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A mostrar mensagens de Agosto, 2014

declínio

Os dias já não tinham piada, os putos aborreciam-se de tanto brincar e jogar no meio do lixo, e os mais velhos já estavam estafados de disparar e limpar armas. O circo chegou á cidade no meio desse marasmo que se adensava por todo o lado como se fosse explodir. Os artistas circenses fizeram o melhor que podiam para animar aquelas pessoas. Os contorcionistas de membros elásticos enrolavam-se como jiboias luzidias em volta dos postes de luz caídos pelo chão enquanto os equilibristas tentavam a sua sorte nos fios de narrativa suspensos por todo o lado; os amestradores de feras exibiam-nas, fazendo os tigres e os comensardos caminhar e rugir no tapete de ervas e caniços que rebentava no alcatrão das avenidas desertas, enquanto a mulher de barbas e o gigante destro percutiam com força em caixas de correio enferrujadas os acordes de uma marcha militar janízara, anunciando em voz alta as virtudes dos artistas que se iam sucedendo. Mas nenhum desses espetáculos arrancou as pessoas dos seus p…

eroísmo

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Na Cartagena das Índias construíram muralhas e fortificações, aprestadas com canhões de bronze e renques de armas de fogo encostados aos cantos abrigados das torres de vigia. Havia ouro e fome de ouro dos dois lados da muralha, e as lâminas das espadas sentiam uma idêntica sede de sangue. Defendida, tomada, resgatada, tomada outra vez, a Cartagena das índias tinha ruas como veias por onde corria o sangue e o ouro. Numa casa de pedra do bairro dos latoeiros, mesmo no centro de Cartagena das Índias, vivia uma jovem órfã com a sua velha avó, pela qual se apaixonou Juan Rincón, marceneiro jovem nascido na ilha Hispaniola. O seu amor foi correspondido pela jovem órfã. Casaram-se, e tiveram doze filhos. Foram felizes, e amaram-se quanto puderam, e criaram os filhos o melhor que puderam e souberam. O casal e os filhos não foram heróis ou piratas, não defenderam ou saquearam tesouros, por isso, não se admirem se não se falar deles quando se contar a história dourada e heroica de Cartagen…

Greve sem grevas

Radomiro iniciou uma greve de fome para protestar contra as exíguas porções de comida na cantina da escola. Estava muito convicto do seu ato e da sua razão e sentou-se imperiosamente numa das mesas da cantina para iniciar greve.
Almoçou, relativamente bem, porque a comida não era muita e, depois de sorver o resto do refrigerante, e de beber um café com natas, proclamou:
- Eu inicio, por este dia, a minha greve de fome.
E por ali ficou, de braços cruzados como um cacique orgulhoso, até soar a campainha e ter voltar para as aulas. Se ele mantinha a greve de fome pelo resto do dia, e após o regresso a casa,, ninguém o poderia assegurar
No dia seguinte, repetiu a cena, e no dia depois desse, até o diretor da escola ir de propósito à cantina para tentar por cobro àquela greve de fome. Já andava tudo alvoraçado por aquele gesto de protesto, e era notório que Radomiro emagrecera com a greve de fome, tal como seria de esperar. As roupas pareciam-lhe largas e as maçãs do rosto haviam quase despare…

ABCDário - S de Sonho

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Em Mani, nada nascia. Não havia ninhos nas árvores, crianças rompendo para a luz entre as coxas das mães, ou toupeiras cavernícolas parindo no fundo das suas covas escuras. Em Mani, não havia flores nem botões de flores, e mesmo o Sol rompia por detrás do nevoeiro como se tivesse vergonha de ser novo.

Mani era o lugar do Fim do Mundo. Ainda a cinza dos livros Maias não esfriara na fogueira dos franciscanos, e já os índios fugiam dali como da boca do Xibalba tenebroso, gritavam e pranteavam no seio do mar verde da floresta, derrubavam árvores e queimavam cubatas, golpeavam-se com lâminas e facas, castravam-se sem dor, e as mães matavam os filhos recém-nascidos para os poupar às fauces do deus-jaguar.

Em Mani, naquela noite, o clérigo Diego de Landa, a Besta do apocalipse Maia, possuiu trriunfalmente a índiazinha púbere e suada de olhos de choro como se cravasse um padrão em solo índio, e depois deixou-se cair para o lado, onde adormeceu profundamente, deleitando-se com a lembrança da …

O curso

Tirei um curso de visionário, por correspondência. Paguei por trinta lições, que me chegaram todas as semanas à Quarta-Feira. Uma lição, uma vez por semana. Não podiam ser mais. Os vizinhos não aguentariam mais do que isso, nem os carteiros. Não depois da segunda lição ter sido surripiada da caixa de correio da minha casa por um corvo listrado, e da terceira lição ressoar a mar no saco do carteiro, como se dentro do envelope houvesse um búzio prensado e dobrado.

O truque

O prestidigitador faz um truque com cartas. Abre um naipe de cartas em leque e pede a um voluntário na plateia que escolha uma e não diga que carta lhe calhou. O espetador obedece, tira uma carta, e vê qual é, com os olhos baixos, para o artista não a ver refletida nos seus olhos. Este volta a baralha-las, fecha os olhos e tira uma do meio delas e estende-a ao espetador. - Era esta carta? – pergunta com um timbre claro e aberto. O espetador rasga o envelope em branco, e retira a carta do interior. Uma carta apaixonada de Anaïs Nin a um amante. Hesita. - Sim…ach…
O prestidigitador solta uma exclamação de júbilo e a plateia rompe num aplauso estrondoso. O voluntário regressa ao seu assento, sentindo-se enganado e furioso.  O espetáculo prossegue com outros números e artistas, e o homem que se oferecera para participar no número de magia esgueira-se até ao camarim do artista. Está vazio. Abre a sua mala de apetrechos e saca as cartas usadas no show. Abre todos os envelopes, recolhe toda…