Conto matalício 1


Almoço de Natal da firma, presentes da corporação e comida a expensas dela. Sára está radiante, as faces afogueadas pelo vinho, estava capaz de beijar meio mundo, ou enrolar-se com a outra metade. Ao seu lado, o ex-marido, pálido e escalavrado, com cara de funeral. Pousa a sua mão sobre a dele, e arrisca.
- Diz-me, Álvaro, já tens alguém na tua vida?
Ele hesita, mede as palavras.
- Tenho a Myra, a caniche que tu já conheceste, e…
- E?
- Peggy, a porquinha, e Linda, a esquilo-fêmea que me ofereceste. Há umas semanas, juntei ao clâ uma cabrinha de pêlo acastanhado, a que dei o nome de Heidi.
- Sim, mas não tens nenhuma mulher na tua vida, pois não?
Álvaro negou num ronco, e só depois lhe bateu o sentido das perguntas, o olhar meloso de Sára, o ritmo cadenciado com que acariciava o seu punho.
- Mas não estou preparado para iniciar uma relação, ou reatá-la, como seria o caso – foi avisando.
- Mas porquê, Álvaro?
- Porque criar animais e ter sexo com eles exige tempo e dedicação!

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