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A mostrar mensagens de Setembro, 2014

Retrato breve de uma celebridade

Provocava, instigava os outros, e depois tinha temor da sua reação, do que poderiam pensar dele e corria a recolher do ar o eco das suas palavras, embolsando-o no seu casaco de algibeiras fundas. Se o que dizia era como as ondas concêntricas provocadas por um seixo atirado á água, então lá ia ele amainando as ondas com as palmas apaziguadoras da mão, antes que alguém notasse que a mansidão das águas havia sido perturbada. Sempre receoso, e inseguro e frágil. Sem motivo. Ninguém podia levá-lo a mal porque ninguém ligava ao que ele dizia ou fazia, era invisível, podia esvair-se em sangue ou derreter-se sob a luz do Sol, que ninguém ligaria. Porque provocava então? A resposta era evidente: para se sentir importante, ouvido, amado. Cada triste escolhe a ilusão que mais se coaduna a si. E sua maior tristeza, era precisar disso.

A maleta

Há dois meses que chegou, a mala pequena e puída na mão e o casaco pendurado no antebraço. A mala ficou desde então pousada a um canto, entreabriu-a apenas para tirar uma ou outra peça de roupa como quem puxa de vísceras soltas no ventre aberto do passado. Nunca desfez a mala, nem o pretende fazer. Se não se vai demorar por ali, para quê dar-se ao trabalho? Nas horas mais solitárias, pensa nos sítios para onde irá de seguida, e das viagens que lhe falta fazer. Outras vezes, sente-se mais atraído pelo passado e regressa num percurso centrípeto em espiral até aos domínios da memória, onde revive com melancolia as primeiras idades do mundo, a infância numa casa de campo, a mãe, sempre com o lenço na cabeça, o cheiro da comida cozinhada em tachos de barro ao lume, e o pai, sempre muito calado e distante, mourejando no trabalho da terra e que passava longos tempos ao entardecer sentado no murete da eira, a única altura em que ele se atrevia a sentar-se ao seu lado, partilhando o seu silên…

estratégias

Sólon, o ateniense, criou leis inovadoras para a sua cidade e partiu de lá, foi viajar pelo mundo para que ninguém o pressionasse a mudar essas leis ou a minorar os seus efeitos.
Moisés foi mais consistente. Trouxe da montanha sagrada dez mandamentos e ficou com o seu povo e os seus mandamentos até morrer. Não os alterou, mas também não era muito fácil fazer emendas, porque estavam gravados na pedra, e por um anjo poderoso e afeito à escrita.

Cristo, por seu turno, deu-nos um décimo primeiro mandamento, depois morreu, depois ressuscitou, depois partiu outra vez. O mandamento falava de amor, mas não mandou nada a quem o torturou, chicoteou e pregou à cruz. Ele deveria ter concedido mais tempo. Entregava o mandamento, e depois ia viajar como Sólon na esperança de que o romanos e os filisteus adotassem esse mandamento.