INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

O sopro


- Não guardes tudo dentro de ti, atira cá para fora, desabafa, sopra!

(Aconselhava a visita ao seu lado, uma velha senhora, sentada na beira da cama do hospital. Mas ela resistiu. Já não sabia como fazê-lo).

- A dor e a angústia fazem ninho em nós, enrolam-se dentro do nosso peito e não nos deixam respirar! Sentes o aperto? São os nós não-desatados das palavras, tudo o que podias e devias ter deitado cá para fora e guardaste, só para te sufocar.

(Hesitou. Agora, aquilo fazia sentido e parecia-lhe acertado. Reuniu todas as réstias de força em si e soprou, com muita força).

(Foi o seu úl-ti-mo sopro).


(A visita retirou-se então, leve como um suspiro).

BD

Sem sentidos


    A primeira coisa insólita que os seus sentidos capturaram nesse fim de tarde abrasador, foi o cheiro intenso do almíscar a encher-lhe as narinas, libertado, ao que parecia, pelo petróleo que corria na calha para o tanque-reservatório da refinaria. Aproximou a ponta dos seus dedos e tocou ao de leve no líquido escuro, mas sentiu-se desiludido, era apenas petróleo, espesso e viscoso como qualquer petróleo. Em seguida, o que foi consentido aos seus sentidos, foi admirar as flores que corriam à superfície do líquido, solitárias ou atadas em colares, como aquelas que já admirara mais a norte, nas festividades do Ganges. Sacudiu a cabeça, a tentar dissipar os efeitos do calor e do Sol, e procurou sair rapidamente dali, mas as vozes que o chamavam do interior do tanque – Shiva? Kali? -  ataram-no àquele lugar como uma corda de muitas voltas.

Rito

(desenho de Eduardo Salavisa, retirado do seu blogue, o excelente Diário Gráfico)

   Apanhou a mulher na estação de comboios no caminho de regresso a casa. Ainda ela não tinha aberto a porta do carro e já estava a resmungar, ou a narrar com resmungos como fora o seu dia - o trabalho, as chatices, os miúdos que não se calam na sala de aula, a conversa fiada da diretora, os cheiros do comboio, as notícias, a antipatia de todos. Narrava tudo com os inúmeros recursos e subtilezas da sua vitimice extremada. Ele ouvia, parcialmente, e concordava, tentando prestar atenção á estrada. O trajeto até casa durava perto de três quartos de hora, quase tanto tempo como o monólogo da esposa.
   Chegou a casa e arrumou o carro, e com a mulher segura ao seu braço e ainda, e sempre, a falar, abriu a porta de casa e entraram. A mulher correu a refugiar-se no wc. do quarto para se mimar com um banho retemperador, e ele ficou plantado no vestíbulo. Com as chaves de casa presas na transpirada palma da mão, notou o brilho bruxuleante duma vela acesa na penumbra do corredor. Já sabia do que se tratava, porque todos os dias se repetia a mesma cena. Uma vela acesa dentro dum copo no chão do corredor, a primeira de dez que se sucediam até á espaçosa sala de estar. Seguiu o trilho luminoso até lá. Em cima da mesa da cozinha, e iluminada apenas por um dos focos do candeeiro de teto, estava um copo de uísque ao lado dum revólver, o seu revólver, aquele que guardava habitualmente na cómoda do quarto. Alargou o nó da gravata e bebeu um pouco de uísque. O revólver estava pronto a usar, carregado e destravado. Ainda não percebera em quem é que deveria disparar o revólver, se na esposa ou em si mesmo, mas não queria perguntar, aborrecer-se com isso.
   - Ainda não será hoje! – pronunciou de forma audível, guardando a arma no bolso do casaco depois de a travar.
   A filha adolescente, sentada no degrau cimeiro da escada que conduzia ao piso superior, levantou-se e esfumou-se na obscuridade como uma sombra. Imaginou que ela deveria ostentar uma expressão de amuo.


Um Decálogo (de nove) sobre o estudo de mistérios:
(Um apontamento)

               Introdução:
               Os mistérios (da história, da ciência, e outros) prosperam porque são uma forma diluída de religiosidade, com as mesmas virtudes e vícios de qualquer forma de religiosidade: a preferência por certezas espontâneas e iluminadas que nos inundam a mente de neurotransmissores com efeitos agradáveis e recompensadores; a verdade como caraterística restrita a um grupo ou comunidade, concordância cega, negação da crítica, clivagem e maniqueísmo (eu, nós, sabemos a verdade, os outros nadam em erro e possuem dois cornichos na testa e uma língua bifurcada), substituição do debate pela certeza alojada nos nós dos dedos, etc.
               Em virtude disto, e como um curioso que já viu e leu muita coisa nestes domínios, alinhei as notas que se seguem, tiradas de uma pauta muito caótica.

1 – Uma pessoa pode interrogar-se ou interessar-se por um mistério sem ser um historiador, um cientista ou um físico, mas será um interesse inconsequente e supérfluo se não possuir uma consciência crítica, e um espírito exigente e rigoroso – abreviando, se não possuir uma atitude científica.

2- É necessário separar as águas.
               É comum, o objeto de estudo não estar isolado, mas sim, unido, cooptado, a outras questões e mistérios; e não se consegue fazer uma abordagem clara se não for feita a demarcação do que se pretende estudar ou investigar. Se alguém fala, por exemplo, de ruínas submersas no Atlântico, falará também, eventualmente, do Triângulo das Bermudas, das crenças dos Teósofos, dos deuses astronautas, ou dos problemas de asma do Holandês Voador. Ou, se falar de Nostradamus, eventualmente, vai invocar uma dezena de profecias antigas e modernas, e meter ao barulho muitas histórias e personagens diferentes e incluir algumas fraudes que já foram descobertas e expostas.
               É mister pois, eleger o tema, e ter sempre um ponto de fuga, um horizonte definido para o qual os factos e indícios apurados possam convergir.

3 – Consequência da nota anterior: ter uma noção do que é mistério, objeto de estudo, e do que é ficção e fantasia, que amiúde envolve o mistério e o contamina. Esta promiscuidade resulta muitas vezes de uma leitura apressada do que já se escreveu sobre um determinado assunto. Se um autor (A) narrar algum tipo de fenómenos luminosos estranhos numa dada região que acompanharam a queda de um pequeno asteroide, e outro autor (B) colocar a hipótese de que isso se deveu ao choque na atmosfera entre o asteroide e uma aeronave de um tipo qualquer, é muito provável que um terceiro autor (C), venha fundir as duas narrações, dizendo que nessa dita região e na data definida (e aí expiram os factos) um asteroide caiu na terra depois de ter colidido com um avião, provocando fenómenos luminosos estranhos, que se explicam pela explosão deste e pelo combustível a arder. A partir daí, é esta terceira versão que oferece mais probabilidades de se tornar a versão “original” para os que chegarem depois ao tema, porque é a mais fantástica e excitante e, logo, aquela que terá uma vida mais longa.
               Estas confusões são particularmente frequentes quando se aborda algum mistério relacionado com a biografia dalgum personagem histórico, porque as biografias escritas são muitas vezes, um somatório de factos e ficção, e biógrafos há que colmatam as lacunas, inventando para recreio do leitor o que poderia ter sucedido em períodos de tempo para os quais não possui qualquer dado ou relato. O grande problema, é que esses biógrafos se esquecem frequentemente de avisar os leigos que os seus livros encerram ficção.

4 – Como em qualquer estudo, possuir a humildade e a honestidade para assumir os erros cometidos e refazer as opiniões já alicerçadas, por muito que isso traga frustração e desalento.

5 – Ir sempre ás fontes. Máxima da História que é válida para qualquer estudo sobre enigmas. Dá trabalho, mas é a única forma de nos aproximarmos da verdade; rebuscar uma atrás da outra, a fonte anterior, a versão mais pura e menos manipulada da verdade. Há que atravessar com paciência o caudal de erros, disparates, más traduções e opiniões ignorantes que nos separam do que queremos estudar, analisar, inquirir. Por vezes, a deformação é involuntária, inocente, uma opinião apressada, uma análise descuidada, mas em muitas outras, os investigadores contribuem para as fraudes de forma intencional, por teimosia ou mera ganância (os best-sellers podem render muito dinheiro).
               Dou um exemplo.
               Quando Henri Lhote estudou as pinturas rupestres nos rochedos do Saara, havia entre elas, muitas que representavam seres estranhos, mágicos, talvez entrevistos no transe de cerimónias religiosas com uso de alucinogénios. A uma delas, um ser gigantesco com duas antenas na cabeça e de cor avermelhada, Lhote batizou com o nome de “Grande deus Marte”, pela imponência da figura e pela cor, que é a mesma do planeta. Como seria de esperar, em todos os livros sobre Deuses Astronautas (ou visitantes do espaço nos tempos históricos e pré-históricos), a fotografia reaparece e lembra-se repetidamente que Lhote a batizou de o “Grande Deus Marciano”. Uma pequena e significativa diferença.

6 – Como em qualquer dissertação ou estudo, não se deve atravessar o riacho a nado, mas saltar de pedra em pedra, com segurança. Ou seja, o estudo tem de ser uma progressão verificada de passos e estádios, que podem ser repetidos por qualquer pessoa, e realizados em sentido inverso, se necessário for. Em nenhum dos passos, pode haver uma conclusão saída do nada, ex machina, uma peça exógena que se obriga a encaixar no puzzle ao qual não pertence.
               Novo exemplo: Na década de sessenta e setenta, o investigador francês Robert Charroux (m. em 1978) escreveu uma série de livros que ainda hoje são reeditados e fazem os editores auferirem importantes somas de dinheiro. Charroux atingiu uma notoriedade extraordinária como investigador, com pessoas que lhe escreviam de todo o mundo para lhe confiarem as suas teorias e suspeitas e sendo auxiliado por “mestres” anónimos cujos ensinamentos ainda hoje nos intrigam. Mas Charroux tinha alguns temas redundantes como o celticismo (via celtas e obras célticas em todo o lado), ou a teoria de Velikovsky sobre a colisão dos mundos, que defendia, entre outras coisas, que o planeta Vénus nem sempre estivera no nosso sistema solar e que cá chegou em tempos proto-históricos, há cerca de cinco mil anos. Charroux abraçou esta teoria com convicção, e foi um dos percursores da teoria dos Deuses Astronautas. Se Vénus nos chegou há cinco ou seis mil anos, e foram essas as datas em que nasceram as grandes civilizações, então, os dois factos estavam interligados, e tinham sido os venusinos a instruir-nos nas coisas importantes da cultura. A espiral de argumentos nascidos do nada atingiu uma tal proporção que, nos seus livros, a cor verde está associada aos venusinos e aos Antepassados Superiores, e constitui, per si, um indício importante. Uma estátua de jade, ou um artefacto em serpentina, porque tinham cor verde, tornavam-se passíveis de serem interpretados como um objeto de culto ou uma oferenda aos civilizadores vindos do planeta Vénus, e os Olmecas e Maias da América Central ficavam no mesmo barco que as civilizações antigas do Extremo Oriente, porque os seus artífices tiveram o infortúnio de possuírem uma predileção idêntica por pedras de cor verde.

7 - Desconfiar das soluções ou respostas fáceis. Por natureza, o ser humano cede facilmente á preguiça, e colhe os frutos que estão mais á mão em vez de ambicionar os outros que o obrigam a esforçar-se mais e ascender na árvore em busca deles. As soluções fáceis são, quase sempre simplistas, contornou-se a complexidade dos assuntos, queimou-se etapas do percurso para que elas estivessem mais perto de nós, ainda que estejam repletas de erros.

8 –Noção (apenas) aparentemente contraditória com a anterior.
               Não complicar desnecessariamente as questões, criando afluentes e ramificações que não pertencem ao que se está a estudar; para evitar criar vazios e rodeios que enevoam o tal ponto de fuga de que falávamos antes, e as formas de o alcançarmos.

9 – Ser ambicioso e ter uma visão mais dilatada.
               O que pretendo referir com isto, é que é muito comum procurar-se as respostas próximo ao enigma, repetindo interpretações imediatas que muitos já bosquejaram antes, e de forma consistente. Muitas vezes, as respostas só são alcançadas se a pessoa conseguir ter uma noção do contexto e das implicações do mistério, nem que, para tal, tenha de estudar matérias e temas que, numa primeira análise, nada teriam a ver com ele. Uma tese histórica ou arqueológica pode socorrer-se de campos de conhecimento tão variados como a astronomia, o estudo palinológico, a geologia e a genética; e não há motivos nenhuns para que, no estudo de qualquer mistério, não seja empregue a mesma diversidade de meios e processos para atingir a verdade que se procura e deseja.

O que poderíamos fazer com três milhões de nadas?


   Caminhar na Lua, atravessar portas no ar, abraçar alguma nuvem mais jovem e dócil, dizer o indizível, escrever o verso impossível, atar palavras ao cais da memória com correntes de ar, navegar entre o ontem e a eternidade numa casca de nós, profetizar o que já sucedeu com um riso sem siso, e convidar o amor para a nossa casa e fazer-lhe a Kama.
   Com três milhões de nadas,
   é seguro, 
   que continuaríamos a sonhar.

ABCDário - T de Tenebrário

                                 


    Do outro lado do mundo havia luz, muita luz, com o Sol a derramar-se pelo espaço como uma lagoa de lava a escorrer em espiral para uma cova próxima; mas ali, só a face da Lua brilhava a intervalos breves como se alumiada por explosões prateadas. No solo, tudo estava ás escuras, apagado, as luzes elétricas, os pirilampos e os peixes das profundezas, e o brilho dos olhos no rosto das pessoas mortas. Na igreja posta a céu aberto pela tremura da Terra, o Tenebrário ainda manteve as velas acesas por algum tempo naquela noite de Sexta-Feira Santa, antes de se apagar como o mundo enquanto o planeta, com as suas montanhas e os seus sonhos, deslizava com a Lua para o Buraco Negro que se abria junto a si como uma porta de trevas.

Mar-morto


   Dez horas da manhã (de uma manhã enevoada de Quarta-Feira). Hora de abrir o expediente, de bulir, de picar o cartão. As lojas, escritórios e repartições abrem as portas, algum empregado mais tarimbado aspira com força o resto do fumo do seu cigarro antes de entrar. Uma jovem muito maquilhada varre a entrada de uma butique; mais abaixo, a dona de um quiosque pagina os jornais do dia alinhados no expositor.
   Décio Júnio aguarda ainda uns momentos. Não gosta de entrar numa loja enquanto a caixeira ainda arruma os dinheiros na caixa ou os marçanos dão um toque nos artigos expostos e abrem os estores de fitas. Por fim, tira o boné cinza e entra na loja de alfaias agrícolas com humildade e receio. Abana a cabeça perante o olhar inquiridor dum marçano, e num relance, encontra quem procura, uma caixeira que folheia umas guias de remessa no cubículo de pagamento. Reconheceria aquele rosto em qualquer lugar, apesar dos anos que haviam escorrido como areia desde a última vez que o vira. Aproxima-se e ela mostra-se surpreendida por ver um cliente aos primeiros momentos de abertura da loja.
   - Graça? – Pergunta, sabendo de antemão a resposta.
   - Sim, em que posso ser-lhe útil?
   - Talvez não te recordes de mim, sou o Décio. Namoriscamos no liceu, numa altura muito complicada para ti, quando tinhas muitos problemas na família por causa do teu pai e do teu irmão.
   - Sim, tenho uma vaga ideia…
   - Houve uma noite em que saímos, no dia em que prenderam o teu irmão…
   - Sim, sim, mas peço-lhe que seja breve. Estou a trabalhar, e podem não aceitar muito bem que eu fique por aqui a cavaquear.
   - Termino em minutos! Nessa noite, tu…você chorou, e jurou que seria a última vez que chorava. Também foi a última vez que estivemos juntos.
   - E?
   - Eu guardei-lhe e trouxe para lhe entregar, a última lágrima que choraste nessa noite.
   Diante da sua incredulidade, ele abriu a palma da sua mão e expôs um pequeno pingente brilhante, que ela recebeu nas suas mãos entreabertas. E logo estremeceu, porque imaginara que fosse mole e fluido como uma gota de resina e era, no entanto, semelhante a um pequeno cristal liso e arredondado.
   - Sabia que te faria falta, faz falta a qualquer pessoa. Agora, já podes chorar…
   Mal disse isso, rodou sobre os calcanhares e dirigiu-se á porta de saída da loja. Não olhou para trás, tentou não olhar, como Lot. Atrás de si, permanecia o passado, Graça, e o sal das lágrimas.


O curso



   Encontrava-se de férias. Pôs de parte a preguiça, as cervejas entesouradas no frio, as sornas na praia ou na cama de rede de jardim, e decidiu fazer algo de útil e proveitoso com as férias, servir-se delas para se tornar uma pessoa melhor e mais rica. Como era um pouco avesso a leituras, optou por tirar um curso de línguas. Contatou uma empresa de ensino de línguas cujo anúncio comercial online estava sempre a pop-upar no seu site favorito de pornografia, e subscreveu um Curso Completo de Silêncio, que compreendia sete DVDs com aulas, e um CD-ROM interativo para conversar com o professor. Quando finalizasse o curso, e com vista a obter o diploma, teria de prestar uma prova escrita, acrescida de um exame oral através do sistema de videoconferência.
   Entusiasmado, embrenhou-se com uma vontade enérgica no bosque intricado de vocábulos e verbos do Curso de Silêncio. Quanto mais estudava e repetia as palavras, mais à-vontade se sentia com a língua, e as dificuldades só aumentaram quando iniciou o estádio de conversação básica. Eram coisas muito diferentes conhecer as palavras isoladamente e empregá-las para estruturar, e de forma correta, uma frase, por mais simples que fosse. A redação em Silêncio também foi um pouco difícil, mas aí, ao contrário da conversação imediata, tinha mais algum tempo para refletir sobre o que iria escrever e como, de forma que podia elaborar os textos com menos pressão sobre si.
   O tempo que levou para concluir o Curso Completo de Silêncio foi quase á justa para o tempo de férias que ainda lhe restava. Quando chegou o ansiado e temido final de curso, prestou a prova escrita e, no dia acordado, sentou-se diante da webcam para a prova oral. Estava muito nervoso, e sentiu que esse nervosismo lhe estava a afetar a prova enquanto era entrevistado pelos examinadores.
   Dois dias depois, recebeu um email com as (más) notícias que já esperava. Teria que repetir a parte final do Curso Completo de Silêncio e fazer novos exames. A apreciação que lhe era feita, é que tivera valores medianos e suficientes na prova escrita, mas o que levara á sua reprovação fora a pronúncia sofrível que demonstrara na prova oral.

Paciência

(Imagem: Shannon Marie)

   É preciso paciência. Para carregar com tudo o que os outros veem em nós, o que está fortuitamente próximo da verdade e o que é uma fraude ignóbil que os outros segregaram rebuçada em pus, tolerada por nós como se fosse algum bálsamo. 
   É preciso paciência, para defender a paz que nos roubam, os sonhos saqueados, a nossa vontade espezinhada. 
   É preciso paciência para viver, dia após dia, a merda de vida que nos consentiram – minguada, violada, estropiada e escarnecida. 
   E esperam de nós que sejamos pacientes, que saibamos esperar pelo que nunca virá, e que valorizemos e veneremos a sacrossanta paciência. 
   Porque esperam das ruínas, que saibam envelhecer com graça.

   Cuspo nisso!

ABCDário - U de Unívoco


   Rosmaninhal, foi sempre uma aldeia pequena, um núcleo de casas de granito e tijolo, emberçado no fundo dum vale entre encostas com choupos, hortas e cercados. Um quinto das casas ainda é ocupada, e as restantes estão abandonadas, porque os donos partiram em busca do sonho distante e traiçoeiro. Em Rosmaninhal, o futuro não é animador e vive-se devagar. Pelo correr das coisas, pareceria que a aldeia continuaria a despovoar-se até não restar ninguém nas casas de granito. Mas tudo começou a mudar quando chegou á aldeia um homem que era órfão, não tinha pai nem mãe, e pediu ás pessoas se podia ocupar uma das casas devolutas da aldeia. As pessoas concordaram, satisfeitas por haver uma cara nova na terra. Depois desse, vieram outros, homens e mulheres, todos órfãos de pai e mãe. Via-se que vinham a convite ou incitamento do primeiro órfão que lá chegara. Os habitantes de Rosmaninhal receberam-nos bem, cederam-lhes as casas desabitadas, trabalharam para tornar essas casas habitáveis, e ofereciam-lhes as primícias das hortas e pomares para lhes mostrar como a sua chegada era agradável para eles. Como resultado de tudo isto, a população de Rosmaninhal aumentou, e os órfãos recém-chegados instalaram-se nas casas antigas, quatro e seis em cada uma, e depressa estavam integrados na comunidade. Eram amistosos e muito conversadores, e todos gostavam deles. É certo, que não fizeram grande coisa para retribuir a generosa hospitalidade dos habitantes de Rosmaninhal, mas ninguém os levava a mal por isso, porque os órfãos não tinham muita saúde, e a idade muito avançada de todos eles não permitia que auxiliassem no pastoreio ou no duro trabalho dos campos.


Aviso á navegação


   - O que somos nós? – perguntava o Jovem com Aspirações Políticas ao Político Experiente Inspirado.
   - Nós – e respirou fundo para intercalar a pausa significativa que os mestres usam antes de cada ensinamento basilar – nós somos Republicanos Darwinistas.
   - E o que é isso? – voltou á carga o jovem, receando perder alguma migalha, algum fio solto de sabedoria.
   - Acreditamos no valor da República tanto quanto acreditamos na verdade darwinista do domínio do mais forte e da sua preponderância na seleção natural, das espécies e dos indivíduos dentro de cada espécie. Isso conduziu-nos a enriquecer os três direitos fundamentais da Revolução Francesa, que são…?
   - A Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.
   - Muito bem! Mas esse lema, visto duma perspetiva mais atual e ponderada, leva-nos ao seguinte: Liberdade, para espoliar os mais fracos, aqueles que perderam na batalha da sobrevivência e que são, garantidamente, os menos aptos para conduzir, governar ou decidir. Igualdade, entre os mais fortes, o que significa poder, poder económico ou político mas, sobretudo, o poder puro, o único capaz de criar leis que nos salvaguardem ou mecanismos criados no mesmo sentido para iludir e ludibriar as leis e organismos reguladores que já existiam de antemão. E, por fim, a Fraternidade. Podia dizer-lhe muito sobre a Fraternidade, mas definirei, em suma, e sem pudor, que esta Fraternidade alude á Fraternidade entre ladrões, á aliança tática e permanente entre homens de poder que são tidos e desprezados como ladrões quando, tudo o que fazem, é garantir a continuidade da República e das organizações políticas essenciais para a sobrevivência dos países e dos Estados.
   - Entendi, e partilho plenamente desse ideal político, mas tenho apenas uma dúvida.
   - Qual?
   - Se nós, como Republicanos Darwinistas, fortalecemos os Estados e trabalhamos para a sua manutenção, isso não será viciar um pouco os mecanismos espontâneos da seleção natural?
   Nova pausa. O Político Experiente Inspirado parece desinspirado por instantes, mas logo retoma a compostura.
  - A sua dúvida é pertinente, e só demonstra a sua inteligência; mas todos temos de fazer pequenas concessões á lógica e á ética, porque ninguém consegue ser, a um tempo, timoneiro e escravo das galés.


A razão dos sem-razão

(Arte de Gustavo Costa)


- Hoje é Dia da Liberdade! - afirmou o pobre, de cócoras no jardim do sanatório.
- Dia da Liberdade? - estranhou o enfermeiro - costuma ser em Abril, mas tu lá sabes, Toninho. E agora, o que é que fazemos no Dia da Liberdade?
- Temos de a encontrar! - retrucou ele, a  esgravatar na terra com as mãos nuas.


Juras de amor


- Vou amar-te até ao fim dos meus dias, até ao último sopro de vida dentro de mim! - jurou
- Ãhn!...Eu também, decerto...
- Mas não te ouvi dizê-lo, aliás, não tenho muita certeza disso, eu bem vi como olhavas para o rabo da hospedeira. Se calhar, nunca me amaste e não é agora que vais começar, logo agora, que o nosso avião mergulha a pique e temos poucos segundos de vida.
- Amor! - defendeu-se ela - como é que preferes acabar a tua vida, acreditando que te amo, ou consumido por dúvidas inúteis?

férias


   - Quero férias! – reclamava o velho Tibório, de braços cruzados a esfregar os cotovelos, como se o clamor dos seus ossos reforçasse a sua causa – ando muito cansado e cheio de dores nos ossos, tenho direito ás férias e preciso de as ter… - adiantou, pausando as palavras para ser bem entendido.
   O autarca encolheu os ombros.
   - Ó Tibório… não poderia pensar melhor no assunto? Estamos em Agosto, e eu não tenho mais ninguém. Você sabe como as coisas são, com o calor e tudo o mais…
   Mas Tibório mostrou-se inflexível e lá teve as férias. Ansiadas e merecidas. Gozou-as em pleno, os filhos que tinham vindo de férias de França enchiam a sua casa e fez tudo com eles, foi aos arraiais e ás touradas, percorreu todas as capelinhas das adegas dos amigos, torrou deitado na areia da praia enquanto adultos e pirralhos riam ou se agitavam á sua volta, enfumarou-se com os churrascos e as fornadas de pão e pão com chouriço ou torresmos.

   Quando as férias terminaram, voltou ao trabalho, ciente de que iria pagar bastante pelo descanso. E lá estavam eles á sua espera, os caixões, dez no total, pousados sobre barrotes de madeira de carvalho, com a cabeceira encostada á face interna do muro do cemitério. Estavam á torreira do Sol e pejados de moscas, mas Tibório era uma raposa velha e vinha preparado. Trouxera flores de alfazema que fixou entre o bigode grisalho e o nariz com um pedaço de cordel que atou na nuca. Subtraindo-se assim ao cheiro que empestava o local, muniu-se das suas ferramentas e começou a cavar a primeira das dez covas.

Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...