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A maleta

Há dois meses que chegou, a mala pequena e puída na mão e o casaco pendurado no antebraço. A mala ficou desde então pousada a um canto, entreabriu-a apenas para tirar uma ou outra peça de roupa como quem puxa de vísceras soltas no ventre aberto do passado. Nunca desfez a mala, nem o pretende fazer. Se não se vai demorar por ali, para quê dar-se ao trabalho? Nas horas mais solitárias, pensa nos sítios para onde irá de seguida, e das viagens que lhe falta fazer. Outras vezes, sente-se mais atraído pelo passado e regressa num percurso centrípeto em espiral até aos domínios da memória, onde revive com melancolia as primeiras idades do mundo, a infância numa casa de campo, a mãe, sempre com o lenço na cabeça, o cheiro da comida cozinhada em tachos de barro ao lume, e o pai, sempre muito calado e distante, mourejando no trabalho da terra e que passava longos tempos ao entardecer sentado no murete da eira, a única altura em que ele se atrevia a sentar-se ao seu lado, partilhando o seu silêncio e a sua imobilidade. O pai teve um triste fim, estoirou os miolos numa manhã de Novembro, e a mãe, de certa forma, ruiu com ele, como uma casa privada dos alicerces em que se escorava. Os anos da primeira juventude foram de uma aprendizagem dura, violenta, aprendeu a bastar-se sozinho, e sozinho prosseguiu, sem confiar em ninguém, tentando estar um passo mais adiante dos que o pretendiam magoar, antecipar os seus golpes, furtar-se à sua brutalidade.

Ainda agora não tem amigos, prescinde deles como se ainda estivesse sentado com o pai na eira a contemplar silêncios. Um desses dias, um dos guardas prisionais, o gordo de testa suada e luzidia, meteu conversa com ele, como se pudesse ser guarda prisional e fazer conversa de circunstância com ele sobre o governo ou os hospitais e ser assim uma espécie de amigo intermitente das horas ociosas. Não lhe deu troco. O mesmo tipo, uma semana antes, achou que havia marosca por ele ter sempre a mala fechada e no mesmo sítio, achando que ele escondia nela tabaco ou droga, e com um colega, fez dele saco de pancada e os dois abriram a mala e revistaram-na, espalhando o seu conteúdo pela cela.

Depois de o deixarem em paz, voltou a compor as coisas dentro da mala, e pousou-a no mesmo canto onde costumava ficar. Não iria desfazê-la, não valia a pena, era por pouco tempo. Ele e a mala seriam pacientes, juntas no lado de dentro da liberdade.



Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...