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Outros dados, e cartas, no final da página

O reduto da sabedoria (uma estória em jeito de parábola social)

(imagem daqui)

               Mog, um jovem celtibero, foi instruído pelos anciãos sobre a origem do cosmos e do homem, e um deles, Ogden, conduziu-o ao coração dos bosques, onde o deixou sem qualquer arma e com a incumbência de capturar um veado de cauda listada, o animal mágico que lhe surgira em sonhos depois de ter mastigado as folhas do teixo. Mog, supera a prova, persegue e abate o veado, retira dele as orgulhosas armações e regressa a Segobriga, o povoado fortificado onde nascera e fora criado. Sente-se feliz, por já poder ser considerado um adulto, e porque Ogden lhe prometera que o continuaria a instruir no conhecimento e nos ritos sagrados até os anciãos o considerarem apto a suceder ao seu pai na liderança da tribo.
               A caminho de Segobriga, Mog entra num desfiladeiro tortuoso e enevoado que se assemelhava a um longo túnel helicoidal onde, por vezes, Mog tem a sensação de estar a pisar o chão e de estar simultaneamente suspenso sobre este. Quando sai do desfiladeiro, a sua surpresa não podia ser maior. O mundo que tem diante de si, não é o seu mundo. Desemboca no século XXI, e admira assustado as estradas com carros, os aviões no céu, e estranhas casas gigantescas. As pessoas são estranhas, vestem-se e comportam-se de forma estranha, e a língua que falam é completamente desconhecida. Quanto mais anda, maior se torna o seu espanto e o seu terror, que se agrava mais por ter perdido a noção de onde ficava, nessa paisagem insólita, o desfiladeiro de onde saíra. Mas Mog é um jovem guerreiro, ensinado pelos melhores sábios da sua tribo, e apercebe-se de que tem de encontrar a passagem de regresso para o seu mundo e para a sua amada Segogriba, e que só o pode conseguir se usar a astúcia e a inteligência.
               Mog finge-se mudo e continua a sua deambulação como um mendigo ou um vadio, e consoante os dias passam, começa a aprender a língua que esses estranhos falam e, não tarda, consegue que o ensinem a ler e a escrever. Empregando-se numa quinta, onde trabalha de Sol a Sol, reúne o dinheiro suficiente para comprar roupas novas e parecer cada vez menos um guerreiro celtibero; e, quando se sente confiante o suficiente, prossegue o plano que tinha em mente. Vai até á aldeia mais próxima para entrevistar os anciãos do lugar com o intuito de lhes perguntar sobre a melhor maneira de voltar ao seu mundo. Se havia respostas para essa questão, ela só poderia estar nas mãos dos anciãos.
               Estranhamente, na aldeia vizinha da quinta, não encontra nenhum ancião, apenas jovens e homens de meia-idade. Inquire sobre isso a um dos homens que encontra na rua direita da aldeia, e este indica-lhe uma casa enorme no exterior do povoado, próxima ao cemitério. Era uma Casa de Repouso, diz-lhe o interpelado e aí, ele poderia encontrar todos os velhos que precisasse.
               Com um frémito de esperança, Mog bate á porta e aparece-lhe uma mulher forte de bata comprida de cor azul-clara. Apesar da desconfiança alardeada pela mulher, Mog pede-lhe polidamente para falar com os anciãos que moram no lugar. Um pouco relutante, a mulher fá-lo entrar para uma sala minúscula onde os velhos estão acomodados em cadeiras de braços encostadas às paredes, uns a dormitar, outros a afugentar das feridas as moscas que zumbem em volta. Mog fica horrorizado, com o cheiro, o desleixo, o calor infernal da sala, mas, mesmo assim, pede aos presentes um minuto de atenção, e narra-lhes que veio de uma terra muito distante e veio cair naquele mundo por artes mágicas cuja natureza ou autoria era um autêntico mistério para ele; e termina o seu pequeno discurso, perguntando aos anciãos se algum deles o poderia ajudar a voltar ao mundo em que nascera.
               Um longo silêncio coroa as suas palavras, apenas interrompido pelo zumbir das moscas e pelos gritos que uma idosa liberta numa divisão contígua.
               A funcionária de bata azul-clara, põe a mão no seu ombro, e diz-lhe, condescendente:
               - Não espere por grandes respostas desta gente. A família deles, nós e eles próprios – todos estão só á espera que chegue a hora deles morrerem. É para isso que os deixam aqui...isto é apenas uma antecâmara da morte.


Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...