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   - O que somos nós? – perguntava o Jovem com Aspirações Políticas ao Político Experiente Inspirado.
   - Nós – e respirou fundo para intercalar a pausa significativa que os mestres usam antes de cada ensinamento basilar – nós somos Republicanos Darwinistas.
   - E o que é isso? – voltou á carga o jovem, receando perder alguma migalha, algum fio solto de sabedoria.
   - Acreditamos no valor da República tanto quanto acreditamos na verdade darwinista do domínio do mais forte e da sua preponderância na seleção natural, das espécies e dos indivíduos dentro de cada espécie. Isso conduziu-nos a enriquecer os três direitos fundamentais da Revolução Francesa, que são…?
   - A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.
   - Muito bem! Mas esse lema, visto duma perspetiva mais atual e ponderada, leva-nos ao seguinte: Liberdade, para espoliar os mais fracos, aqueles que perderam na batalha da sobrevivência e que são, garantidamente, os menos aptos para conduzir, governar ou decidir. Igualdade, entre os mais fortes, o que significa poder, poder económico ou político mas, sobretudo, o poder puro, o único capaz de criar leis que nos salvaguardem ou mecanismos criados no mesmo sentido para iludir e ludibriar as leis e organismos reguladores que já existiam de antemão. E, por fim, a Fraternidade. Podia dizer-lhe muito sobre a Fraternidade, mas definirei, em suma, e sem pudor, que esta Fraternidade alude á Fraternidade entre ladrões, á aliança tática e permanente entre homens de poder que são tidos e desprezados como ladrões quando, tudo o que fazem, é garantir a continuidade da República e das organizações políticas essenciais para a sobrevivência dos países e dos Estados.
   - Entendi, e partilho plenamente desse ideal político, mas tenho apenas uma dúvida.
   - Qual?
   - Se nós, como Republicanos Darwinistas, fortalecemos os Estados e trabalhamos para a sua manutenção, isso não será viciar um pouco os mecanismos espontâneos da seleção natural?
   Nova pausa. O Político Experiente Inspirado parece desinspirado por instantes, mas logo retoma a compostura.
  - A sua dúvida é pertinente, e só demonstra a sua inteligência; mas todos temos de fazer pequenas concessões á lógica e á ética, porque ninguém consegue ser, a um tempo, timoneiro e escravo das galés.


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