O carro de fuga


   O assalto foi preparado na hora pelos dois malfeitores. Mal preparado, quase espontâneo como um silvo de surpresa ou admiração. Havia duas fases no plano. Começando pelo fim, a segunda fase era chegar ao pé da Heloísa, a vendedora quarentona de frutos secos da praça; Abelardo estava apaixonado por ela, pelas suas faces coradas, pelo peito generoso e pernas gordas, e pelo baloiçar rodopiante e obsceno das suas bochechas quando mascava pastilha elástica. A primeira parte do plano, e foi aí que Abelardo pediu ajuda ao amigo Segismundo, a primeira parte, dizia, era roubar um punhado de margaridas da coroa de flores que a edilidade havia depositado aos pés da estátua da rainha D. Leonor. Abelardo roubava as flores, e entrava no carro de fuga conduzido por Segismundo, que os levaria até á praça da fruta, onde   Abelardo as entregaria a Heloísa, junto com uma improvisada declaração de amor.

   Ultimaram então os preparativos do assalto; com Abelardo a espiar a proximidade das pessoas á almejada coroa de flores, e Segismundo sentado dentro dum carro sinistrado sem rodas que fora deixado junto ao passeio, á entrada do parque D. Carlos I. Enquanto observava atentatamente as movimentações de Abelardo, Segismundo fingiu que rodava a chave na ignição e verificava o estado dos piscas, satisfeito por ter o caminho desimpedido para sair rapidamente dali.

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