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A mostrar mensagens de 2014

viagem

“Todo o fim contém em si o germe de um novo começo!” – enunciou o meu companheiro de viagem, parado ao meu lado, no carreiro que descia por entre pedras e brenhas. - Não me digas!? - É verdade! O fruto apodrecido no chão carrega a semente de um novo fruto, a estrela cadente que arrefece  na encosta esparziu já a centelha de um fogo brando ou de um sonho persistente e o velho carcomido que morre na solidão dos seus aposentos nauseabundos, transmite a sua sabedoria ao espírito de uma criança que desabrocha das coxas da sua mãe no outro lado do mundo. - Não digas disparates, e anda, que eu levo-te! – disse eu num gesto de compaixão, apanhando do chão a caveira falante para a transportar no saco que tinha ás costas. Talvez assim, ela se calasse.

Retrato breve de uma celebridade

Provocava, instigava os outros, e depois tinha temor da sua reação, do que poderiam pensar dele e corria a recolher do ar o eco das suas palavras, embolsando-o no seu casaco de algibeiras fundas. Se o que dizia era como as ondas concêntricas provocadas por um seixo atirado á água, então lá ia ele amainando as ondas com as palmas apaziguadoras da mão, antes que alguém notasse que a mansidão das águas havia sido perturbada. Sempre receoso, e inseguro e frágil. Sem motivo. Ninguém podia levá-lo a mal porque ninguém ligava ao que ele dizia ou fazia, era invisível, podia esvair-se em sangue ou derreter-se sob a luz do Sol, que ninguém ligaria. Porque provocava então? A resposta era evidente: para se sentir importante, ouvido, amado. Cada triste escolhe a ilusão que mais se coaduna a si. E sua maior tristeza, era precisar disso.

A maleta

Há dois meses que chegou, a mala pequena e puída na mão e o casaco pendurado no antebraço. A mala ficou desde então pousada a um canto, entreabriu-a apenas para tirar uma ou outra peça de roupa como quem puxa de vísceras soltas no ventre aberto do passado. Nunca desfez a mala, nem o pretende fazer. Se não se vai demorar por ali, para quê dar-se ao trabalho? Nas horas mais solitárias, pensa nos sítios para onde irá de seguida, e das viagens que lhe falta fazer. Outras vezes, sente-se mais atraído pelo passado e regressa num percurso centrípeto em espiral até aos domínios da memória, onde revive com melancolia as primeiras idades do mundo, a infância numa casa de campo, a mãe, sempre com o lenço na cabeça, o cheiro da comida cozinhada em tachos de barro ao lume, e o pai, sempre muito calado e distante, mourejando no trabalho da terra e que passava longos tempos ao entardecer sentado no murete da eira, a única altura em que ele se atrevia a sentar-se ao seu lado, partilhando o seu silên…

estratégias

Sólon, o ateniense, criou leis inovadoras para a sua cidade e partiu de lá, foi viajar pelo mundo para que ninguém o pressionasse a mudar essas leis ou a minorar os seus efeitos.
Moisés foi mais consistente. Trouxe da montanha sagrada dez mandamentos e ficou com o seu povo e os seus mandamentos até morrer. Não os alterou, mas também não era muito fácil fazer emendas, porque estavam gravados na pedra, e por um anjo poderoso e afeito à escrita.

Cristo, por seu turno, deu-nos um décimo primeiro mandamento, depois morreu, depois ressuscitou, depois partiu outra vez. O mandamento falava de amor, mas não mandou nada a quem o torturou, chicoteou e pregou à cruz. Ele deveria ter concedido mais tempo. Entregava o mandamento, e depois ia viajar como Sólon na esperança de que o romanos e os filisteus adotassem esse mandamento.

declínio

Os dias já não tinham piada, os putos aborreciam-se de tanto brincar e jogar no meio do lixo, e os mais velhos já estavam estafados de disparar e limpar armas. O circo chegou á cidade no meio desse marasmo que se adensava por todo o lado como se fosse explodir. Os artistas circenses fizeram o melhor que podiam para animar aquelas pessoas. Os contorcionistas de membros elásticos enrolavam-se como jiboias luzidias em volta dos postes de luz caídos pelo chão enquanto os equilibristas tentavam a sua sorte nos fios de narrativa suspensos por todo o lado; os amestradores de feras exibiam-nas, fazendo os tigres e os comensardos caminhar e rugir no tapete de ervas e caniços que rebentava no alcatrão das avenidas desertas, enquanto a mulher de barbas e o gigante destro percutiam com força em caixas de correio enferrujadas os acordes de uma marcha militar janízara, anunciando em voz alta as virtudes dos artistas que se iam sucedendo. Mas nenhum desses espetáculos arrancou as pessoas dos seus p…

eroísmo

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Na Cartagena das Índias construíram muralhas e fortificações, aprestadas com canhões de bronze e renques de armas de fogo encostados aos cantos abrigados das torres de vigia. Havia ouro e fome de ouro dos dois lados da muralha, e as lâminas das espadas sentiam uma idêntica sede de sangue. Defendida, tomada, resgatada, tomada outra vez, a Cartagena das índias tinha ruas como veias por onde corria o sangue e o ouro. Numa casa de pedra do bairro dos latoeiros, mesmo no centro de Cartagena das Índias, vivia uma jovem órfã com a sua velha avó, pela qual se apaixonou Juan Rincón, marceneiro jovem nascido na ilha Hispaniola. O seu amor foi correspondido pela jovem órfã. Casaram-se, e tiveram doze filhos. Foram felizes, e amaram-se quanto puderam, e criaram os filhos o melhor que puderam e souberam. O casal e os filhos não foram heróis ou piratas, não defenderam ou saquearam tesouros, por isso, não se admirem se não se falar deles quando se contar a história dourada e heroica de Cartagen…

Greve sem grevas

Radomiro iniciou uma greve de fome para protestar contra as exíguas porções de comida na cantina da escola. Estava muito convicto do seu ato e da sua razão e sentou-se imperiosamente numa das mesas da cantina para iniciar greve.
Almoçou, relativamente bem, porque a comida não era muita e, depois de sorver o resto do refrigerante, e de beber um café com natas, proclamou:
- Eu inicio, por este dia, a minha greve de fome.
E por ali ficou, de braços cruzados como um cacique orgulhoso, até soar a campainha e ter voltar para as aulas. Se ele mantinha a greve de fome pelo resto do dia, e após o regresso a casa,, ninguém o poderia assegurar
No dia seguinte, repetiu a cena, e no dia depois desse, até o diretor da escola ir de propósito à cantina para tentar por cobro àquela greve de fome. Já andava tudo alvoraçado por aquele gesto de protesto, e era notório que Radomiro emagrecera com a greve de fome, tal como seria de esperar. As roupas pareciam-lhe largas e as maçãs do rosto haviam quase despare…

ABCDário - S de Sonho

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Em Mani, nada nascia. Não havia ninhos nas árvores, crianças rompendo para a luz entre as coxas das mães, ou toupeiras cavernícolas parindo no fundo das suas covas escuras. Em Mani, não havia flores nem botões de flores, e mesmo o Sol rompia por detrás do nevoeiro como se tivesse vergonha de ser novo.

Mani era o lugar do Fim do Mundo. Ainda a cinza dos livros Maias não esfriara na fogueira dos franciscanos, e já os índios fugiam dali como da boca do Xibalba tenebroso, gritavam e pranteavam no seio do mar verde da floresta, derrubavam árvores e queimavam cubatas, golpeavam-se com lâminas e facas, castravam-se sem dor, e as mães matavam os filhos recém-nascidos para os poupar às fauces do deus-jaguar.

Em Mani, naquela noite, o clérigo Diego de Landa, a Besta do apocalipse Maia, possuiu trriunfalmente a índiazinha púbere e suada de olhos de choro como se cravasse um padrão em solo índio, e depois deixou-se cair para o lado, onde adormeceu profundamente, deleitando-se com a lembrança da …

O curso

Tirei um curso de visionário, por correspondência. Paguei por trinta lições, que me chegaram todas as semanas à Quarta-Feira. Uma lição, uma vez por semana. Não podiam ser mais. Os vizinhos não aguentariam mais do que isso, nem os carteiros. Não depois da segunda lição ter sido surripiada da caixa de correio da minha casa por um corvo listrado, e da terceira lição ressoar a mar no saco do carteiro, como se dentro do envelope houvesse um búzio prensado e dobrado.

O truque

O prestidigitador faz um truque com cartas. Abre um naipe de cartas em leque e pede a um voluntário na plateia que escolha uma e não diga que carta lhe calhou. O espetador obedece, tira uma carta, e vê qual é, com os olhos baixos, para o artista não a ver refletida nos seus olhos. Este volta a baralha-las, fecha os olhos e tira uma do meio delas e estende-a ao espetador. - Era esta carta? – pergunta com um timbre claro e aberto. O espetador rasga o envelope em branco, e retira a carta do interior. Uma carta apaixonada de Anaïs Nin a um amante. Hesita. - Sim…ach…
O prestidigitador solta uma exclamação de júbilo e a plateia rompe num aplauso estrondoso. O voluntário regressa ao seu assento, sentindo-se enganado e furioso.  O espetáculo prossegue com outros números e artistas, e o homem que se oferecera para participar no número de magia esgueira-se até ao camarim do artista. Está vazio. Abre a sua mala de apetrechos e saca as cartas usadas no show. Abre todos os envelopes, recolhe toda…

Crónica de um punhado de dias

"Olha à direita e à esquerda do tempo, e que o teu coração aprenda a estar tranquilo"  (Frederico García Lorca).

      Antoine vive no mundo normal de todos os dias, tem uma família, amigos na escola, brinquedos, prendas no Natal e ovos de chocolate e amêndoas na Páscoa. Nos anos, em pleno Agosto, recebe também muitas prendas novas, e uma que já é habitual, uma camisola de lã que a tia lhe oferece em cada aniversário, cada ano um pouco maior do que a camisola do ano anterior, ainda que Antoine ache que não cresceu durante esse tempo, ou, pelo menos, não se lembra de se sentir crescer, esticar, como os ramos novos das árvores na Primavera. Antoine gostaria mesmo de se sentir crescer, os braços e as pernas a ficarem maiores, ou os dedos da mão a afilarem-se, cada vez mais compridos (por vezes, desenha com um marcador fino um risco da raiz da unha até à ponta esbranquiçada, para ver se aparece um espaço sem estar riscado à medida que a unha cresce, mas a marca do marcador desap…

elegia prosaica

entardeceu, já é noite, há muito que as manhãs  se foram, lumes frios, corpos exangues, cansados do torpor em que se recolheram. Enrolam-se, metem-se  para dentro nas suas conchas de madrepérola. Estás comigo e rememoramos os momentos inicias do nosso amor, os primeiros dias da criação quando  tudo era puro e denso,  e os deuses, os faunos e as ninfas se passeavam nas áleas ensolaradas dos nossos jardins, entoando cânticos á vida e ao desejo.

A ave

Todas as manhãs, para a velha senhora do apartamento do rés-do-chão, a partida do vizinho de cima para o trabalho entrou na sua rotina diária. O vizinho possui um jeep que abre com um comando que ele aciona quando se encontra a poucos metros da viatura. - Be-rup! Quer esteja no quarto, na cozinha ou na sala, todas as manhãs, ela ouve o mesmo som. - Be-rup! – parece-se com o trinado exótico de uma ave tropical de plumagem colorida. - Be-rup! – pia o comando á Segunda. - Be-rup! – pia á Terça, á Quarta e nos restantes dias da semana. Uma manhã, ela ouve os passos pesados do vizinho quando se encontra na sala a regar os vasos de plantas, e fica á espera do piar do comando. Mas o piar não surge, apenas o silêncio, sacudido pela voz do vizinho a resmungar e praguejar, muito exaltado.
Talvez o comando ou o jeep tenham voado - pensa a vizinha.

Divina Providência

O temporal fez o mar avançar sobre a terra, destruindo casas e muros. Quando a tempestade amainou, havia lanchas adornadas no meio das ervas e urzes, e carneiros e pessoas mortas a flutuar nas ondas, ao largo. Para restabelecer o equilíbrio das coisas e devolver as coisas aos seus lugares devidos, o deus daquelas paragens fez a tempestade regressar novamente ao mesmo sítio.

citação

Coleridge, o poeta, levantou-se com esforço da cadeira e, fixando o seu olhar firme na camponesa grávida sentada à sua frente, discursou. - Julguem-me por aquilo que criei. Aquilo que eu poderia ter criado, é uma questão minha com a minha própria consciência! A camponesa não se mostrou impressionada com os seus dotes oratórios, limitando-se a afagar o ventre proeminente.

Fábula

- Solta-me – pediu o homem. O urso acedeu ao seu pedido, e abriu a armadilha de dentes de aço que se fechara sobre a perna do caçador. - Obrigado! – agradeceu este, aliviado, apesar das dores excruciantes.
O urso afagou-lhe o cabelo com a sua pata felpuda. Era emocionante, o modo como a comida sabia ser agradecida.

Por onde anda? (perguntam-lhe)

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R: Ando à procura do celacanto!