INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

O homem dos sete instrumentos


   Adojan, é músico.
   Para começar, Adojan é húngaro, e a música corre docemente nas veias dos húngaros.Depois, Adojan é capaz de tocar sete instrumentos ao mesmo tempo, e todos de forma coordenada e melodiosa.
   Adojan prefere temas movimentados, com ritmo e batida, porque são úteis para os instrumentos de percussão que tanto ama. Mas também toca qualquer tema de ouvido, basta pedirem-lhe e pagarem por isso.
   Mas agora, Adojan já não tem tanta certeza de ser um músico que mereça esse nome (apesar de ser húngaro e conseguir tocar muitos instrumentos diferentes).
   É que a filha pequena, vendo-o na sala a afinar e a polir os instrumentos musicais, perguntou-lhe (Ai, as perguntas das crianças!) se ele era capaz de tocar uma música só com apenas um dos instrumentos, uma música inteira, do princípio ao fim.
   Adojan sorriu alegremente, antes desse sorriso esfumar-se da sua cara com a verdade.
   NÃO ERA CAPAZ!
   Não conseguia!
   Adojan abraçou a sua filha e pediu-lhe desculpas.
   Adojan sofre, e sente que deveria,
   também,
   pedir desculpas á música...

Crítica

Insónia


Sofria de insónias.

Ao fim de dois dias, a pele em volta dos olhos ficava de uma tonalidade estranha entre o roxo e o carmesim.

Ao fim de sete dias sem conseguir dormir, o círculo escuro em volta dos olhos parecia um aro de obsidiana.

Ao fim de duas semanas, o círculo afundava-se em volta dos olhos, cada vez mais para dentro, e os olhos pareciam suspensos na ponta de dois picos transversais.

Ao fim de um mês, esse fosso circular em volta dos olhos atingia a nuca, e podia sentir finalmente a brisa a refrescar-lhe as circunvoluções dos miolos.

Ao fim de um mês e um dia, a maior parte dos miolos já se havia evadido por aí, e já não pensava nem se preocupava tanto. E então o sonho vinha, como a água de um rio dócil que preenche a cratera funda e fumegante dum meteoro e espalha-se por ela, ocultando os gumes e as arestas da vigília obsessiva.

Adormece, profundamente, os olhos fecham-se, os círculos saram, os miolos reconstituem-se. E depois, começa tudo outra vez, porque acorda alarmada com a sensação de que lhe falta alguma coisa.



Um diálogo


               - Hoje, decidi contar-te uma história como se fosse assim como um diálogo, uma conversa entre duas pessoas. Parece-te bem?
               -  …
               - Pois aqui vai! A sete anos do momento em que inicio a narrativa, mais precisamente, ás catorze horas e cinco minutos (foi de cesariana, por isso a rapidez da sua expulsão para o mundo) dum dia vinte e dois de Abril, nasceu o nosso personagem ou, digamos, herói, ainda que não me pareça que ele vá ser herói de alguma coisa. Pois esse recém-nascido, que estava destinado a suceder ao seu pai e a reinar por direito na Baixa Panónia, decidiu que não queria reinar mal soube o que isso significava. Reinar, era a coisa pior e mais repugnante que conseguia imaginar. E então decidiu nascer outra vez, muniu-se de uma navalha afiada (acho que não deveriam deixar um arma como essa ao alcance de uma criança de cinco anos) e cortou de alto a baixo todos os cenários do seu mundo, o palácio com os seus jardins, o pavilhão de caça, o salão de vassalagem, as cavalariças – e, fazendo-o, foi dar á casa de um ferreiro que era, agora, o seu pai, e que só queria alimentá-lo á força para que ele se fizesse forte e robusto com os anos para poder acionar a fole da fornalha e, mais tarde, martelar na bigorna como ele e todos os seus ancestrais. Agradou-lhe o recato da oficina do ferreiro, e o odor adocicado da pele acobreada da sua mãe, mas o calor da fornalha e a perspetiva de uma vida de suor e luta demoveram-no de ali ficar e, com a mesma navalha, voltou a cortar o cenário e passou por essa abertura para uma nova vida…
               «Achas que estou a conseguir prender o leitor?
               - …
               - Seja, vou prosseguir o diálogo. Nessa nova vida, o nosso herói viu-se dentro de uma família de barqueiros que conduzia os passageiros de uma margem para outra do rio Volga. Adorou o aspeto romântico desse trabalho, o rio a correr junto á casa, as vozes das margens e o brilho das lanternas das casas nas águas agitadas mas, no instante em que subiu pela primeira vez para cima de um barco descobriu, chocado, que enjoava terrivelmente ao mínimo movimento do barco; e, sem demora, usou a navalha e voltou a rasgar o cenário para sair das margens do Volga. O nosso herói experimentou outras famílias e outras vidas, sem que nenhuma delas lhe agradasse, até que foi parar, acidentalmente, ao primeiro mundo que conhecera, quando saíra do ventre da sua mãe, no palácio real da capital da Baixa Panónia. Mas aí, também não conseguiu encontrar uma família ao seu gosto porque não havia ninguém por perto, o palácio havia sido selado pelas forças republicanas depois da família real ter sido tragicamente esfaqueada nos seus próprios aposentos. O nosso herói hesitou sobre o que fazer. Podia rasgar novamente os cenários com a sua faca e procurar um lugar e uma família onde gostasse de permanecer, mas também podia acontecer, uma vez mais, que fosse dar a um lugar onde já estivesse estado antes, e encontrasse alguém que se lembrasse dele e o quisesse punir pelo que antes fizera. Enquanto não se decidia, optou por permanecer uns tempos no palácio real, onde tinha os seus aposentos, os salões, as torres altas com uma vista invejável sobre a cidadela e a catedral. De qualquer das formas, ninguém o viria chatear com questões de etiqueta e protocolo, e estava sanada a ameaça maior, a obrigação insuportável de herdar a coroa do pai.
               E então, achas que a história tem penas para narrar?
               -  …
               - Omitirias ou acrescentarias alguma coisa?
               -  …
               - Não dizes nada?
               - …

               - Também não sei porque é que te pergunto…nunca conheci um pato de borracha que desse uma resposta de jeito! 

Verão Quente


   Em Moçambique, no ano de 1975, no tempo quente, deixara de se ouvir tiroteios de turras e tropas perto das casas do bairro; e para um adolescente como o Luís, havia a imensidão promissora das férias e dos amigos, as coboiadas, os bailes de garagem e as matinés no cinema Kudeca ao ar livre, junto ao rio Zambeze. Ah, e havia a Mimi! Todos a chamavam assim, porque fora batizada como Hermengarda, nome inspirado talvez e de forma infeliz pela heroína de Eurico, o Presbítero. Encontrava muitas vezes a Mimi nos bailes de garagem, mas nunca arranjara coragem para a convidar para dançar, ainda que o seu coração batesse como um metrónomo quando a admirava de longe, embalado por alguma música de Nelson Ned ou Nilton César. Mimi era sardenta e ruiva, tinha um sorriso lindo, e gostava de usar blusas brancas e saia curta de cor anil. Mimi flertava, ao que parecia, com o irmão do Luís, mas uma noite, no cinema, com ela sentada na cadeira do lado e empurrado pelas hormonas ou pela parvoeira natural dessa idade parva, Luís apalpou-lhe o rabo, com tanta força que ficou a pensar se não a teria aleijado. Ao intervalo, enquanto bebiam uma Canada Dry no bar apinhado de gente, ela fixou nele um olhar de nojo e desprezo, e Luís sentiu-se pior do que bosta de cão. E, nesses dias, sofreu e apodreceu por dentro, sentindo que dera cabo da vida, e desse sonho confuso de uma paixão com sardas.
   Hoje, quase quarenta anos depois, e olhando para o passado, Luís acha significativo que os livros de História falem do Verão Quente de 1975, como se todos os historiadores de todas as academias e universidades estivessem preocupados em ressarci-lo – a ele, Luís - das disparatadas tribulações da adolescência. 
   Sentada ao seu lado no alpendre, Mimi não consegue deixar de concordar consigo, ainda que ressalve, perante os filhos, que os dois não haviam começado da melhor maneira.


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...