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A mostrar mensagens de Julho, 2014

Crónica de um punhado de dias

"Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo"  (Frederico García Lorca).

      Antoine vive no mundo normal de todos os dias, tem uma família, amigos na escola, brinquedos, prendas no Natal e ovos de chocolate e amêndoas na Páscoa. Nos anos, em pleno Agosto, recebe também muitas prendas novas, e uma que já é habitual, uma camisola de lã que a tia lhe oferece em cada aniversário, cada ano um pouco maior do que a camisola do ano anterior, ainda que Antoine ache que não cresceu durante esse tempo, ou, pelo menos, não se lembra de se sentir crescer, esticar, como os ramos novos das árvores na Primavera. Antoine gostaria mesmo de se sentir crescer, os braços e as pernas a ficarem maiores, ou os dedos da mão a afilarem-se, cada vez mais compridos (por vezes, desenha com um marcador fino um risco da raiz da unha até à ponta esbranquiçada, para ver se aparece um espaço sem estar riscado à medida que a unha cresce, mas a marca do marcador desap…

elegia prosaica

entardeceu, já é noite, há muito que as manhãs  se foram, lumes frios, corpos exangues, cansados do torpor em que se recolheram. Enrolam-se, metem-se  para dentro nas suas conchas de madrepérola. Estás comigo e rememoramos os momentos inicias do nosso amor, os primeiros dias da criação quando  tudo era puro e denso,  e os deuses, os faunos e as ninfas se passeavam nas áleas ensolaradas dos nossos jardins, entoando cânticos á vida e ao desejo.

A ave

Todas as manhãs, para a velha senhora do apartamento do rés-do-chão, a partida do vizinho de cima para o trabalho entrou na sua rotina diária. O vizinho possui um jeep que abre com um comando que ele aciona quando se encontra a poucos metros da viatura. - Be-rup! Quer esteja no quarto, na cozinha ou na sala, todas as manhãs, ela ouve o mesmo som. - Be-rup! – parece-se com o trinado exótico de uma ave tropical de plumagem colorida. - Be-rup! – pia o comando á Segunda. - Be-rup! – pia á Terça, á Quarta e nos restantes dias da semana. Uma manhã, ela ouve os passos pesados do vizinho quando se encontra na sala a regar os vasos de plantas, e fica á espera do piar do comando. Mas o piar não surge, apenas o silêncio, sacudido pela voz do vizinho a resmungar e praguejar, muito exaltado.
Talvez o comando ou o jeep tenham voado - pensa a vizinha.

Divina Providência

O temporal fez o mar avançar sobre a terra, destruindo casas e muros. Quando a tempestade amainou, havia lanchas adornadas no meio das ervas e urzes, e carneiros e pessoas mortas a flutuar nas ondas, ao largo. Para restabelecer o equilíbrio das coisas e devolver as coisas aos seus lugares devidos, o deus daquelas paragens fez a tempestade regressar novamente ao mesmo sítio.

citação

Coleridge, o poeta, levantou-se com esforço da cadeira e, fixando o seu olhar firme na camponesa grávida sentada à sua frente, discursou. - Julguem-me por aquilo que criei. Aquilo que eu poderia ter criado, é uma questão minha com a minha própria consciência! A camponesa não se mostrou impressionada com os seus dotes oratórios, limitando-se a afagar o ventre proeminente.

Fábula

- Solta-me – pediu o homem. O urso acedeu ao seu pedido, e abriu a armadilha de dentes de aço que se fechara sobre a perna do caçador. - Obrigado! – agradeceu este, aliviado, apesar das dores excruciantes.
O urso afagou-lhe o cabelo com a sua pata felpuda. Era emocionante, o modo como a comida sabia ser agradecida.