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A mostrar mensagens de Setembro, 2013

O homem dos sete instrumentos

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Adojan, é músico.
   Para começar, Adojan é húngaro, e a música corre docemente nas veias dos húngaros.Depois, Adojan é capaz de tocar sete instrumentos ao mesmo tempo, e todos de forma coordenada e melodiosa.
   Adojan prefere temas movimentados, com ritmo e batida, porque são úteis para os instrumentos de percussão que tanto ama. Mas também toca qualquer tema de ouvido, basta pedirem-lhe e pagarem por isso.
   Mas agora, Adojan já não tem tanta certeza de ser um músico que mereça esse nome (apesar de ser húngaro e conseguir tocar muitos instrumentos diferentes).
   É que a filha pequena, vendo-o na sala a afinar e a polir os instrumentos musicais, perguntou-lhe (Ai, as perguntas das crianças!) se ele era capaz de tocar uma música só com apenas um dos instrumentos, uma música inteira, do princípio ao fim.
   Adojan sorriu alegremente, antes desse sorriso esfumar-se da sua cara com a verdade.
   NÃO ERA CAPAZ!
   Não conseguia!
   Adojan abraçou a sua filha e pediu-lhe desculpas.

Crítica

O crítico literário, pago pelas grandes editoras, escrevia deliciosos encómios por encomenda. Era tudo menos um crítico.
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) September 7, 2013

Insónia

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Sofria de insónias.
Ao fim de dois dias, a pele em volta dos olhos ficava de uma tonalidade estranha entre o roxo e o carmesim.
Ao fim de sete dias sem conseguir dormir, o círculo escuro em volta dos olhos parecia um aro de obsidiana.
Ao fim de duas semanas, o círculo afundava-se em volta dos olhos, cada vez mais para dentro, e os olhos pareciam suspensos na ponta de dois picos transversais.
Ao fim de um mês, esse fosso circular em volta dos olhos atingia a nuca, e podia sentir finalmente a brisa a refrescar-lhe as circunvoluções dos miolos.
Ao fim de um mês e um dia, a maior parte dos miolos já se havia evadido por aí, e já não pensava nem se preocupava tanto. E então o sonho vinha, como a água de um rio dócil que preenche a cratera funda e fumegante dum meteoro e espalha-se por ela, ocultando os gumes e as arestas da vigília obsessiva.
Adormece, profundamente, os olhos fecham-se, os círculos saram, os miolos reconstituem-se. E depois, começa tudo outra vez, porque acorda alarmada c…

Um diálogo

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- Hoje, decidi contar-te uma história como se fosse assim como um diálogo, uma conversa entre duas pessoas. Parece-te bem?                -  …                - Pois aqui vai! A sete anos do momento em que inicio a narrativa, mais precisamente, ás catorze horas e cinco minutos (foi de cesariana, por isso a rapidez da sua expulsão para o mundo) dum dia vinte e dois de Abril, nasceu o nosso personagem ou, digamos, herói, ainda que não me pareça que ele vá ser herói de alguma coisa. Pois esse recém-nascido, que estava destinado a suceder ao seu pai e a reinar por direito na Baixa Panónia, decidiu que não queria reinar mal soube o que isso significava. Reinar, era a coisa pior e mais repugnante que conseguia imaginar. E então decidiu nascer outra vez, muniu-se de uma navalha afiada (acho que não deveriam deixar um arma como essa ao alcance de uma criança de cinco anos) e cortou de alto a baixo todos os cenários do seu mundo, o palácio com os seus jardins, o pavilhão de caça…

Verão Quente

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Em Moçambique, no ano de 1975, no tempo quente, deixara de se ouvir tiroteios de turras e tropas perto das casas do bairro; e para um adolescente como o Luís, havia a imensidão promissora das férias e dos amigos, as coboiadas, os bailes de garagem e as matinés no cinema Kudeca ao ar livre, junto ao rio Zambeze. Ah, e havia a Mimi! Todos a chamavam assim, porque fora batizada como Hermengarda, nome inspirado talvez e de forma infeliz pela heroína de Eurico, o Presbítero. Encontrava muitas vezes a Mimi nos bailes de garagem, mas nunca arranjara coragem para a convidar para dançar, ainda que o seu coração batesse como um metrónomo quando a admirava de longe, embalado por alguma música de Nelson Ned ou Nilton César. Mimi era sardenta e ruiva, tinha um sorriso lindo, e gostava de usar blusas brancas e saia curta de cor anil. Mimi flertava, ao que parecia, com o irmão do Luís, mas uma noite, no cinema, com ela sentada na cadeira do lado e empurrado pelas hormonas ou pela parvoeira natur…