declínio

Os dias já não tinham piada, os putos aborreciam-se de tanto brincar e jogar no meio do lixo, e os mais velhos já estavam estafados de disparar e limpar armas. O circo chegou á cidade no meio desse marasmo que se adensava por todo o lado como se fosse explodir. Os artistas circenses fizeram o melhor que podiam para animar aquelas pessoas. Os contorcionistas de membros elásticos enrolavam-se como jiboias luzidias em volta dos postes de luz caídos pelo chão enquanto os equilibristas tentavam a sua sorte nos fios de narrativa suspensos por todo o lado; os amestradores de feras exibiam-nas, fazendo os tigres e os comensardos caminhar e rugir no tapete de ervas e caniços que rebentava no alcatrão das avenidas desertas, enquanto a mulher de barbas e o gigante destro percutiam com força em caixas de correio enferrujadas os acordes de uma marcha militar janízara, anunciando em voz alta as virtudes dos artistas que se iam sucedendo. Mas nenhum desses espetáculos arrancou as pessoas dos seus prédios semi-arruinados e dos túneis escuros do metropolitano, ou desarmou a couraça inflexível do seu medo e da sua desconfiança. O circo voltou a abandonar a cidade e os seus ocupantes ao cansaço que os dominava. Mas essa noite era noite de Lua Nova e todos sabiam que era chegado o momento de trocar de papéis, os adultos entregaram às crianças as suas armas e munições, e tomaram o seu lugar no reino do lixo, construindo e incendiando espantalhos de palha e celofane para afugentar os predadores, enquanto as crianças, emboscados em lugares estratégicos – terraços, torres de igrejas, balcões de teatro – abatiam com entusiasmo as ratazanas e os furões adornados de colares e dentes de ouro que a cada dia se revelavam mais inteligentes como se estivessem a tomar o lugar do homem na vacilante marcha da evolução.

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