia pelas espirais anis de fumo até ao terraço da nicotina.

O mentor

Desenho anatómico executado por Leonardo Da Vinci (Royal Library, Castelo de Windsor)                 - Acorda, meu pequeno! Vais c...