INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Mar-morto


   Dez horas da manhã (de uma manhã enevoada de Quarta-Feira). Hora de abrir o expediente, de bulir, de picar o cartão. As lojas, escritórios e repartições abrem as portas, algum empregado mais tarimbado aspira com força o resto do fumo do seu cigarro antes de entrar. Uma jovem muito maquilhada varre a entrada de uma butique; mais abaixo, a dona de um quiosque pagina os jornais do dia alinhados no expositor.
   Décio Júnio aguarda ainda uns momentos. Não gosta de entrar numa loja enquanto a caixeira ainda arruma os dinheiros na caixa ou os marçanos dão um toque nos artigos expostos e abrem os estores de fitas. Por fim, tira o boné cinza e entra na loja de alfaias agrícolas com humildade e receio. Abana a cabeça perante o olhar inquiridor dum marçano, e num relance, encontra quem procura, uma caixeira que folheia umas guias de remessa no cubículo de pagamento. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, apesar dos anos que haviam escorrido como areia desde a última vez que o vira. Aproxima-se e ela mostra-se surpreendida por ver um cliente aos primeiros momentos de abertura da loja.
   - Graça? – Pergunta, sabendo de antemão a resposta.
   - Sim, em que posso ser-lhe útil?
   - Talvez não te recordes de mim, sou o Décio. Namoriscamos no liceu, numa altura muito complicada para ti, quando tinhas muitos problemas na família por causa do teu pai e do teu irmão.
   - Sim, tenho uma vaga ideia…
   - Houve uma noite em que saímos, no dia em que prenderam o teu irmão…
   - Sim, sim, mas peço-lhe que seja breve. Estou a trabalhar, e podem não aceitar muito bem que eu fique por aqui a cavaquear.
   - Termino em minutos! Nessa noite, tu…você chorou, e jurou que seria a última vez que chorava. Também foi a última vez que estivemos juntos.
   - E?
   - Eu guardei-lhe e trouxe para lhe entregar, a última lágrima que choraste nessa noite.
   Diante da sua incredulidade, ele abriu a palma da sua mão e expôs um pequeno pingente brilhante, que ela recebeu nas suas mãos entreabertas. E logo estremeceu, porque imaginara que fosse mole e fluido como uma gota de resina e era, no entanto, semelhante a um pequeno cristal liso e arredondado.
   - Sabia que te faria falta, faz falta a qualquer pessoa. Agora, já podes chorar…
   Mal disse isso, rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se á porta de saída da loja. Não olhou para trás, tentou não olhar, como Lot. Atrás de si, permanecia o passado, Graça, e o sal das lágrimas.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...