INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

viagem

“Todo o fim contém em si o germe de um novo começo!” – enunciou o meu companheiro de viagem, parado ao meu lado, no carreiro que descia por entre pedras e brenhas.
- Não me digas!?
- É verdade! O fruto apodrecido no chão carrega a semente de um novo fruto, a estrela cadente que arrefece  na encosta esparziu já a centelha de um fogo brando ou de um sonho persistente e o velho carcomido que morre na solidão dos seus aposentos nauseabundos, transmite a sua sabedoria ao espírito de uma criança que desabrocha das coxas da sua mãe no outro lado do mundo.
- Não digas disparates, e anda, que eu levo-te! – disse eu num gesto de compaixão, apanhando do chão a caveira falante para a transportar no saco que tinha ás costas. Talvez assim, ela se calasse.

Retrato breve de uma celebridade

Provocava, instigava os outros, e depois tinha temor da sua reação, do que poderiam pensar dele e corria a recolher do ar o eco das suas palavras, embolsando-o no seu casaco de algibeiras fundas. Se o que dizia era como as ondas concêntricas provocadas por um seixo atirado á água, então lá ia ele amainando as ondas com as palmas apaziguadoras da mão, antes que alguém notasse que a mansidão das águas havia sido perturbada. Sempre receoso, e inseguro e frágil. Sem motivo. Ninguém podia levá-lo a mal porque ninguém ligava ao que ele dizia ou fazia, era invisível, podia esvair-se em sangue ou derreter-se sob a luz do Sol, que ninguém ligaria. Porque provocava então? A resposta era evidente: para se sentir importante, ouvido, amado. Cada triste escolhe a ilusão que mais se coaduna a si. E sua maior tristeza, era precisar disso.

A maleta

Há dois meses que chegou, a mala pequena e puída na mão e o casaco pendurado no antebraço. A mala ficou desde então pousada a um canto, entreabriu-a apenas para tirar uma ou outra peça de roupa como quem puxa de vísceras soltas no ventre aberto do passado. Nunca desfez a mala, nem o pretende fazer. Se não se vai demorar por ali, para quê dar-se ao trabalho? Nas horas mais solitárias, pensa nos sítios para onde irá de seguida, e das viagens que lhe falta fazer. Outras vezes, sente-se mais atraído pelo passado e regressa num percurso centrípeto em espiral até aos domínios da memória, onde revive com melancolia as primeiras idades do mundo, a infância numa casa de campo, a mãe, sempre com o lenço na cabeça, o cheiro da comida cozinhada em tachos de barro ao lume, e o pai, sempre muito calado e distante, mourejando no trabalho da terra e que passava longos tempos ao entardecer sentado no murete da eira, a única altura em que ele se atrevia a sentar-se ao seu lado, partilhando o seu silêncio e a sua imobilidade. O pai teve um triste fim, estoirou os miolos numa manhã de Novembro, e a mãe, de certa forma, ruiu com ele, como uma casa privada dos alicerces em que se escorava. Os anos da primeira juventude foram de uma aprendizagem dura, violenta, aprendeu a bastar-se sozinho, e sozinho prosseguiu, sem confiar em ninguém, tentando estar um passo mais adiante dos que o pretendiam magoar, antecipar os seus golpes, furtar-se à sua brutalidade.

Ainda agora não tem amigos, prescinde deles como se ainda estivesse sentado com o pai na eira a contemplar silêncios. Um desses dias, um dos guardas prisionais, o gordo de testa suada e luzidia, meteu conversa com ele, como se pudesse ser guarda prisional e fazer conversa de circunstância com ele sobre o governo ou os hospitais e ser assim uma espécie de amigo intermitente das horas ociosas. Não lhe deu troco. O mesmo tipo, uma semana antes, achou que havia marosca por ele ter sempre a mala fechada e no mesmo sítio, achando que ele escondia nela tabaco ou droga, e com um colega, fez dele saco de pancada e os dois abriram a mala e revistaram-na, espalhando o seu conteúdo pela cela.

Depois de o deixarem em paz, voltou a compor as coisas dentro da mala, e pousou-a no mesmo canto onde costumava ficar. Não iria desfazê-la, não valia a pena, era por pouco tempo. Ele e a mala seriam pacientes, juntas no lado de dentro da liberdade.



estratégias

Sólon, o ateniense, criou leis inovadoras para a sua cidade e partiu de lá, foi viajar pelo mundo para que ninguém o pressionasse a mudar essas leis ou a minorar os seus efeitos.

Moisés foi mais consistente. Trouxe da montanha sagrada dez mandamentos e ficou com o seu povo e os seus mandamentos até morrer. Não os alterou, mas também não era muito fácil fazer emendas, porque estavam gravados na pedra, e por um anjo poderoso e afeito à escrita.


Cristo, por seu turno, deu-nos um décimo primeiro mandamento, depois morreu, depois ressuscitou, depois partiu outra vez. O mandamento falava de amor, mas não mandou nada a quem o torturou, chicoteou e pregou à cruz. Ele deveria ter concedido mais tempo. Entregava o mandamento, e depois ia viajar como Sólon na esperança de que o romanos e os filisteus adotassem esse mandamento.

declínio

Os dias já não tinham piada, os putos aborreciam-se de tanto brincar e jogar no meio do lixo, e os mais velhos já estavam estafados de disparar e limpar armas. O circo chegou á cidade no meio desse marasmo que se adensava por todo o lado como se fosse explodir. Os artistas circenses fizeram o melhor que podiam para animar aquelas pessoas. Os contorcionistas de membros elásticos enrolavam-se como jiboias luzidias em volta dos postes de luz caídos pelo chão enquanto os equilibristas tentavam a sua sorte nos fios de narrativa suspensos por todo o lado; os amestradores de feras exibiam-nas, fazendo os tigres e os comensardos caminhar e rugir no tapete de ervas e caniços que rebentava no alcatrão das avenidas desertas, enquanto a mulher de barbas e o gigante destro percutiam com força em caixas de correio enferrujadas os acordes de uma marcha militar janízara, anunciando em voz alta as virtudes dos artistas que se iam sucedendo. Mas nenhum desses espetáculos arrancou as pessoas dos seus prédios semi-arruinados e dos túneis escuros do metropolitano, ou desarmou a couraça inflexível do seu medo e da sua desconfiança. O circo voltou a abandonar a cidade e os seus ocupantes ao cansaço que os dominava. Mas essa noite era noite de Lua Nova e todos sabiam que era chegado o momento de trocar de papéis, os adultos entregaram às crianças as suas armas e munições, e tomaram o seu lugar no reino do lixo, construindo e incendiando espantalhos de palha e celofane para afugentar os predadores, enquanto as crianças, emboscados em lugares estratégicos – terraços, torres de igrejas, balcões de teatro – abatiam com entusiasmo as ratazanas e os furões adornados de colares e dentes de ouro que a cada dia se revelavam mais inteligentes como se estivessem a tomar o lugar do homem na vacilante marcha da evolução.

eroísmo



    Na Cartagena das Índias construíram muralhas e fortificações, aprestadas com canhões de bronze e renques de armas de fogo encostados aos cantos abrigados das torres de vigia. Havia ouro e fome de ouro dos dois lados da muralha, e as lâminas das espadas sentiam uma idêntica sede de sangue. Defendida, tomada, resgatada, tomada outra vez, a Cartagena das índias tinha ruas como veias por onde corria o sangue e o ouro. Numa casa de pedra do bairro dos latoeiros, mesmo no centro de Cartagena das Índias, vivia uma jovem órfã com a sua velha avó, pela qual se apaixonou Juan Rincón, marceneiro jovem nascido na ilha Hispaniola. O seu amor foi correspondido pela jovem órfã. Casaram-se, e tiveram doze filhos. Foram felizes, e amaram-se quanto puderam, e criaram os filhos o melhor que puderam e souberam. O casal e os filhos não foram heróis ou piratas, não defenderam ou saquearam tesouros, por isso, não se admirem se não se falar deles quando se contar a história dourada e heroica de Cartagena das Índias

Greve sem grevas

Radomiro iniciou uma greve de fome para protestar contra as exíguas porções de comida na cantina da escola. Estava muito convicto do seu ato e da sua razão e sentou-se imperiosamente numa das mesas da cantina para iniciar greve.

Almoçou, relativamente bem, porque a comida não era muita e, depois de sorver o resto do refrigerante, e de beber um café com natas, proclamou:

- Eu inicio, por este dia, a minha greve de fome.

E por ali ficou, de braços cruzados como um cacique orgulhoso, até soar a campainha e ter voltar para as aulas. Se ele mantinha a greve de fome pelo resto do dia, e após o regresso a casa,, ninguém o poderia assegurar

No dia seguinte, repetiu a cena, e no dia depois desse, até o diretor da escola ir de propósito à cantina para tentar por cobro àquela greve de fome. Já andava tudo alvoraçado por aquele gesto de protesto, e era notório que Radomiro emagrecera com a greve de fome, tal como seria de esperar. As roupas pareciam-lhe largas e as maçãs do rosto haviam quase desparecido no seu rosto magro e esguio.

- Prometo que, de hoje em diante, as porções de comida serão mais generosas nesta cantina, se aceitar suspender a sua greve de fome – garantiu o diretor da escola a Radomiro, na esperança de uma cedência.

Radomiro pensou no assunto durante uns longos dois ou três segundos, e depois emitiu a sua concordância, mandando vir uma chávena de café com natas - porque já havia passado um quarto de hora desde que bebera a última, e precisava recuperar forças e energia.

ABCDário - S de Sonho


Em Mani, nada nascia. Não havia ninhos nas árvores, crianças rompendo para a luz entre as coxas das mães, ou toupeiras cavernícolas parindo no fundo das suas covas escuras. Em Mani, não havia flores nem botões de flores, e mesmo o Sol rompia por detrás do nevoeiro como se tivesse vergonha de ser novo.

Mani era o lugar do Fim do Mundo. Ainda a cinza dos livros Maias não esfriara na fogueira dos franciscanos, e já os índios fugiam dali como da boca do Xibalba tenebroso, gritavam e pranteavam no seio do mar verde da floresta, derrubavam árvores e queimavam cubatas, golpeavam-se com lâminas e facas, castravam-se sem dor, e as mães matavam os filhos recém-nascidos para os poupar às fauces do deus-jaguar.

Em Mani, naquela noite, o clérigo Diego de Landa, a Besta do apocalipse Maia, possuiu trriunfalmente a índiazinha púbere e suada de olhos de choro como se cravasse um padrão em solo índio, e depois deixou-se cair para o lado, onde adormeceu profundamente, deleitando-se com a lembrança da beleza das chamas purificadoras que se haviam erguido sobre os códices diabólicos dos Maias que ele mandara queirmar.

No seu sonho, no entanto, não houve beleza, apenas terror, sonhou com Kukulcan e com os senhores de Xibalba, com árvores com caveiras como frutos, e pequenas lâminas envenenadas de obsidiana que lhe golepavam a pele do peito e do pénis. Acordou empapado em suor e, durante alguns momentos, achou que tinha errado. Que os deuses ancestrais da floresta generosa eram mais verdadeiros do que o Messais esquálido crucificado num mundo distante que nunca veria. Mas o choro sufocado da índiaziinha púbere deitada a um canto do quarto resgatou-o ao mundo podre das suas certezas implacáveis.

Vestiu-se e dirigiu-se ao largo onde se desenrolara o auto-de-fé e, com uma pá, começou a cobrir de terra as cinzas da grande fogueira, como se essa terra maia pudesse alguma vez sepultar os antigos deuses Maias.


O curso

Tirei um curso de visionário, por correspondência. Paguei por trinta lições, que me chegaram todas as semanas à Quarta-Feira. Uma lição, uma vez por semana. Não podiam ser mais. Os vizinhos não aguentariam mais do que isso, nem os carteiros. Não depois da segunda lição ter sido surripiada da caixa de correio da minha casa por um corvo listrado, e da terceira lição ressoar a mar no saco do carteiro, como se dentro do envelope houvesse um búzio prensado e dobrado.

O truque

O prestidigitador faz um truque com cartas. Abre um naipe de cartas em leque e pede a um voluntário na plateia que escolha uma e não diga que carta lhe calhou. O espetador obedece, tira uma carta, e vê qual é, com os olhos baixos, para o artista não a ver refletida nos seus olhos. Este volta a baralha-las, fecha os olhos e tira uma do meio delas e estende-a ao espetador.
- Era esta carta? – pergunta com um timbre claro e aberto.
O espetador rasga o envelope em branco, e retira a carta do interior. Uma carta apaixonada de Anaïs Nin a um amante. Hesita.
- Sim…ach…

O prestidigitador solta uma exclamação de júbilo e a plateia rompe num aplauso estrondoso. O voluntário regressa ao seu assento, sentindo-se enganado e furioso.  O espetáculo prossegue com outros números e artistas, e o homem que se oferecera para participar no número de magia esgueira-se até ao camarim do artista. Está vazio. Abre a sua mala de apetrechos e saca as cartas usadas no show. Abre todos os envelopes, recolhe todas as cartas e compara-as. São todas iguais, cópias da mesma carta de Anaïs Nin. A sua fúria cresce. Sai do camarim e procura o prestidigitador para lhe dar um corretivo, e encontra-o logo no corredor, caído no chão, desmaiado ou morto. Sente-se defraudado. O espetro de Anaïs Nin ou o excesso de erotismo antecipara-se a ele.

Crónica de um punhado de dias

"Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo
(Frederico García Lorca).


      Antoine vive no mundo normal de todos os dias, tem uma família, amigos na escola, brinquedos, prendas no Natal e ovos de chocolate e amêndoas na Páscoa. Nos anos, em pleno Agosto, recebe também muitas prendas novas, e uma que já é habitual, uma camisola de lã que a tia lhe oferece em cada aniversário, cada ano um pouco maior do que a camisola do ano anterior, ainda que Antoine ache que não cresceu durante esse tempo, ou, pelo menos, não se lembra de se sentir crescer, esticar, como os ramos novos das árvores na Primavera. Antoine gostaria mesmo de se sentir crescer, os braços e as pernas a ficarem maiores, ou os dedos da mão a afilarem-se, cada vez mais compridos (por vezes, desenha com um marcador fino um risco da raiz da unha até à ponta esbranquiçada, para ver se aparece um espaço sem estar riscado à medida que a unha cresce, mas a marca do marcador desaparece sempre, porque são tantas as vezes que os pais o obrigam a lavar as mãos).
     Antoine é muito pensativo, pensa muito e é muito ativo, quando pensa, por exemplo, que a sua própria sombra não pode ser mais rápida do que ele porque não consegue fugir-lhe, então, Antoine corre atrás dela para comprovar que, em momento algum, a sua sombra, mesmo que corra à sua frente e esteja a vencer a corrida, não faz um aceno de adeus e se esgueira por outra rua diferente daquela em que o Jorge está.
        Os relógios, também costumam atrair a atenção de Antoine, sobretudo os grandes e antigos, com lanças elegantes e negras que se movimentam com estalidos metálicos.
         Por esses dias, foi com os colegas numa visita de estudo à Torre das Colmeias, e puderam admirar de perto o relógio da torre secular, depois de uma subida íngreme por uma infinidade de degraus que pareciam nunca mais acabar. Ele gostou muito dos sons concertados das rodas dentadas e do som tranquilizador dos ponteiros do relógio, que pareciam dizer-lhe: “Enquanto estivermos a trabalhar, o tempo não irá parar!”. Antoine ficou tão satisfeito com essa mensagem percebida no ar, que, antes de descerem da Torre da Colmeias, agradeceu ao relógio por não deixar de trabalhar, o que levou alguns colegas a pensar que ele deveria ter apanhado com muito Sol na cabeça.
         Quando chegou a casa, ainda estava a pensar em relógios e no tempo. Quando ninguém estava a ver, empoleirou-se no tampo de uma cadeira e despendurou da parede da cozinha, um relógio que ali havia, redondo e com os números embutidos num fundo decorado com utensílios de cozinha – um vareta de arames, uma tenaz de salada e um rolo da massa. Em cima da mesa da cozinha, com muito cuidado, virou o relógio à espera de ver algo de maravilhoso como o mecanismo da Torre das Colmeias, mas só ali encontrou uma caixinha preta pequena, em plástico, com uma pilha circular pequena que alimentava o mecanismo. Dessa descoberta, Antoine tirou uma conclusão muito sua: o tempo é o mesmo para todos os relógios, mas os relógios são como espelhos em que as pessoas se olham, e neles o tempo pode parecer bonito ou feio. No relógio da Torre das Colmeias, disso não tinha dúvidas, o tempo parecia bonito como se tivesse acordado com um sorriso na cara ou vestido uma roupa nova. Naquele relógio que tinha na mão, o tempo escondia-se como um leproso por detrás do seu capuz e das vestes compridas de longas mangas que escondiam os membros e as mãos erodidas. Não havia encanto, doçura, devaneio.
         Antes de recolocar o relógio na parede, pensou no que aconteceria se andasse com os ponteiros para trás, iria o tempo andar para trás, como uma pessoa que descesse de costas na rampa rolante do centro comercial? Pensou e agiu, empurrando delicadamente o ponteiro dos minutos. Cinco minutos apenas, para ver o que acontecia. Não deu por nada, e arriscou mais um pouco, desta feita, empurrou o relógio quinze minutos. Tudo ficou na mesma, estava sentado à mesa da cozinha e o relógio não estava pendurado na parede. Então, fez uma última tentativa. Fez contas de cabeça, a pensar nas horas em que tinha visitado o relógio da Torre das Colmeias. Eram cinco horas da tarde quando lancharam cá em baixo, nas mesas sombreadas do parque de merendas, sob as árvores, por isso, às quatro e meia ainda deveriam estar lá em cima na Torre, e colocou então os ponteiros do relógio nas quatro e meia, e fechou os olhos, à espera de ouvir o tiquetaquear do mecanismo do relógio da Torre, mas nada, nada de sons, o que sentiu foi uma imagem que dançou no escuro dos seus olhos fechados, o rosto da Carolina, da sua colega de turma, que olhava para ele e sorria enquanto o guia explicava o funcionamento do relógio, a Carolina estava de pé diante da janela da torre, e a luz do sol fazia com que brilhasse na escuridão silenciosa dos seus olhos. Abriu-os e voltou a adiantar o relógio para a última hora de que se lembrava, e pendurou-o na parede, deliciado com o sorriso da Carolina, que permanecia ali, naquele preciso momento e - quem sabe? – naqueles que se seguiriam.


elegia prosaica

entardeceu, já
é noite, há muito que as manhãs 
se foram, lumes frios, corpos exangues, cansados do
torpor em que se recolheram. Enrolam-se, metem-se 
para dentro nas suas conchas
de madrepérola. Estás comigo e rememoramos os momentos
inicias do nosso amor, os primeiros dias da criação quando 
tudo era puro e denso, 
e os deuses, os faunos e as ninfas
se passeavam nas áleas ensolaradas dos nossos jardins, entoando
cânticos á vida e ao desejo.

A ave

Todas as manhãs, para a velha senhora do apartamento do rés-do-chão, a partida do vizinho de cima para o trabalho entrou na sua rotina diária. O vizinho possui um jeep que abre com um comando que ele aciona quando se encontra a poucos metros da viatura.
- Be-rup!
Quer esteja no quarto, na cozinha ou na sala, todas as manhãs, ela ouve o mesmo som.
- Be-rup! – parece-se com o trinado exótico de uma ave tropical de plumagem colorida.
- Be-rup! – pia o comando á Segunda.
- Be-rup! – pia á Terça, á Quarta e nos restantes dias da semana.
Uma manhã, ela ouve os passos pesados do vizinho quando se encontra na sala a regar os vasos de plantas, e fica á espera do piar do comando.
Mas o piar não surge, apenas o silêncio, sacudido pela voz do vizinho a resmungar e praguejar, muito exaltado.

Talvez o comando ou o jeep tenham voado - pensa a vizinha.

Divina Providência

O temporal fez o mar avançar sobre a terra, destruindo casas e muros. Quando a tempestade amainou, havia lanchas adornadas no meio das ervas e urzes, e carneiros e pessoas mortas a flutuar nas ondas, ao largo. Para restabelecer o equilíbrio das coisas e devolver as coisas aos seus lugares devidos, o deus daquelas paragens fez a tempestade regressar novamente ao mesmo sítio.

citação

Coleridge, o poeta, levantou-se com esforço da cadeira e, fixando o seu olhar firme na camponesa grávida sentada à sua frente, discursou.
- Julguem-me por aquilo que criei. Aquilo que eu poderia ter criado, é uma questão minha com a minha própria consciência!
A camponesa não se mostrou impressionada com os seus dotes oratórios, limitando-se a afagar o ventre proeminente.

Fábula

- Solta-me – pediu o homem.
O urso acedeu ao seu pedido, e abriu a armadilha de dentes de aço que se fechara sobre a perna do caçador.
- Obrigado! – agradeceu este, aliviado, apesar das dores excruciantes.

O urso afagou-lhe o cabelo com a sua pata felpuda. Era emocionante, o modo como a comida sabia ser agradecida.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...