férias


   - Quero férias! – reclamava o velho Tibório, de braços cruzados a esfregar os cotovelos, como se o clamor dos seus ossos reforçasse a sua causa – ando muito cansado e cheio de dores nos ossos, tenho direito ás férias e preciso de as ter… - adiantou, pausando as palavras para ser bem entendido.
   O autarca encolheu os ombros.
   - Ó Tibório… não poderia pensar melhor no assunto? Estamos em Agosto, e eu não tenho mais ninguém. Você sabe como as coisas são, com o calor e tudo o mais…
   Mas Tibório mostrou-se inflexível e lá teve as férias. Ansiadas e merecidas. Gozou-as em pleno, os filhos que tinham vindo de férias de França enchiam a sua casa e fez tudo com eles, foi aos arraiais e ás touradas, percorreu todas as capelinhas das adegas dos amigos, torrou deitado na areia da praia enquanto adultos e pirralhos riam ou se agitavam á sua volta, enfumarou-se com os churrascos e as fornadas de pão e pão com chouriço ou torresmos.

   Quando as férias terminaram, voltou ao trabalho, ciente de que iria pagar bastante pelo descanso. E lá estavam eles á sua espera, os caixões, dez no total, pousados sobre barrotes de madeira de carvalho, com a cabeceira encostada á face interna do muro do cemitério. Estavam á torreira do Sol e pejados de moscas, mas Tibório era uma raposa velha e vinha preparado. Trouxera flores de alfazema que fixou entre o bigode grisalho e o nariz com um pedaço de cordel que atou na nuca. Subtraindo-se assim ao cheiro que empestava o local, muniu-se das suas ferramentas e começou a cavar a primeira das dez covas.

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