Retrato breve de uma celebridade

Provocava, instigava os outros, e depois tinha temor da sua reação, do que poderiam pensar dele e corria a recolher do ar o eco das suas palavras, embolsando-o no seu casaco de algibeiras fundas. Se o que dizia era como as ondas concêntricas provocadas por um seixo atirado á água, então lá ia ele amainando as ondas com as palmas apaziguadoras da mão, antes que alguém notasse que a mansidão das águas havia sido perturbada. Sempre receoso, e inseguro e frágil. Sem motivo. Ninguém podia levá-lo a mal porque ninguém ligava ao que ele dizia ou fazia, era invisível, podia esvair-se em sangue ou derreter-se sob a luz do Sol, que ninguém ligaria. Porque provocava então? A resposta era evidente: para se sentir importante, ouvido, amado. Cada triste escolhe a ilusão que mais se coaduna a si. E sua maior tristeza, era precisar disso.

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