A guardiã

   A casa da anciã era enorme, um casarão austero da década de trinta, mas o seu aspeto não repugnava a quem passava na rua, porque parecia irradiar uma luz própria, fosse da refração da luz solar nos tanques de mármore azulado com plantas aquáticas, ou da paleta generosa das flores que medravam nos seus jardins – hibiscos, rosas, gazânias, pelargónios, agapantos, e tantas outras.
   Ainda assim, apesar de não sentirem receio ou repulsa pela anciã ou pela casa, era com muita timidez e dúvidas que as pessoas chegavam á sua porta, depois de tocarem o pequeno sino no portão de ferro junto á estrada. A anciã atendia-as e fazia-as entrar para o vestíbulo. Não lhes perguntava nada porque sabia ao que vinham. Todas vinham ter com ela para lhe pedir que lhes guardasse um segredo. Era esse, desde sempre, o seu ofício e a sua paixão. Entregavam á velha mulher um segredo, e ela encafuava-o numa das muitas divisões do casarão. Por vezes, era um segredo pequeno, toscamente embrulhado numa folha de papel pardo ou num lenço de cabelo, outras vezes, era maior e, envolto numa manta ou toalha, selado com cordas ou correntes de elos e, frequentemente, tão pesado que ela pedia a quem lho trazia para a ajudar a carregá-lo pelo meandro de corredores e escadas.
   Havia segredos sem importância que algumas pessoas tolas lhes traziam com frequência e em grande número, para os resgatarem de seguida enquanto lhe traziam mais segredos novos e fresquinhos; mas também segredos recônditos, como um esqueleto no fundo duma gruta, cujos proprietários os confiavam a desviar o olhar e procurando que ela não lhes fixasse as feições. Havia pequenos segredos que pesavam imenso, obrigando os seus donos a caminhar acorcovados como velhinhos; outros, ao contrário, e independentemente do seu tamanho ou forma, eram tão leves que quase se sustentavam sozinhos no ar. A dona da casa sabia sempre que segredo pertencia a quem, e em que lugar o deixava. Por vezes, o segredo guardado ficava pouco tempo consigo, e a pessoa que o confiava vinha buscá-lo em poucas semanas ou meses. Outros, levavam alguns anos, até que esse segredo fosse descoberto de outras formas, tornando inútil mantê-lo guardado ali. Mas também havia segredos que haviam sido depositados naquela casa nos seus tempos de juventude e ali permaneciam; devido á morte dos seus donos, ou porque o mundo em que eles viviam implodiria se esses segredos conhecessem a luz do dia. Mas a anciã sabia que todo o segredo era como uma semente escondida na terra e que, a qualquer momento, podia encontrar as condições para germinar e ascender á superfície, dando origem a uma planta que poderia dar frutos doces, acres ou tóxicos.
   Tal como os mortos.


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