Insónia


Sofria de insónias.

Ao fim de dois dias, a pele em volta dos olhos ficava de uma tonalidade estranha entre o roxo e o carmesim.

Ao fim de sete dias sem conseguir dormir, o círculo escuro em volta dos olhos parecia um aro de obsidiana.

Ao fim de duas semanas, o círculo afundava-se em volta dos olhos, cada vez mais para dentro, e os olhos pareciam suspensos na ponta de dois picos transversais.

Ao fim de um mês, esse fosso circular em volta dos olhos atingia a nuca, e podia sentir finalmente a brisa a refrescar-lhe as circunvoluções dos miolos.

Ao fim de um mês e um dia, a maior parte dos miolos já se havia evadido por aí, e já não pensava nem se preocupava tanto. E então o sonho vinha, como a água de um rio dócil que preenche a cratera funda e fumegante dum meteoro e espalha-se por ela, ocultando os gumes e as arestas da vigília obsessiva.

Adormece, profundamente, os olhos fecham-se, os círculos saram, os miolos reconstituem-se. E depois, começa tudo outra vez, porque acorda alarmada com a sensação de que lhe falta alguma coisa.



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