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[Funes, El Memorioso]


   Para Funes a memória não era apenas uma faculdade ou um órgão - era um portal de passagem, uma rutura de nível.
   É assim que, a agonizar na sua velha casa, revive com infinitos detalhes a realidade outra dos seus tempos de bebé, deitado no colo da mãe no alpendre, enquanto o pai adestra um cavalo no pátio, garboso, com o seu bigode prussiano, o casaco de pele de alpaca e as botas altas de couro. Enquanto se demora nessa memória, Funes procura não isolar esses pormenores, não lhes conceder um nome ou uma descrição, que só multiplicaria o que a sua memória retém e carrega.

Sépia

A cadeira


     Afonso despediu-se da mulher e foi trabalhar, trabalhava nas obras e afortunadamente, numa obra a pouco mais de duzentos metros de casa, pelo que foi a pé. Saiu pelo portão pequeno da casa, espreitou a sua própria caixa de correio a ver se tinha alguma coisa – estava vazia - e começou a descer a rua, aspirando, feliz, o fumo do cigarro. Quase no fim da rua, atravessou-a para não passar junto aos contentores de lixo e evitar assim o seu fedor nesse dia quente de Julho. Mas foram esses mesmos contentores de lixo que o fizeram deter-se. Eram dois, verdes e manchados, e entre eles, estava colocada uma cadeira, da qual alguém se quisera desfazer. Era uma cadeira das antigas, com costas altas e revestimento em couro. Por baixo, entre as duas pernas dianteiras, e um pouco saído, viu que havia também ali um par de ténis, com as biqueiras viradas para ele. Afonso aproximou-se. A cadeira não parecia estar comida pelo caruncho e era muito, muito bonita. Intrigava-o como é que alguém quereria livrar-se dum objeto desses. Olhou em volta, um pouco comprometido, apetecia-lhe mesmo sentar-se nela, o que poderia parecer estranho ao comum dos olhares. Mas, finalmente, resolveu-se. Afastou os contentores da cadeira, e cedeu ao capricho de se sentar nela.
    Depois de Afonso sair de casa, uns bons cinco minutos depois, foi a vez de a mulher cruzar o mesmo portão. Ia á mercearia, e depois, tencionava parar no café ao lado onde o proprietário, um ucraniano de cabelo grisalho, era uma pessoa muito especial com a qual gostava de conversar e flertar sempre que podia. Tal como o marido, desceu a rua, cruzando-a na diagonal para evitar os contentores do lixo e, também como ele, viu a cadeira e aproximou-se. Gostou de imediato da cadeira e ficou uns instantes a observá-la. Era uma cadeira bonita, das antigas, parecia ser em madeira de lei e o couro do assento e das costas parecia estar em bom estado. O fumo duma beata ainda acesa no chão fez com que ela reparasse no par de ténis e no par de sapatos sujos que estavam por baixo, com as biqueiras viradas para fora. Não reconheceu os sapatos de trabalho do marido - que já tinham sido uns bons sapatos antes de estarem estragados pelo cimento e pelo saibro – e, na verdade, não pretendia perder mais tempo ali. A mercearia e o seu amigo ucraniano aguardavam por ela.


Um rito profano

   Segunda Terça-Feira de casa mês, é dia de cortar as unhas na casa. Tiram-se sortes para definir a escala de serviço e inicia-se o ofício. Todos, mas todos, descalços e com as calças arregaçadas (caso vistam calças ou calções. Caso contrário, tira-se o vinco ao cós da saia), enfiam os pés em alguidares com água quente para amolecer; e ás mãos, mergulham-nas  em tigelas de barro que desempenham a mesma função. Em geral, os adultos colaboram com mais boa vontade e as crianças resistem instintivamente ao rito, pelo que, além de se lhes amolecer as unhas com água a escaldar, amolece-se as suas vontades com calduços e tabefes distribuídos com parcimónia. Depois de quinze minutos com os pés em banho-maria, inicia-se o corte. Os dois familiares eleitos pelas sortes cortam as unhas aos restantes, começando pelas mãos, que é um corte mais delicado que requer utensílios mais simples e efeminados, e finalizando pelos pés que exigem um hardware de dimensões invulgares. Quando os dois cortadores sorteados cortam as unhas a todos os outros, cortam-nas por sua vez a si mesmos, enquanto os outros aplaudem em uníssono a cada estalar de unha, a cada tesourada sonora e a cada grito libertado por eles. Quando todos têm as unhas cortadas, é costume limá-las, raspando as unhas dos pés e das mãos contra as paredes de madeira da barraca da família; e, no fim, cumprida a função e concluído o trabalho, todos celebram juntos com uma dança familiar tradicional em que, dispostos em fila ao lado uns dos outros, dão saltos e afastam e juntam os braços e as pernas, simbolizando com essa coreografia o abrir e fechar da tesoura de poda que costumam usar para cortar as unhas dos pés.


O reduto da sabedoria (uma estória em jeito de parábola social)

(imagem daqui)

               Mog, um jovem celtibero, foi instruído pelos anciãos sobre a origem do cosmos e do homem, e um deles, Ogden, conduziu-o ao coração dos bosques, onde o deixou sem qualquer arma e com a incumbência de capturar um veado de cauda listada, o animal mágico que lhe surgira em sonhos depois de ter mastigado as folhas do teixo. Mog, supera a prova, persegue e abate o veado, retira dele as orgulhosas armações e regressa a Segobriga, o povoado fortificado onde nascera e fora criado. Sente-se feliz, por já poder ser considerado um adulto, e porque Ogden lhe prometera que o continuaria a instruir no conhecimento e nos ritos sagrados até os anciãos o considerarem apto a suceder ao seu pai na liderança da tribo.
               A caminho de Segobriga, Mog entra num desfiladeiro tortuoso e enevoado que se assemelhava a um longo túnel helicoidal onde, por vezes, Mog tem a sensação de estar a pisar o chão e de estar simultaneamente suspenso sobre este. Quando sai do desfiladeiro, a sua surpresa não podia ser maior. O mundo que tem diante de si, não é o seu mundo. Desemboca no século XXI, e admira assustado as estradas com carros, os aviões no céu, e estranhas casas gigantescas. As pessoas são estranhas, vestem-se e comportam-se de forma estranha, e a língua que falam é completamente desconhecida. Quanto mais anda, maior se torna o seu espanto e o seu terror, que se agrava mais por ter perdido a noção de onde ficava, nessa paisagem insólita, o desfiladeiro de onde saíra. Mas Mog é um jovem guerreiro, ensinado pelos melhores sábios da sua tribo, e apercebe-se de que tem de encontrar a passagem de regresso para o seu mundo e para a sua amada Segogriba, e que só o pode conseguir se usar a astúcia e a inteligência.
               Mog finge-se mudo e continua a sua deambulação como um mendigo ou um vadio, e consoante os dias passam, começa a aprender a língua que esses estranhos falam e, não tarda, consegue que o ensinem a ler e a escrever. Empregando-se numa quinta, onde trabalha de Sol a Sol, reúne o dinheiro suficiente para comprar roupas novas e parecer cada vez menos um guerreiro celtibero; e, quando se sente confiante o suficiente, prossegue o plano que tinha em mente. Vai até á aldeia mais próxima para entrevistar os anciãos do lugar com o intuito de lhes perguntar sobre a melhor maneira de voltar ao seu mundo. Se havia respostas para essa questão, ela só poderia estar nas mãos dos anciãos.
               Estranhamente, na aldeia vizinha da quinta, não encontra nenhum ancião, apenas jovens e homens de meia-idade. Inquire sobre isso a um dos homens que encontra na rua direita da aldeia, e este indica-lhe uma casa enorme no exterior do povoado, próxima ao cemitério. Era uma Casa de Repouso, diz-lhe o interpelado e aí, ele poderia encontrar todos os velhos que precisasse.
               Com um frémito de esperança, Mog bate á porta e aparece-lhe uma mulher forte de bata comprida de cor azul-clara. Apesar da desconfiança alardeada pela mulher, Mog pede-lhe polidamente para falar com os anciãos que moram no lugar. Um pouco relutante, a mulher fá-lo entrar para uma sala minúscula onde os velhos estão acomodados em cadeiras de braços encostadas às paredes, uns a dormitar, outros a afugentar das feridas as moscas que zumbem em volta. Mog fica horrorizado, com o cheiro, o desleixo, o calor infernal da sala, mas, mesmo assim, pede aos presentes um minuto de atenção, e narra-lhes que veio de uma terra muito distante e veio cair naquele mundo por artes mágicas cuja natureza ou autoria era um autêntico mistério para ele; e termina o seu pequeno discurso, perguntando aos anciãos se algum deles o poderia ajudar a voltar ao mundo em que nascera.
               Um longo silêncio coroa as suas palavras, apenas interrompido pelo zumbir das moscas e pelos gritos que uma idosa liberta numa divisão contígua.
               A funcionária de bata azul-clara, põe a mão no seu ombro, e diz-lhe, condescendente:
               - Não espere por grandes respostas desta gente. A família deles, nós e eles próprios – todos estão só á espera que chegue a hora deles morrerem. É para isso que os deixam aqui...isto é apenas uma antecâmara da morte.


Causa mortis


   A cantora soprano possuía uma voz belíssima, e essa voz guindou-a á fama, fazendo-a elevar-se neste mundo num percurso inverso ao da lira e voz de Orfeu. Também o inferno assomava ao seu mundo, mas os que a rodeavam faziam tudo para que ela o esquecesse. Chamavam-na divina e eterna. Viverás para sempre como os deuses - repetiam-lhe os admiradores e os amigos, os críticos e os leais servidores, e insistiam – as estrelas irão apagar-se primeiro do que a tua glória, e estás apenas a um passo de ser admitida no Olimpo.

  A deusa, viveu e resplandeceu como pôde, até se finar no seu apartamento em Paris. A eterna morreu de incoerência.

RT

Cem touros


   Na psique feminina é comum imaginar-se que o primeiro centauro nasceu da união dum cavalo e de uma deusa ou ninfa soberana. Na psique masculina, o cenário é quase o mesmo, mas a iniciativa e a autoria pertencem ao cavalo, másculo e dominador. Mas uns e outros não se furtam á evidência de que as éguas mitológicas são fecundadas pelo vento, e de que os centauros, filhos do vento ou do espírito, continuam a pascer tranquilamente nas planuras do nosso coração.

O carro de fuga


   O assalto foi preparado na hora pelos dois malfeitores. Mal preparado, quase espontâneo como um silvo de surpresa ou admiração. Havia duas fases no plano. Começando pelo fim, a segunda fase era chegar ao pé da Heloísa, a vendedora quarentona de frutos secos da praça; Abelardo estava apaixonado por ela, pelas suas faces coradas, pelo peito generoso e pernas gordas, e pelo baloiçar rodopiante e obsceno das suas bochechas quando mascava pastilha elástica. A primeira parte do plano, e foi aí que Abelardo pediu ajuda ao amigo Segismundo, a primeira parte, dizia, era roubar um punhado de margaridas da coroa de flores que a edilidade havia depositado aos pés da estátua da rainha D. Leonor. Abelardo roubava as flores, e entrava no carro de fuga conduzido por Segismundo, que os levaria até á praça da fruta, onde   Abelardo as entregaria a Heloísa, junto com uma improvisada declaração de amor.

   Ultimaram então os preparativos do assalto; com Abelardo a espiar a proximidade das pessoas á almejada coroa de flores, e Segismundo sentado dentro dum carro sinistrado sem rodas que fora deixado junto ao passeio, á entrada do parque D. Carlos I. Enquanto observava atentatamente as movimentações de Abelardo, Segismundo fingiu que rodava a chave na ignição e verificava o estado dos piscas, satisfeito por ter o caminho desimpedido para sair rapidamente dali.

Sem regras

   Jorge, é um rei que vive preocupado. O seu reino está em guerra e qualquer desfecho é possível; por isso preocupa-se, pelo reino e pela sua própria cabeça. Nessa manhã, o rei Jorge acorda particularmente anticlerical, e ordena que decapitem o debochado do bispo mesmo antes de tomar a primeira refeição da manhã. Quando, horas depois, dormita reclinado sobre a mesinha com o tabuleiro de xadrez, um guerreiro-pajem de rosto pintado (um espião) insinua-se nos seus aposentos e crava-lhe no coração uma adaga comprida e aguçada. A morte é imediata, e o guerreiro regozija-se com o que considera uma proeza, que o é certamente, se nos lembrarmos de que ele é apenas um peão do jogo de xadrez que se joga nos aposentos reais.


Ela

Despida de sombras, vestida de sol, a mulher nua dança e rodopia no círculo de magia da clareira do bosque, 
os animais contemplam, as serpentes rendem-se, a minha alma enche-se de luz.

Onde estavas tu, sacerdotisa, na hora da minha negra morte?!


Brblt


   A doutora Anna inventou a borboleta uterina. Um engenhoso acessório de prazer que se introduz na vagina preso por um fio e que estimula o seu interior com ínfimas descargas eletromagnéticas que marcam o compasso do abrir e fechar das asas boleadas da borboleta.
   A doutora Anna é uma solitária. A doutora Anna ainda não divulgou o seu invento, pelo qual sente uma crescente afeição. A borboleta uterina é a coisa mais parecida com mariposas no estômago que já pôde experimentar.

A resposta

   A família, o casal e duas filhas adolescentes, chegou á cidade pequena da costa na hora fresca do entardecer. Fizeram o Check-in no hotel onde tinham reserva, e interrogaram-se sobre o que iriam fazer em seguida. A patroa queria espreitar a praia, ver se ficava muito longe do hotel, se era ventosa ou não, e se tinhas lojas ou restaurantes nas imediações. As filhas adolescentes iam com ela, mas primeiro queriam descobrir se havia algum centro comercial de jeito na cidadezinha, se tinha cinema, lojas de marca, Mac, restaurante chinês. O pai delas,e marido da respetiva, divergiu da família sem grandes protestos dos companheiros de viagem. Já o conheciam. Era mais introspetivo e reservado, e preferia perambular pela cidade com a sua Canon, descobrir ângulos, pessoas, bairros antigos e velhos monumentos.
   Assim fez, começou a partir do mar, dos bairros de pescadores de ruas estreitas e empedradas e casas pobres e simples, e foi subindo a encosta. O centro histórico era mais acima, nascido quando o mar estava mais subido. Havia argolas pesadas para as amarras dos navios na parede de uma capela a trezentos metros da água. Fotografou. Encontrou igrejas antigas, um paço renascentista, algumas janelas e varandas em arte-nova, e alpendres e arcadas que lhe lembrava alguns edifícios de Coimbra. Mais fotos. Via poucos jovens, mas também já quase não parecia haver pescadores. Mesmo a zona mais moderna da cidade, onde o vidro das fachadas dos prédios espelhava o sol em declínio, dava a ideia de desolação. Muitos turistas, muitos idosos e ruas quase vazias. Os mais novos deviam ter migrado, procurado trabalho ou fortuna nas cidades grandes, despovoando a cidade do entusiasmo dos jovens e do riso das crianças.
   Na zona mais alta da cidade, onde os prédios começavam a ceder o lugar a mansões grandes com jardins e piscinas, encontrou um prédio estranho que lhe despertou de imediato a atenção. Possuía uns quatro andares, mas nenhuma janela ou porta em qualquer dos pisos. As varandas avançavam para a rua a partir de paredes sem aberturas ou vãos. Tirou fotografias. Contornou o quarteirão até ás traseiras do prédio, e confirmou que também ali não havia portas ou janelas. Ainda pensou se não seria uma obra interrompida em que os contrutores tivessem emparedado as entradas para dissuadir alguma ocupação ilegal, mas o cuidado com que as paredes estavam pintadas e ausência de ombreiras contrariava a ideia. Outro detalhe, singelo mas estranho, era a presença no piso térreo, tanto á frente como atrás, do escudo da cidade, um brasão com dois leões rampantes ladeando uma chave, com um barco na parte superior e uma coroa mural de quatro torres. Fotografava-o, quando sentiu uma presença ao seu lado. Era um velho, mais um, de pernas arqueadas e apoiado a uma bengala, envergando calças e camisa de cor negra.
   - Boa tarde, o senhor é daqui? - interrogou.
   O outro confirmou com um aceno de cabeça.
   - Para que serve este prédio? Já morou aqui alguém?
   - Mora - retificou o ancião; encheu o peito de ar e prosseguiu - os ausentes...




jardim

   - Já há bastante tempo que não te via por aqui! Já devias andar com saudades…
   Ela sorriu, um sorriso que mal merecia essa descrição, sumido, triste, de lonjuras. Passou a mão trémula pelos cabelos escuros e segurou no copo de cerveja que estava pousado no tampo do balcão.
   - Eu não tenho saudades de nada nem de ninguém. O meu coração é uma pedra de gelo!
   - Não acredito. És tão bela, e irradias sedução. Acredito, isso sim, que tu, como todos, precisas de te protegeres, de resguardar o coração por trás de muros e fossos. Só assim conseguimos sobreviver.
   Ela anuiu, erguendo para ele os olhos verdes.
   - Estou de acordo contigo. Pessoa tinha um verso em que dizia que o coração era um jardim no meio dum círculo de ervas daninhas. É realmente assim que temos de viver.
   - E onde estou eu? No jardim, ou nas ervas daninhas?
   A mão dele aflorara a coxa sob a mini-saia. Sentiu-se excitado com o calor da sua pele.
   - Um pouco menos longe do que quando começaste a falar – reconhece ela.
   - Então vamos lá para cima, para um dos quartos. Estou com dinheiro e prometo que, desta vez, não te magoo…muito…

A guardiã

   A casa da anciã era enorme, um casarão austero da década de trinta, mas o seu aspeto não repugnava a quem passava na rua, porque parecia irradiar uma luz própria, fosse da refração da luz solar nos tanques de mármore azulado com plantas aquáticas, ou da paleta generosa das flores que medravam nos seus jardins – hibiscos, rosas, gazânias, pelargónios, agapantos, e tantas outras.
   Ainda assim, apesar de não sentirem receio ou repulsa pela anciã ou pela casa, era com muita timidez e dúvidas que as pessoas chegavam á sua porta, depois de tocarem o pequeno sino no portão de ferro junto á estrada. A anciã atendia-as e fazia-as entrar para o vestíbulo. Não lhes perguntava nada porque sabia ao que vinham. Todas vinham ter com ela para lhe pedir que lhes guardasse um segredo. Era esse, desde sempre, o seu ofício e a sua paixão. Entregavam á velha mulher um segredo, e ela encafuava-o numa das muitas divisões do casarão. Por vezes, era um segredo pequeno, toscamente embrulhado numa folha de papel pardo ou num lenço de cabelo, outras vezes, era maior e, envolto numa manta ou toalha, selado com cordas ou correntes de elos e, frequentemente, tão pesado que ela pedia a quem lho trazia para a ajudar a carregá-lo pelo meandro de corredores e escadas.
   Havia segredos sem importância que algumas pessoas tolas lhes traziam com frequência e em grande número, para os resgatarem de seguida enquanto lhe traziam mais segredos novos e fresquinhos; mas também segredos recônditos, como um esqueleto no fundo duma gruta, cujos proprietários os confiavam a desviar o olhar e procurando que ela não lhes fixasse as feições. Havia pequenos segredos que pesavam imenso, obrigando os seus donos a caminhar acorcovados como velhinhos; outros, ao contrário, e independentemente do seu tamanho ou forma, eram tão leves que quase se sustentavam sozinhos no ar. A dona da casa sabia sempre que segredo pertencia a quem, e em que lugar o deixava. Por vezes, o segredo guardado ficava pouco tempo consigo, e a pessoa que o confiava vinha buscá-lo em poucas semanas ou meses. Outros, levavam alguns anos, até que esse segredo fosse descoberto de outras formas, tornando inútil mantê-lo guardado ali. Mas também havia segredos que haviam sido depositados naquela casa nos seus tempos de juventude e ali permaneciam; devido á morte dos seus donos, ou porque o mundo em que eles viviam implodiria se esses segredos conhecessem a luz do dia. Mas a anciã sabia que todo o segredo era como uma semente escondida na terra e que, a qualquer momento, podia encontrar as condições para germinar e ascender á superfície, dando origem a uma planta que poderia dar frutos doces, acres ou tóxicos.
   Tal como os mortos.


Às portas de Tebas

Sentia-se saturado da vida de todos e da sua própria vida de todos os dias e todos os lugares, não suportava a rotina, os mecanismos e repetições que desempenhava no trabalho, em casa, ou quando estava um pouco com os amigos.
Fugiu, então.
Conduziu o seu carro para longe, desfiando estradas até se acabar a gasolina.
Prosseguiu a pé, enquanto não lhe doeram os pés.
Quando já não conseguia andar, teimou em continuar, a gatinhar como um bebé. E foi assim que chegou á porta da casa da mãe.
Mas não pôde entrar. Na porta, o anúncio da agência funerária com a fotografia dela revelava-lhe que tal já não era possível.




ilusão

As pessoas olham e vêem-me, acenam, cumprimentam, permutam comigo saudações e banalidades ocas.
Mas eu não acredito nelas.
Não acredito na menina da bilheteira, no revisor do comboio, no porteiro do prédio, na telefonista do escritório, no velho de patilhas do quiosque de jornais que gosta de evocar o tempo em que matava turras em África. Nesses e em tantos outros. Gente da rua, da  Lua, do trabalho, da casa em que moro com a família, das divisões de casas e prédios em que pareço estar unido a estranhos por rotinas oblíquas e liames inconsistentes.
Não acredito nelas quando fingem que me vêem.
Eu sei que mentem, por condescendência. E conivência.
Fingem que eu estou ali, como fingem que viram uma coisa qualquer na televisão de que toda a gente fala, ou que ouviram aquele estampido do disparo quando o vizinho do quinto andar estoirou com os miolos.
Tenho a certeza absoluta de que mentem. Dispo a minha gabardina de Homem Invisível, e permaneço ao seu lado, no meio deles, a rir como um louco da sua cegueira e da sua hipocrisia.


Rainha

                Subiu lesto os parcos degraus que separavam o átrio do hotel do recinto sobrelevado onde haviam instalado a receção. Ab...