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Rito

(desenho de Eduardo Salavisa, retirado do seu blogue, o excelente Diário Gráfico)

   Apanhou a mulher na estação de comboios no caminho de regresso a casa. Ainda ela não tinha aberto a porta do carro e já estava a resmungar, ou a narrar com resmungos como fora o seu dia - o trabalho, as chatices, os miúdos que não se calam na sala de aula, a conversa fiada da diretora, os cheiros do comboio, as notícias, a antipatia de todos. Narrava tudo com os inúmeros recursos e subtilezas da sua vitimice extremada. Ele ouvia, parcialmente, e concordava, tentando prestar atenção á estrada. O trajeto até casa durava perto de três quartos de hora, quase tanto tempo como o monólogo da esposa.
   Chegou a casa e arrumou o carro, e com a mulher segura ao seu braço e ainda, e sempre, a falar, abriu a porta de casa e entraram. A mulher correu a refugiar-se no wc. do quarto para se mimar com um banho retemperador, e ele ficou plantado no vestíbulo. Com as chaves de casa presas na transpirada palma da mão, notou o brilho bruxuleante duma vela acesa na penumbra do corredor. Já sabia do que se tratava, porque todos os dias se repetia a mesma cena. Uma vela acesa dentro dum copo no chão do corredor, a primeira de dez que se sucediam até á espaçosa sala de estar. Seguiu o trilho luminoso até lá. Em cima da mesa da cozinha, e iluminada apenas por um dos focos do candeeiro de teto, estava um copo de uísque ao lado dum revólver, o seu revólver, aquele que guardava habitualmente na cómoda do quarto. Alargou o nó da gravata e bebeu um pouco de uísque. O revólver estava pronto a usar, carregado e destravado. Ainda não percebera em quem é que deveria disparar o revólver, se na esposa ou em si mesmo, mas não queria perguntar, aborrecer-se com isso.
   - Ainda não será hoje! – pronunciou de forma audível, guardando a arma no bolso do casaco depois de a travar.
   A filha adolescente, sentada no degrau cimeiro da escada que conduzia ao piso superior, levantou-se e esfumou-se na obscuridade como uma sombra. Imaginou que ela deveria ostentar uma expressão de amuo.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...