Conto a duas mãos


                O dia de Natal amanheceu gelado mas o sol inundava o céu. Uma estrela brilhante teimava em permanecer no céu, ao lado do sol, apesar do dia. As pessoas olhavam para a estrela e sorriam. Era a estrela de Natal que naquele ano 2013 teimava em aparecer. Astrónomos amadores tentavam em vão explicar o fenómeno e não descortinavam planeta ou estrela que pudesse explicar o caso. Na TV os astrónomos profissionais desfiavam hipóteses mas ninguém sabia explicar a estrela.
                Maria caminhava lentamente pela planície alentejana, indiferente a tudo. Chorava o seu filho perdido. Engravidara de José e tinha perdido o filho. José seguia no seu encalço e temia a loucura da mulher. O seu silêncio assustava-o. Maria não estugava o passo, e ia colhendo algumas flores bravias com uma ligeira inclinação do seu torso e, em breve, estavam de novo junto á casa. Térrea, modesta, paredes caiadas, com um pequeno estábulo ao lado, onde ainda conservavam uma vaca leiteira, e um velho jerico no qual carregavam os cestos de verduras e legumes que levavam todas as Segundas-Feiras ao mercado da aldeia do Santo Lenho.
                José entrou na casa e pôs uma panela de água ao lume para fazer a sopa. Pela pequena janela, observou a esposa, sentada numa raiz saliente do sobreiro, com o olhar pousado na pequena sepultura ornada de flores e folhas. Porque a tarde reclinava, a estrela insólita no céu parecia brilhar ainda mais, e os seus raios inferiores, coisa estranha, pareciam apontar diretamente para a aldeia vizinha, cujo casario resplandecia na colina a leste da casa. José ficou intrigado. Jantaram á noitinha, com a braseira a crepitar dentro da boca enegrecida da lareira; e quando Maria falou em ir-se deitar, ele, apesar de andar preocupado com ela, anunciou-lhe que iria num instante á aldeia, ia e vinha num ápice, o tempo de beber um copo na taberna e desejar um Feliz Natal aos amigos. Maria concordou. Apesar da dor que a dilacerava por dentro, ela conseguia perceber que José deveria estar a passar pelo mesmo, e que aquele passeio poderia ser bom para ele, para os dois, ao cabo e ao resto.
                José não perdeu tempo. Calçou as botas altas, vestiu o capote sobre o pelico cor de terra, e caminhou em passadas largas até á aldeia vizinha com uma lanterna na mão. Quando atingiu a rua principal da aldeia, notou que a estrela irradiava mais luz do que a Lua, e que todas as casas tinham sombra à exceção duma, um casarão que parecia estar na perpendicular exata da estrela nos céus. Encheu-se de coragem e aproximou-se da porta da casa. Um escudo em estanho com três coroas de reis adornava a parede ao lado da porta.
                Com as mãos a tremer, fez soar a aldraba, e a porta abriu-se quase de imediato. Um homem negro de barbas apareceu na soleira, e fez-lhe um gesto amável, convidando-o a entrar.
                 - Entra, viajante – disse, frisando o gesto com palavras - o que te traz até esta casa?
                José encolheu os ombros, porque não o saberia dizer. Aceitou a oferta, e entrou, um pouco intranquilo. Havia outros dois homens lá dentro. O interior da casa era um vasto laboratório, com retortas e destiladores, provetas e longos tubos de vidro espiralados. Ao centro de toda essa parafernália, viu um forno, sabia que era um forno, embora não pudesse saber que lhe chamavam atanor.
                - Chamo-me Níger – apresentou-se o anfitrião, perante o seu mutismo – e os meus companheiros da magna ciência chamam-se Candido e Ruber. Curiosamente, apresentamos as três cores da Grande Obra, não é? E qual o teu nome, viajante?
                - José…
                O espanto tolhia-o. Volutas de vapor amarelado a sair de tubos, líquidos de cor púrpura a borbulhar em tigelas hemisféricas, o calor intenso.
                - O que é que vocês fabricam aqui? Licor? Aguardentes? – Aventurou, a mirar uma espécie de alambique.
                Não troçaram dele, apesar dum sorriso fugaz ter iluminado as suas faces. E Níger voltou a falar.
                - Procuramos sintetizar a matéria mais nobre que existe, uma substância que os tontos acreditavam poder produzir ouro, mas que terá aplicações mais úteis e mais duradoras. Com ela, poderemos, teoricamente, prolongar a juventude, debelar as doenças e, quem sabe, afastar indefinidamente a própria morte. E o modo como a processaremos, tornará possível que a consigamos produzir de forma incessante e inesgotável, de forma a podermos ajudar milhares ou milhões de pessoas. Ela trará um novo e radioso futuro a todas as pessoas, e uma vida onde a dor e o medo minguarão como criaturas subterrâneas a definhar nas suas tocas.
                - Isso a mim parece-me uma grila, daquelas que se inventa para pedir dinheiro á gente, ou para nos roubar a casa.
                -Mas não é, meu amigo, acredite-me. Temos quase tudo o que precisamos para levar a bom termo a Grande Obra…quase tudo…apenas nos falta uma ínfima partícula, um reagente raro, que os manuscritos árabes antigos diziam poder ser obtido no bico do pássaro lendário a que chamavam Roc, ou na espinha dorsal dum nascituro.
                - O que é um nascituro?
                - Um bebé que está por nascer, um feto. Mas nós os três supomos que se possa encontrar também num bebé recém-nascido ou de muita tenra idade.

                - Um bebé vivo?




Escrito por Maria e José

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