O curso



   Encontrava-se de férias. Pôs de parte a preguiça, as cervejas entesouradas no frio, as sornas na praia ou na cama de rede de jardim, e decidiu fazer algo de útil e proveitoso com as férias, servir-se delas para se tornar uma pessoa melhor e mais rica. Como era um pouco avesso a leituras, optou por tirar um curso de línguas. Contatou uma empresa de ensino de línguas cujo anúncio comercial online estava sempre a pop-upar no seu site favorito de pornografia, e subscreveu um Curso Completo de Silêncio, que compreendia sete DVDs com aulas, e um CD-ROM interativo para conversar com o professor. Quando finalizasse o curso, e com vista a obter o diploma, teria de prestar uma prova escrita, acrescida de um exame oral através do sistema de videoconferência.
   Entusiasmado, embrenhou-se com uma vontade enérgica no bosque intricado de vocábulos e verbos do Curso de Silêncio. Quanto mais estudava e repetia as palavras, mais à-vontade se sentia com a língua, e as dificuldades só aumentaram quando iniciou o estádio de conversação básica. Eram coisas muito diferentes conhecer as palavras isoladamente e empregá-las para estruturar, e de forma correta, uma frase, por mais simples que fosse. A redação em Silêncio também foi um pouco difícil, mas aí, ao contrário da conversação imediata, tinha mais algum tempo para refletir sobre o que iria escrever e como, de forma que podia elaborar os textos com menos pressão sobre si.
   O tempo que levou para concluir o Curso Completo de Silêncio foi quase á justa para o tempo de férias que ainda lhe restava. Quando chegou o ansiado e temido final de curso, prestou a prova escrita e, no dia acordado, sentou-se diante da webcam para a prova oral. Estava muito nervoso, e sentiu que esse nervosismo lhe estava a afetar a prova enquanto era entrevistado pelos examinadores.
   Dois dias depois, recebeu um email com as (más) notícias que já esperava. Teria que repetir a parte final do Curso Completo de Silêncio e fazer novos exames. A apreciação que lhe era feita, é que tivera valores medianos e suficientes na prova escrita, mas o que levara á sua reprovação fora a pronúncia sofrível que demonstrara na prova oral.

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