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Um Decálogo (de nove) sobre o estudo de mistérios:
(Um apontamento)

               Introdução:
               Os mistérios (da história, da ciência, e outros) prosperam porque são uma forma diluída de religiosidade, com as mesmas virtudes e vícios de qualquer forma de religiosidade: a preferência por certezas espontâneas e iluminadas que nos inundam a mente de neurotransmissores com efeitos agradáveis e recompensadores; a verdade como caraterística restrita a um grupo ou comunidade, concordância cega, negação da crítica, clivagem e maniqueísmo (eu, nós, sabemos a verdade, os outros nadam em erro e possuem dois cornichos na testa e uma língua bifurcada), substituição do debate pela certeza alojada nos nós dos dedos, etc.
               Em virtude disto, e como um curioso que já viu e leu muita coisa nestes domínios, alinhei as notas que se seguem, tiradas de uma pauta muito caótica.

1 – Uma pessoa pode interrogar-se ou interessar-se por um mistério sem ser um historiador, um cientista ou um físico, mas será um interesse inconsequente e supérfluo se não possuir uma consciência crítica, e um espírito exigente e rigoroso – abreviando, se não possuir uma atitude científica.

2- É necessário separar as águas.
               É comum, o objeto de estudo não estar isolado, mas sim, unido, cooptado, a outras questões e mistérios; e não se consegue fazer uma abordagem clara se não for feita a demarcação do que se pretende estudar ou investigar. Se alguém fala, por exemplo, de ruínas submersas no Atlântico, falará também, eventualmente, do Triângulo das Bermudas, das crenças dos Teósofos, dos deuses astronautas, ou dos problemas de asma do Holandês Voador. Ou, se falar de Nostradamus, eventualmente, vai invocar uma dezena de profecias antigas e modernas, e meter ao barulho muitas histórias e personagens diferentes e incluir algumas fraudes que já foram descobertas e expostas.
               É mister pois, eleger o tema, e ter sempre um ponto de fuga, um horizonte definido para o qual os factos e indícios apurados possam convergir.

3 – Consequência da nota anterior: ter uma noção do que é mistério, objeto de estudo, e do que é ficção e fantasia, que amiúde envolve o mistério e o contamina. Esta promiscuidade resulta muitas vezes de uma leitura apressada do que já se escreveu sobre um determinado assunto. Se um autor (A) narrar algum tipo de fenómenos luminosos estranhos numa dada região que acompanharam a queda de um pequeno asteroide, e outro autor (B) colocar a hipótese de que isso se deveu ao choque na atmosfera entre o asteroide e uma aeronave de um tipo qualquer, é muito provável que um terceiro autor (C), venha fundir as duas narrações, dizendo que nessa dita região e na data definida (e aí expiram os factos) um asteroide caiu na terra depois de ter colidido com um avião, provocando fenómenos luminosos estranhos, que se explicam pela explosão deste e pelo combustível a arder. A partir daí, é esta terceira versão que oferece mais probabilidades de se tornar a versão “original” para os que chegarem depois ao tema, porque é a mais fantástica e excitante e, logo, aquela que terá uma vida mais longa.
               Estas confusões são particularmente frequentes quando se aborda algum mistério relacionado com a biografia dalgum personagem histórico, porque as biografias escritas são muitas vezes, um somatório de factos e ficção, e biógrafos há que colmatam as lacunas, inventando para recreio do leitor o que poderia ter sucedido em períodos de tempo para os quais não possui qualquer dado ou relato. O grande problema, é que esses biógrafos se esquecem frequentemente de avisar os leigos que os seus livros encerram ficção.

4 – Como em qualquer estudo, possuir a humildade e a honestidade para assumir os erros cometidos e refazer as opiniões já alicerçadas, por muito que isso traga frustração e desalento.

5 – Ir sempre ás fontes. Máxima da História que é válida para qualquer estudo sobre enigmas. Dá trabalho, mas é a única forma de nos aproximarmos da verdade; rebuscar uma atrás da outra, a fonte anterior, a versão mais pura e menos manipulada da verdade. Há que atravessar com paciência o caudal de erros, disparates, más traduções e opiniões ignorantes que nos separam do que queremos estudar, analisar, inquirir. Por vezes, a deformação é involuntária, inocente, uma opinião apressada, uma análise descuidada, mas em muitas outras, os investigadores contribuem para as fraudes de forma intencional, por teimosia ou mera ganância (os best-sellers podem render muito dinheiro).
               Dou um exemplo.
               Quando Henri Lhote estudou as pinturas rupestres nos rochedos do Saara, havia entre elas, muitas que representavam seres estranhos, mágicos, talvez entrevistos no transe de cerimónias religiosas com uso de alucinogénios. A uma delas, um ser gigantesco com duas antenas na cabeça e de cor avermelhada, Lhote batizou com o nome de “Grande deus Marte”, pela imponência da figura e pela cor, que é a mesma do planeta. Como seria de esperar, em todos os livros sobre Deuses Astronautas (ou visitantes do espaço nos tempos históricos e pré-históricos), a fotografia reaparece e lembra-se repetidamente que Lhote a batizou de o “Grande Deus Marciano”. Uma pequena e significativa diferença.

6 – Como em qualquer dissertação ou estudo, não se deve atravessar o riacho a nado, mas saltar de pedra em pedra, com segurança. Ou seja, o estudo tem de ser uma progressão verificada de passos e estádios, que podem ser repetidos por qualquer pessoa, e realizados em sentido inverso, se necessário for. Em nenhum dos passos, pode haver uma conclusão saída do nada, ex machina, uma peça exógena que se obriga a encaixar no puzzle ao qual não pertence.
               Novo exemplo: Na década de sessenta e setenta, o investigador francês Robert Charroux (m. em 1978) escreveu uma série de livros que ainda hoje são reeditados e fazem os editores auferirem importantes somas de dinheiro. Charroux atingiu uma notoriedade extraordinária como investigador, com pessoas que lhe escreviam de todo o mundo para lhe confiarem as suas teorias e suspeitas e sendo auxiliado por “mestres” anónimos cujos ensinamentos ainda hoje nos intrigam. Mas Charroux tinha alguns temas redundantes como o celticismo (via celtas e obras célticas em todo o lado), ou a teoria de Velikovsky sobre a colisão dos mundos, que defendia, entre outras coisas, que o planeta Vénus nem sempre estivera no nosso sistema solar e que cá chegou em tempos proto-históricos, há cerca de cinco mil anos. Charroux abraçou esta teoria com convicção, e foi um dos percursores da teoria dos Deuses Astronautas. Se Vénus nos chegou há cinco ou seis mil anos, e foram essas as datas em que nasceram as grandes civilizações, então, os dois factos estavam interligados, e tinham sido os venusinos a instruir-nos nas coisas importantes da cultura. A espiral de argumentos nascidos do nada atingiu uma tal proporção que, nos seus livros, a cor verde está associada aos venusinos e aos Antepassados Superiores, e constitui, per si, um indício importante. Uma estátua de jade, ou um artefacto em serpentina, porque tinham cor verde, tornavam-se passíveis de serem interpretados como um objeto de culto ou uma oferenda aos civilizadores vindos do planeta Vénus, e os Olmecas e Maias da América Central ficavam no mesmo barco que as civilizações antigas do Extremo Oriente, porque os seus artífices tiveram o infortúnio de possuírem uma predileção idêntica por pedras de cor verde.

7 - Desconfiar das soluções ou respostas fáceis. Por natureza, o ser humano cede facilmente á preguiça, e colhe os frutos que estão mais á mão em vez de ambicionar os outros que o obrigam a esforçar-se mais e ascender na árvore em busca deles. As soluções fáceis são, quase sempre simplistas, contornou-se a complexidade dos assuntos, queimou-se etapas do percurso para que elas estivessem mais perto de nós, ainda que estejam repletas de erros.

8 –Noção (apenas) aparentemente contraditória com a anterior.
               Não complicar desnecessariamente as questões, criando afluentes e ramificações que não pertencem ao que se está a estudar; para evitar criar vazios e rodeios que enevoam o tal ponto de fuga de que falávamos antes, e as formas de o alcançarmos.

9 – Ser ambicioso e ter uma visão mais dilatada.
               O que pretendo referir com isto, é que é muito comum procurar-se as respostas próximo ao enigma, repetindo interpretações imediatas que muitos já bosquejaram antes, e de forma consistente. Muitas vezes, as respostas só são alcançadas se a pessoa conseguir ter uma noção do contexto e das implicações do mistério, nem que, para tal, tenha de estudar matérias e temas que, numa primeira análise, nada teriam a ver com ele. Uma tese histórica ou arqueológica pode socorrer-se de campos de conhecimento tão variados como a astronomia, o estudo palinológico, a geologia e a genética; e não há motivos nenhuns para que, no estudo de qualquer mistério, não seja empregue a mesma diversidade de meios e processos para atingir a verdade que se procura e deseja.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...