O truque

O prestidigitador faz um truque com cartas. Abre um naipe de cartas em leque e pede a um voluntário na plateia que escolha uma e não diga que carta lhe calhou. O espetador obedece, tira uma carta, e vê qual é, com os olhos baixos, para o artista não a ver refletida nos seus olhos. Este volta a baralha-las, fecha os olhos e tira uma do meio delas e estende-a ao espetador.
- Era esta carta? – pergunta com um timbre claro e aberto.
O espetador rasga o envelope em branco, e retira a carta do interior. Uma carta apaixonada de Anaïs Nin a um amante. Hesita.
- Sim…ach…

O prestidigitador solta uma exclamação de júbilo e a plateia rompe num aplauso estrondoso. O voluntário regressa ao seu assento, sentindo-se enganado e furioso.  O espetáculo prossegue com outros números e artistas, e o homem que se oferecera para participar no número de magia esgueira-se até ao camarim do artista. Está vazio. Abre a sua mala de apetrechos e saca as cartas usadas no show. Abre todos os envelopes, recolhe todas as cartas e compara-as. São todas iguais, cópias da mesma carta de Anaïs Nin. A sua fúria cresce. Sai do camarim e procura o prestidigitador para lhe dar um corretivo, e encontra-o logo no corredor, caído no chão, desmaiado ou morto. Sente-se defraudado. O espetro de Anaïs Nin ou o excesso de erotismo antecipara-se a ele.

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