Um rito profano

   Segunda Terça-Feira de casa mês, é dia de cortar as unhas na casa. Tiram-se sortes para definir a escala de serviço e inicia-se o ofício. Todos, mas todos, descalços e com as calças arregaçadas (caso vistam calças ou calções. Caso contrário, tira-se o vinco ao cós da saia), enfiam os pés em alguidares com água quente para amolecer; e ás mãos, mergulham-nas  em tigelas de barro que desempenham a mesma função. Em geral, os adultos colaboram com mais boa vontade e as crianças resistem instintivamente ao rito, pelo que, além de se lhes amolecer as unhas com água a escaldar, amolece-se as suas vontades com calduços e tabefes distribuídos com parcimónia. Depois de quinze minutos com os pés em banho-maria, inicia-se o corte. Os dois familiares eleitos pelas sortes cortam as unhas aos restantes, começando pelas mãos, que é um corte mais delicado que requer utensílios mais simples e efeminados, e finalizando pelos pés que exigem um hardware de dimensões invulgares. Quando os dois cortadores sorteados cortam as unhas a todos os outros, cortam-nas por sua vez a si mesmos, enquanto os outros aplaudem em uníssono a cada estalar de unha, a cada tesourada sonora e a cada grito libertado por eles. Quando todos têm as unhas cortadas, é costume limá-las, raspando as unhas dos pés e das mãos contra as paredes de madeira da barraca da família; e, no fim, cumprida a função e concluído o trabalho, todos celebram juntos com uma dança familiar tradicional em que, dispostos em fila ao lado uns dos outros, dão saltos e afastam e juntam os braços e as pernas, simbolizando com essa coreografia o abrir e fechar da tesoura de poda que costumam usar para cortar as unhas dos pés.


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