ABCDário - S de Sonho


Em Mani, nada nascia. Não havia ninhos nas árvores, crianças rompendo para a luz entre as coxas das mães, ou toupeiras cavernícolas parindo no fundo das suas covas escuras. Em Mani, não havia flores nem botões de flores, e mesmo o Sol rompia por detrás do nevoeiro como se tivesse vergonha de ser novo.

Mani era o lugar do Fim do Mundo. Ainda a cinza dos livros Maias não esfriara na fogueira dos franciscanos, e já os índios fugiam dali como da boca do Xibalba tenebroso, gritavam e pranteavam no seio do mar verde da floresta, derrubavam árvores e queimavam cubatas, golpeavam-se com lâminas e facas, castravam-se sem dor, e as mães matavam os filhos recém-nascidos para os poupar às fauces do deus-jaguar.

Em Mani, naquela noite, o clérigo Diego de Landa, a Besta do apocalipse Maia, possuiu trriunfalmente a índiazinha púbere e suada de olhos de choro como se cravasse um padrão em solo índio, e depois deixou-se cair para o lado, onde adormeceu profundamente, deleitando-se com a lembrança da beleza das chamas purificadoras que se haviam erguido sobre os códices diabólicos dos Maias que ele mandara queirmar.

No seu sonho, no entanto, não houve beleza, apenas terror, sonhou com Kukulcan e com os senhores de Xibalba, com árvores com caveiras como frutos, e pequenas lâminas envenenadas de obsidiana que lhe golepavam a pele do peito e do pénis. Acordou empapado em suor e, durante alguns momentos, achou que tinha errado. Que os deuses ancestrais da floresta generosa eram mais verdadeiros do que o Messais esquálido crucificado num mundo distante que nunca veria. Mas o choro sufocado da índiaziinha púbere deitada a um canto do quarto resgatou-o ao mundo podre das suas certezas implacáveis.

Vestiu-se e dirigiu-se ao largo onde se desenrolara o auto-de-fé e, com uma pá, começou a cobrir de terra as cinzas da grande fogueira, como se essa terra maia pudesse alguma vez sepultar os antigos deuses Maias.


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