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Crónica de um punhado de dias

"Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo
(Frederico García Lorca).


      Antoine vive no mundo normal de todos os dias, tem uma família, amigos na escola, brinquedos, prendas no Natal e ovos de chocolate e amêndoas na Páscoa. Nos anos, em pleno Agosto, recebe também muitas prendas novas, e uma que já é habitual, uma camisola de lã que a tia lhe oferece em cada aniversário, cada ano um pouco maior do que a camisola do ano anterior, ainda que Antoine ache que não cresceu durante esse tempo, ou, pelo menos, não se lembra de se sentir crescer, esticar, como os ramos novos das árvores na Primavera. Antoine gostaria mesmo de se sentir crescer, os braços e as pernas a ficarem maiores, ou os dedos da mão a afilarem-se, cada vez mais compridos (por vezes, desenha com um marcador fino um risco da raiz da unha até à ponta esbranquiçada, para ver se aparece um espaço sem estar riscado à medida que a unha cresce, mas a marca do marcador desaparece sempre, porque são tantas as vezes que os pais o obrigam a lavar as mãos).
     Antoine é muito pensativo, pensa muito e é muito ativo, quando pensa, por exemplo, que a sua própria sombra não pode ser mais rápida do que ele porque não consegue fugir-lhe, então, Antoine corre atrás dela para comprovar que, em momento algum, a sua sombra, mesmo que corra à sua frente e esteja a vencer a corrida, não faz um aceno de adeus e se esgueira por outra rua diferente daquela em que o Jorge está.
        Os relógios, também costumam atrair a atenção de Antoine, sobretudo os grandes e antigos, com lanças elegantes e negras que se movimentam com estalidos metálicos.
         Por esses dias, foi com os colegas numa visita de estudo à Torre das Colmeias, e puderam admirar de perto o relógio da torre secular, depois de uma subida íngreme por uma infinidade de degraus que pareciam nunca mais acabar. Ele gostou muito dos sons concertados das rodas dentadas e do som tranquilizador dos ponteiros do relógio, que pareciam dizer-lhe: “Enquanto estivermos a trabalhar, o tempo não irá parar!”. Antoine ficou tão satisfeito com essa mensagem percebida no ar, que, antes de descerem da Torre da Colmeias, agradeceu ao relógio por não deixar de trabalhar, o que levou alguns colegas a pensar que ele deveria ter apanhado com muito Sol na cabeça.
         Quando chegou a casa, ainda estava a pensar em relógios e no tempo. Quando ninguém estava a ver, empoleirou-se no tampo de uma cadeira e despendurou da parede da cozinha, um relógio que ali havia, redondo e com os números embutidos num fundo decorado com utensílios de cozinha – um vareta de arames, uma tenaz de salada e um rolo da massa. Em cima da mesa da cozinha, com muito cuidado, virou o relógio à espera de ver algo de maravilhoso como o mecanismo da Torre das Colmeias, mas só ali encontrou uma caixinha preta pequena, em plástico, com uma pilha circular pequena que alimentava o mecanismo. Dessa descoberta, Antoine tirou uma conclusão muito sua: o tempo é o mesmo para todos os relógios, mas os relógios são como espelhos em que as pessoas se olham, e neles o tempo pode parecer bonito ou feio. No relógio da Torre das Colmeias, disso não tinha dúvidas, o tempo parecia bonito como se tivesse acordado com um sorriso na cara ou vestido uma roupa nova. Naquele relógio que tinha na mão, o tempo escondia-se como um leproso por detrás do seu capuz e das vestes compridas de longas mangas que escondiam os membros e as mãos erodidas. Não havia encanto, doçura, devaneio.
         Antes de recolocar o relógio na parede, pensou no que aconteceria se andasse com os ponteiros para trás, iria o tempo andar para trás, como uma pessoa que descesse de costas na rampa rolante do centro comercial? Pensou e agiu, empurrando delicadamente o ponteiro dos minutos. Cinco minutos apenas, para ver o que acontecia. Não deu por nada, e arriscou mais um pouco, desta feita, empurrou o relógio quinze minutos. Tudo ficou na mesma, estava sentado à mesa da cozinha e o relógio não estava pendurado na parede. Então, fez uma última tentativa. Fez contas de cabeça, a pensar nas horas em que tinha visitado o relógio da Torre das Colmeias. Eram cinco horas da tarde quando lancharam cá em baixo, nas mesas sombreadas do parque de merendas, sob as árvores, por isso, às quatro e meia ainda deveriam estar lá em cima na Torre, e colocou então os ponteiros do relógio nas quatro e meia, e fechou os olhos, à espera de ouvir o tiquetaquear do mecanismo do relógio da Torre, mas nada, nada de sons, o que sentiu foi uma imagem que dançou no escuro dos seus olhos fechados, o rosto da Carolina, da sua colega de turma, que olhava para ele e sorria enquanto o guia explicava o funcionamento do relógio, a Carolina estava de pé diante da janela da torre, e a luz do sol fazia com que brilhasse na escuridão silenciosa dos seus olhos. Abriu-os e voltou a adiantar o relógio para a última hora de que se lembrava, e pendurou-o na parede, deliciado com o sorriso da Carolina, que permanecia ali, naquele preciso momento e - quem sabe? – naqueles que se seguiriam.


elegia prosaica

entardeceu, já
é noite, há muito que as manhãs 
se foram, lumes frios, corpos exangues, cansados do
torpor em que se recolheram. Enrolam-se, metem-se 
para dentro nas suas conchas
de madrepérola. Estás comigo e rememoramos os momentos
inicias do nosso amor, os primeiros dias da criação quando 
tudo era puro e denso, 
e os deuses, os faunos e as ninfas
se passeavam nas áleas ensolaradas dos nossos jardins, entoando
cânticos á vida e ao desejo.

A ave

Todas as manhãs, para a velha senhora do apartamento do rés-do-chão, a partida do vizinho de cima para o trabalho entrou na sua rotina diária. O vizinho possui um jeep que abre com um comando que ele aciona quando se encontra a poucos metros da viatura.
- Be-rup!
Quer esteja no quarto, na cozinha ou na sala, todas as manhãs, ela ouve o mesmo som.
- Be-rup! – parece-se com o trinado exótico de uma ave tropical de plumagem colorida.
- Be-rup! – pia o comando á Segunda.
- Be-rup! – pia á Terça, á Quarta e nos restantes dias da semana.
Uma manhã, ela ouve os passos pesados do vizinho quando se encontra na sala a regar os vasos de plantas, e fica á espera do piar do comando.
Mas o piar não surge, apenas o silêncio, sacudido pela voz do vizinho a resmungar e praguejar, muito exaltado.

Talvez o comando ou o jeep tenham voado - pensa a vizinha.

Divina Providência

O temporal fez o mar avançar sobre a terra, destruindo casas e muros. Quando a tempestade amainou, havia lanchas adornadas no meio das ervas e urzes, e carneiros e pessoas mortas a flutuar nas ondas, ao largo. Para restabelecer o equilíbrio das coisas e devolver as coisas aos seus lugares devidos, o deus daquelas paragens fez a tempestade regressar novamente ao mesmo sítio.

citação

Coleridge, o poeta, levantou-se com esforço da cadeira e, fixando o seu olhar firme na camponesa grávida sentada à sua frente, discursou.
- Julguem-me por aquilo que criei. Aquilo que eu poderia ter criado, é uma questão minha com a minha própria consciência!
A camponesa não se mostrou impressionada com os seus dotes oratórios, limitando-se a afagar o ventre proeminente.

Fábula

- Solta-me – pediu o homem.
O urso acedeu ao seu pedido, e abriu a armadilha de dentes de aço que se fechara sobre a perna do caçador.
- Obrigado! – agradeceu este, aliviado, apesar das dores excruciantes.

O urso afagou-lhe o cabelo com a sua pata felpuda. Era emocionante, o modo como a comida sabia ser agradecida.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...