ilusão

As pessoas olham e vêem-me, acenam, cumprimentam, permutam comigo saudações e banalidades ocas.
Mas eu não acredito nelas.
Não acredito na menina da bilheteira, no revisor do comboio, no porteiro do prédio, na telefonista do escritório, no velho de patilhas do quiosque de jornais que gosta de evocar o tempo em que matava turras em África. Nesses e em tantos outros. Gente da rua, da  Lua, do trabalho, da casa em que moro com a família, das divisões de casas e prédios em que pareço estar unido a estranhos por rotinas oblíquas e liames inconsistentes.
Não acredito nelas quando fingem que me vêem.
Eu sei que mentem, por condescendência. E conivência.
Fingem que eu estou ali, como fingem que viram uma coisa qualquer na televisão de que toda a gente fala, ou que ouviram aquele estampido do disparo quando o vizinho do quinto andar estoirou com os miolos.
Tenho a certeza absoluta de que mentem. Dispo a minha gabardina de Homem Invisível, e permaneço ao seu lado, no meio deles, a rir como um louco da sua cegueira e da sua hipocrisia.


Mensagens populares deste blogue

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue

A viagem