Um diálogo


               - Hoje, decidi contar-te uma história como se fosse assim como um diálogo, uma conversa entre duas pessoas. Parece-te bem?
               -  …
               - Pois aqui vai! A sete anos do momento em que inicio a narrativa, mais precisamente, ás catorze horas e cinco minutos (foi de cesariana, por isso a rapidez da sua expulsão para o mundo) dum dia vinte e dois de Abril, nasceu o nosso personagem ou, digamos, herói, ainda que não me pareça que ele vá ser herói de alguma coisa. Pois esse recém-nascido, que estava destinado a suceder ao seu pai e a reinar por direito na Baixa Panónia, decidiu que não queria reinar mal soube o que isso significava. Reinar, era a coisa pior e mais repugnante que conseguia imaginar. E então decidiu nascer outra vez, muniu-se de uma navalha afiada (acho que não deveriam deixar um arma como essa ao alcance de uma criança de cinco anos) e cortou de alto a baixo todos os cenários do seu mundo, o palácio com os seus jardins, o pavilhão de caça, o salão de vassalagem, as cavalariças – e, fazendo-o, foi dar á casa de um ferreiro que era, agora, o seu pai, e que só queria alimentá-lo á força para que ele se fizesse forte e robusto com os anos para poder acionar a fole da fornalha e, mais tarde, martelar na bigorna como ele e todos os seus ancestrais. Agradou-lhe o recato da oficina do ferreiro, e o odor adocicado da pele acobreada da sua mãe, mas o calor da fornalha e a perspetiva de uma vida de suor e luta demoveram-no de ali ficar e, com a mesma navalha, voltou a cortar o cenário e passou por essa abertura para uma nova vida…
               «Achas que estou a conseguir prender o leitor?
               - …
               - Seja, vou prosseguir o diálogo. Nessa nova vida, o nosso herói viu-se dentro de uma família de barqueiros que conduzia os passageiros de uma margem para outra do rio Volga. Adorou o aspeto romântico desse trabalho, o rio a correr junto á casa, as vozes das margens e o brilho das lanternas das casas nas águas agitadas mas, no instante em que subiu pela primeira vez para cima de um barco descobriu, chocado, que enjoava terrivelmente ao mínimo movimento do barco; e, sem demora, usou a navalha e voltou a rasgar o cenário para sair das margens do Volga. O nosso herói experimentou outras famílias e outras vidas, sem que nenhuma delas lhe agradasse, até que foi parar, acidentalmente, ao primeiro mundo que conhecera, quando saíra do ventre da sua mãe, no palácio real da capital da Baixa Panónia. Mas aí, também não conseguiu encontrar uma família ao seu gosto porque não havia ninguém por perto, o palácio havia sido selado pelas forças republicanas depois da família real ter sido tragicamente esfaqueada nos seus próprios aposentos. O nosso herói hesitou sobre o que fazer. Podia rasgar novamente os cenários com a sua faca e procurar um lugar e uma família onde gostasse de permanecer, mas também podia acontecer, uma vez mais, que fosse dar a um lugar onde já estivesse estado antes, e encontrasse alguém que se lembrasse dele e o quisesse punir pelo que antes fizera. Enquanto não se decidia, optou por permanecer uns tempos no palácio real, onde tinha os seus aposentos, os salões, as torres altas com uma vista invejável sobre a cidadela e a catedral. De qualquer das formas, ninguém o viria chatear com questões de etiqueta e protocolo, e estava sanada a ameaça maior, a obrigação insuportável de herdar a coroa do pai.
               E então, achas que a história tem penas para narrar?
               -  …
               - Omitirias ou acrescentarias alguma coisa?
               -  …
               - Não dizes nada?
               - …

               - Também não sei porque é que te pergunto…nunca conheci um pato de borracha que desse uma resposta de jeito! 

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