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A mostrar mensagens de Agosto, 2013

O sopro

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- Não guardes tudo dentro de ti, atira cá para fora, desabafa, sopra!
(Aconselhava a visita ao seu lado, uma velha senhora, sentada na beira da cama do hospital. Mas ela resistiu. Já não sabia como fazê-lo).
- A dor e a angústia fazem ninho em nós, enrolam-se dentro do nosso peito e não nos deixam respirar! Sentes o aperto? São os nós não-desatados das palavras, tudo o que podias e devias ter deitado cá para fora e guardaste, só para te sufocar.
(Hesitou. Agora, aquilo fazia sentido e parecia-lhe acertado. Reuniu todas as réstias de força em si e soprou, com muita força).
(Foi o seu úl-ti-mo sopro).

(A visita retirou-se então, leve como um suspiro).

BD

O desenhador improvável vivia desenhando balões de conversa no ar, entre as pessoas. Mas eles continuavam cheios de silêncios.
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) August 30, 2013

Sem sentidos

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A primeira coisa insólita que os seus sentidos capturaram nesse fim de tarde abrasador, foi o cheiro intenso do almíscar a encher-lhe as narinas, libertado, ao que parecia, pelo petróleo que corria na calha para o tanque-reservatório da refinaria. Aproximou a ponta dos seus dedos e tocou ao de leve no líquido escuro, mas sentiu-se desiludido, era apenas petróleo, espesso e viscoso como qualquer petróleo. Em seguida, o que foi consentido aos seus sentidos, foi admirar as flores que corriam à superfície do líquido, solitárias ou atadas em colares, como aquelas que já admirara mais a norte, nas festividades do Ganges. Sacudiu a cabeça, a tentar dissipar os efeitos do calor e do Sol, e procurou sair rapidamente dali, mas as vozes que o chamavam do interior do tanque – Shiva? Kali? -  ataram-no àquele lugar como uma corda de muitas voltas.

Rito

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(desenho de Eduardo Salavisa, retirado do seu blogue, o excelente Diário Gráfico)
   Apanhou a mulher na estação de comboios no caminho de regresso a casa. Ainda ela não tinha aberto a porta do carro e já estava a resmungar, ou a narrar com resmungos como fora o seu dia - o trabalho, as chatices, os miúdos que não se calam na sala de aula, a conversa fiada da diretora, os cheiros do comboio, as notícias, a antipatia de todos. Narrava tudo com os inúmeros recursos e subtilezas da sua vitimice extremada. Ele ouvia, parcialmente, e concordava, tentando prestar atenção á estrada. O trajeto até casa durava perto de três quartos de hora, quase tanto tempo como o monólogo da esposa.    Chegou a casa e arrumou o carro, e com a mulher segura ao seu braço e ainda, e sempre, a falar, abriu a porta de casa e entraram. A mulher correu a refugiar-se no wc. do quarto para se mimar com um banho retemperador, e ele ficou plantado no vestíbulo. Com as chaves de casa presas na transpirada palma da mão,…
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Um Decálogo (de nove) sobre o estudo de mistérios: (Um apontamento)
               Introdução:                Os mistérios (da história, da ciência, e outros) prosperam porque são uma forma diluída de religiosidade, com as mesmas virtudes e vícios de qualquer forma de religiosidade: a preferência por certezas espontâneas e iluminadas que nos inundam a mente de neurotransmissores com efeitos agradáveis e recompensadores; a verdade como caraterística restrita a um grupo ou comunidade, concordância cega, negação da crítica, clivagem e maniqueísmo (eu, nós, sabemos a verdade, os outros nadam em erro e possuem dois cornichos na testa e uma língua bifurcada), substituição do debate pela certeza alojada nos nós dos dedos, etc.                Em virtude disto, e como um curioso que já viu e leu muita coisa nestes domínios, alinhei as notas que se seguem, tiradas de uma pauta muito caótica.
1 – Uma pessoa pode interrogar-se ou interessar-se por um mistério sem ser um historiador, um cientista…
Porque é que juntamos as mãos quando oramos? Porque, antes de estarem unidas diante de nós, elas varreram o mundo sem encontrar Deus!
— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) August 24, 2013

O que poderíamos fazer com três milhões de nadas?

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Caminhar na Lua, atravessar portas no ar, abraçar alguma nuvem mais jovem e dócil, dizer o indizível, escrever o verso impossível, atar palavras ao cais da memória com correntes de ar, navegar entre o ontem e a eternidade numa casca de nós, profetizar o que já sucedeu com um riso sem siso, e convidar o amor para a nossa casa e fazer-lhe a Kama.    Com três milhões de nadas,    é seguro,     que continuaríamos a sonhar.

ABCDário - T de Tenebrário

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Do outro lado do mundo havia luz, muita luz, com o Sol a derramar-se pelo espaço como uma lagoa de lava a escorrer em espiral para uma cova próxima; mas ali, só a face da Lua brilhava a intervalos breves como se alumiada por explosões prateadas. No solo, tudo estava ás escuras, apagado, as luzes elétricas, os pirilampos e os peixes das profundezas, e o brilho dos olhos no rosto das pessoas mortas. Na igreja posta a céu aberto pela tremura da Terra, o Tenebrário ainda manteve as velas acesas por algum tempo naquela noite de Sexta-Feira Santa, antes de se apagar como o mundo enquanto o planeta, com as suas montanhas e os seus sonhos, deslizava com a Lua para o Buraco Negro que se abria junto a si como uma porta de trevas.

Mar-morto

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Dez horas da manhã (de uma manhã enevoada de Quarta-Feira). Hora de abrir o expediente, de bulir, de picar o cartão. As lojas, escritórios e repartições abrem as portas, algum empregado mais tarimbado aspira com força o resto do fumo do seu cigarro antes de entrar. Uma jovem muito maquilhada varre a entrada de uma butique; mais abaixo, a dona de um quiosque pagina os jornais do dia alinhados no expositor.    Décio Júnio aguarda ainda uns momentos. Não gosta de entrar numa loja enquanto a caixeira ainda arruma os dinheiros na caixa ou os marçanos dão um toque nos artigos expostos e abrem os estores de fitas. Por fim, tira o boné cinza e entra na loja de alfaias agrícolas com humildade e receio. Abana a cabeça perante o olhar inquiridor dum marçano, e num relance, encontra quem procura, uma caixeira que folheia umas guias de remessa no cubículo de pagamento. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, apesar dos anos que haviam escorrido como areia desde a última vez que o vira. Ap…

O curso

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Encontrava-se de férias. Pôs de parte a preguiça, as cervejas entesouradas no frio, as sornas na praia ou na cama de rede de jardim, e decidiu fazer algo de útil e proveitoso com as férias, servir-se delas para se tornar uma pessoa melhor e mais rica. Como era um pouco avesso a leituras, optou por tirar um curso de línguas. Contatou uma empresa de ensino de línguas cujo anúncio comercial online estava sempre a pop-upar no seu site favorito de pornografia, e subscreveu um Curso Completo de Silêncio, que compreendia sete DVDs com aulas, e um CD-ROM interativo para conversar com o professor. Quando finalizasse o curso, e com vista a obter o diploma, teria de prestar uma prova escrita, acrescida de um exame oral através do sistema de videoconferência.    Entusiasmado, embrenhou-se com uma vontade enérgica no bosque intricado de vocábulos e verbos do Curso de Silêncio. Quanto mais estudava e repetia as palavras, mais à-vontade se sentia com a língua, e as dificuldades só aumentaram qua…

Paciência

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(Imagem: Shannon Marie)
   É preciso paciência. Para carregar com tudo o que os outros veem em nós, o que está fortuitamente próximo da verdade e o que é uma fraude ignóbil que os outros segregaram rebuçada em pus, tolerada por nós como se fosse algum bálsamo.     É preciso paciência, para defender a paz que nos roubam, os sonhos saqueados, a nossa vontade espezinhada.     É preciso paciência para viver, dia após dia, a merda de vida que nos consentiram – minguada, violada, estropiada e escarnecida.     E esperam de nós que sejamos pacientes, que saibamos esperar pelo que nunca virá, e que valorizemos e veneremos a sacrossanta paciência.     Porque esperam das ruínas, que saibam envelhecer com graça.
   Cuspo nisso!

ABCDário - U de Unívoco

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Rosmaninhal, foi sempre uma aldeia pequena, um núcleo de casas de granito e tijolo, emberçado no fundo dum vale entre encostas com choupos, hortas e cercados. Um quinto das casas ainda é ocupada, e as restantes estão abandonadas, porque os donos partiram em busca do sonho distante e traiçoeiro. Em Rosmaninhal, o futuro não é animador e vive-se devagar. Pelo correr das coisas, pareceria que a aldeia continuaria a despovoar-se até não restar ninguém nas casas de granito. Mas tudo começou a mudar quando chegou á aldeia um homem que era órfão, não tinha pai nem mãe, e pediu ás pessoas se podia ocupar uma das casas devolutas da aldeia. As pessoas concordaram, satisfeitas por haver uma cara nova na terra. Depois desse, vieram outros, homens e mulheres, todos órfãos de pai e mãe. Via-se que vinham a convite ou incitamento do primeiro órfão que lá chegara. Os habitantes de Rosmaninhal receberam-nos bem, cederam-lhes as casas desabitadas, trabalharam para tornar essas casas habitáveis, e o…

Aviso á navegação

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- O que somos nós? – perguntava o Jovem com Aspirações Políticas ao Político Experiente Inspirado.    - Nós – e respirou fundo para intercalar a pausa significativa que os mestres usam antes de cada ensinamento basilar – nós somos Republicanos Darwinistas.    - E o que é isso? – voltou á carga o jovem, receando perder alguma migalha, algum fio solto de sabedoria.    - Acreditamos no valor da República tanto quanto acreditamos na verdade darwinista do domínio do mais forte e da sua preponderância na seleção natural, das espécies e dos indivíduos dentro de cada espécie. Isso conduziu-nos a enriquecer os três direitos fundamentais da Revolução Francesa, que são…?    - A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.    - Muito bem! Mas esse lema, visto duma perspetiva mais atual e ponderada, leva-nos ao seguinte: Liberdade, para espoliar os mais fracos, aqueles que perderam na batalha da sobrevivência e que são, garantidamente, os menos aptos para conduzir, governar ou decidir. Igualdade, …

A razão dos sem-razão

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(Arte de Gustavo Costa)

- Hoje é Dia da Liberdade! - afirmou o pobre, de cócoras no jardim do sanatório.
- Dia da Liberdade? - estranhou o enfermeiro - costuma ser em Abril, mas tu lá sabes, Toninho. E agora, o que é que fazemos no Dia da Liberdade?
- Temos de a encontrar! - retrucou ele, a  esgravatar na terra com as mãos nuas.


Juras de amor

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- Vou amar-te até ao fim dos meus dias, até ao último sopro de vida dentro de mim! - jurou
- Ãhn!...Eu também, decerto...
- Mas não te ouvi dizê-lo, aliás, não tenho muita certeza disso, eu bem vi como olhavas para o rabo da hospedeira. Se calhar, nunca me amaste e não é agora que vais começar, logo agora, que o nosso avião mergulha a pique e temos poucos segundos de vida.
- Amor! - defendeu-se ela - como é que preferes acabar a tua vida, acreditando que te amo, ou consumido por dúvidas inúteis?

férias

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- Quero férias! – reclamava o velho Tibório, de braços cruzados a esfregar os cotovelos, como se o clamor dos seus ossos reforçasse a sua causa – ando muito cansado e cheio de dores nos ossos, tenho direito ás férias e preciso de as ter… - adiantou, pausando as palavras para ser bem entendido.    O autarca encolheu os ombros.    - Ó Tibório… não poderia pensar melhor no assunto? Estamos em Agosto, e eu não tenho mais ninguém. Você sabe como as coisas são, com o calor e tudo o mais…    Mas Tibório mostrou-se inflexível e lá teve as férias. Ansiadas e merecidas. Gozou-as em pleno, os filhos que tinham vindo de férias de França enchiam a sua casa e fez tudo com eles, foi aos arraiais e ás touradas, percorreu todas as capelinhas das adegas dos amigos, torrou deitado na areia da praia enquanto adultos e pirralhos riam ou se agitavam á sua volta, enfumarou-se com os churrascos e as fornadas de pão e pão com chouriço ou torresmos.
   Quando as férias terminaram, voltou ao trabalho, cient…