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A mostrar mensagens de Julho, 2013

[Funes, El Memorioso]

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Para Funes a memória não era apenas uma faculdade ou um órgão - era um portal de passagem, uma rutura de nível.
   É assim que, a agonizar na sua velha casa, revive com infinitos detalhes a realidade outra dos seus tempos de bebé, deitado no colo da mãe no alpendre, enquanto o pai adestra um cavalo no pátio, garboso, com o seu bigode prussiano, o casaco de pele de alpaca e as botas altas de couro. Enquanto se demora nessa memória, Funes procura não isolar esses pormenores, não lhes conceder um nome ou uma descrição, que só multiplicaria o que a sua memória retém e carrega.

Sépia

Sinto uma afeição vintage pelos tons sépia da nossa leal relação de décadas.— José Eduardo Lopes (@nanonarrativas) July 31, 2013

A cadeira

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Afonso despediu-se da mulher e foi trabalhar, trabalhava nas obras e afortunadamente, numa obra a pouco mais de duzentos metros de casa, pelo que foi a pé. Saiu pelo portão pequeno da casa, espreitou a sua própria caixa de correio a ver se tinha alguma coisa – estava vazia - e começou a descer a rua, aspirando, feliz, o fumo do cigarro. Quase no fim da rua, atravessou-a para não passar junto aos contentores de lixo e evitar assim o seu fedor nesse dia quente de Julho. Mas foram esses mesmos contentores de lixo que o fizeram deter-se. Eram dois, verdes e manchados, e entre eles, estava colocada uma cadeira, da qual alguém se quisera desfazer. Era uma cadeira das antigas, com costas altas e revestimento em couro. Por baixo, entre as duas pernas dianteiras, e um pouco saído, viu que havia também ali um par de ténis, com as biqueiras viradas para ele. Afonso aproximou-se. A cadeira não parecia estar comida pelo caruncho e era muito, muito bonita. Intrigava-o como é que alguém querer…

Um rito profano

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Segunda Terça-Feira de casa mês, é dia de cortar as unhas na casa. Tiram-se sortes para definir a escala de serviço e inicia-se o ofício. Todos, mas todos, descalços e com as calças arregaçadas (caso vistam calças ou calções. Caso contrário, tira-se o vinco ao cós da saia), enfiam os pés em alguidares com água quente para amolecer; e ás mãos, mergulham-nas  em tigelas de barro que desempenham a mesma função. Em geral, os adultos colaboram com mais boa vontade e as crianças resistem instintivamente ao rito, pelo que, além de se lhes amolecer as unhas com água a escaldar, amolece-se as suas vontades com calduços e tabefes distribuídos com parcimónia. Depois de quinze minutos com os pés em banho-maria, inicia-se o corte. Os dois familiares eleitos pelas sortes cortam as unhas aos restantes, começando pelas mãos, que é um corte mais delicado que requer utensílios mais simples e efeminados, e finalizando pelos pés que exigem um hardware de dimensões invulgares. Quando os dois cortadore…

O reduto da sabedoria (uma estória em jeito de parábola social)

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(imagem daqui)
               Mog, um jovem celtibero, foi instruído pelos anciãos sobre a origem do cosmos e do homem, e um deles, Ogden, conduziu-o ao coração dos bosques, onde o deixou sem qualquer arma e com a incumbência de capturar um veado de cauda listada, o animal mágico que lhe surgira em sonhos depois de ter mastigado as folhas do teixo. Mog, supera a prova, persegue e abate o veado, retira dele as orgulhosas armações e regressa a Segobriga, o povoado fortificado onde nascera e fora criado. Sente-se feliz, por já poder ser considerado um adulto, e porque Ogden lhe prometera que o continuaria a instruir no conhecimento e nos ritos sagrados até os anciãos o considerarem apto a suceder ao seu pai na liderança da tribo.                A caminho de Segobriga, Mog entra num desfiladeiro tortuoso e enevoado que se assemelhava a um longo túnel helicoidal onde, por vezes, Mog tem a sensação de estar a pisar o chão e de estar simultaneamente suspenso sobre este. Quando sai do desfila…

Causa mortis

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A cantora soprano possuía uma voz belíssima, e essa voz guindou-a á fama, fazendo-a elevar-se neste mundo num percurso inverso ao da lira e voz de Orfeu. Também o inferno assomava ao seu mundo, mas os que a rodeavam faziam tudo para que ela o esquecesse. Chamavam-na divina e eterna. Viverás para sempre como os deuses - repetiam-lhe os admiradores e os amigos, os críticos e os leais servidores, e insistiam – as estrelas irão apagar-se primeiro do que a tua glória, e estás apenas a um passo de ser admitida no Olimpo.
  A deusa, viveu e resplandeceu como pôde, até se finar no seu apartamento em Paris. A eterna morreu de incoerência.

RT

RT@nanonarrativas Il écrivit le huitième tome de son autobiographie, et ensuite il ronronna, heureux.
— Mario Aguirre (@AguirremariO) July 28, 2013

Cem touros

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Na psique feminina é comum imaginar-se que o primeiro centauro nasceu da união dum cavalo e de uma deusa ou ninfa soberana. Na psique masculina, o cenário é quase o mesmo, mas a iniciativa e a autoria pertencem ao cavalo, másculo e dominador. Mas uns e outros não se furtam á evidência de que as éguas mitológicas são fecundadas pelo vento, e de que os centauros, filhos do vento ou do espírito, continuam a pascer tranquilamente nas planuras do nosso coração.

O carro de fuga

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O assalto foi preparado na hora pelos dois malfeitores. Mal preparado, quase espontâneo como um silvo de surpresa ou admiração. Havia duas fases no plano. Começando pelo fim, a segunda fase era chegar ao pé da Heloísa, a vendedora quarentona de frutos secos da praça; Abelardo estava apaixonado por ela, pelas suas faces coradas, pelo peito generoso e pernas gordas, e pelo baloiçar rodopiante e obsceno das suas bochechas quando mascava pastilha elástica. A primeira parte do plano, e foi aí que Abelardo pediu ajuda ao amigo Segismundo, a primeira parte, dizia, era roubar um punhado de margaridas da coroa de flores que a edilidade havia depositado aos pés da estátua da rainha D. Leonor. Abelardo roubava as flores, e entrava no carro de fuga conduzido por Segismundo, que os levaria até á praça da fruta, onde   Abelardo as entregaria a Heloísa, junto com uma improvisada declaração de amor.
   Ultimaram então os preparativos do assalto; com Abelardo a espiar a proximidade das pessoas á a…

Sem regras

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Jorge, é um rei que vive preocupado. O seu reino está em guerra e qualquer desfecho é possível; por isso preocupa-se, pelo reino e pela sua própria cabeça. Nessa manhã, o rei Jorge acorda particularmente anticlerical, e ordena que decapitem o debochado do bispo mesmo antes de tomar a primeira refeição da manhã. Quando, horas depois, dormita reclinado sobre a mesinha com o tabuleiro de xadrez, um guerreiro-pajem de rosto pintado (um espião) insinua-se nos seus aposentos e crava-lhe no coração uma adaga comprida e aguçada. A morte é imediata, e o guerreiro regozija-se com o que considera uma proeza, que o é certamente, se nos lembrarmos de que ele é apenas um peão do jogo de xadrez que se joga nos aposentos reais.

Ela

Despida de sombras, vestida de sol, a mulher nua dança e rodopia no círculo de magia da clareira do bosque,  os animais contemplam, as serpentes rendem-se, a minha alma enche-se de luz.
Onde estavas tu, sacerdotisa, na hora da minha negra morte?!

Brblt

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A doutora Anna inventou a borboleta uterina. Um engenhoso acessório de prazer que se introduz na vagina preso por um fio e que estimula o seu interior com ínfimas descargas eletromagnéticas que marcam o compasso do abrir e fechar das asas boleadas da borboleta.    A doutora Anna é uma solitária. A doutora Anna ainda não divulgou o seu invento, pelo qual sente uma crescente afeição. A borboleta uterina é a coisa mais parecida com mariposas no estômago que já pôde experimentar.

A resposta

A família, o casal e duas filhas adolescentes, chegou á cidade pequena da costa na hora fresca do entardecer. Fizeram o Check-in no hotel onde tinham reserva, e interrogaram-se sobre o que iriam fazer em seguida. A patroa queria espreitar a praia, ver se ficava muito longe do hotel, se era ventosa ou não, e se tinhas lojas ou restaurantes nas imediações. As filhas adolescentes iam com ela, mas primeiro queriam descobrir se havia algum centro comercial de jeito na cidadezinha, se tinha cinema, lojas de marca, Mac, restaurante chinês. O pai delas,e marido da respetiva, divergiu da família sem grandes protestos dos companheiros de viagem. Já o conheciam. Era mais introspetivo e reservado, e preferia perambular pela cidade com a sua Canon, descobrir ângulos, pessoas, bairros antigos e velhos monumentos.
   Assim fez, começou a partir do mar, dos bairros de pescadores de ruas estreitas e empedradas e casas pobres e simples, e foi subindo a encosta. O centro histórico era mais acima, nas…

jardim

- Já há bastante tempo que não te via por aqui! Já devias andar com saudades…    Ela sorriu, um sorriso que mal merecia essa descrição, sumido, triste, de lonjuras. Passou a mão trémula pelos cabelos escuros e segurou no copo de cerveja que estava pousado no tampo do balcão.    - Eu não tenho saudades de nada nem de ninguém. O meu coração é uma pedra de gelo!    - Não acredito. És tão bela, e irradias sedução. Acredito, isso sim, que tu, como todos, precisas de te protegeres, de resguardar o coração por trás de muros e fossos. Só assim conseguimos sobreviver.    Ela anuiu, erguendo para ele os olhos verdes.    - Estou de acordo contigo. Pessoa tinha um verso em que dizia que o coração era um jardim no meio dum círculo de ervas daninhas. É realmente assim que temos de viver.    - E onde estou eu? No jardim, ou nas ervas daninhas?    A mão dele aflorara a coxa sob a mini-saia. Sentiu-se excitado com o calor da sua pele.    - Um pouco menos longe do que quando começaste a falar – rec…

A guardiã

A casa da anciã era enorme, um casarão austero da década de trinta, mas o seu aspeto não repugnava a quem passava na rua, porque parecia irradiar uma luz própria, fosse da refração da luz solar nos tanques de mármore azulado com plantas aquáticas, ou da paleta generosa das flores que medravam nos seus jardins – hibiscos, rosas, gazânias, pelargónios, agapantos, e tantas outras.    Ainda assim, apesar de não sentirem receio ou repulsa pela anciã ou pela casa, era com muita timidez e dúvidas que as pessoas chegavam á sua porta, depois de tocarem o pequeno sino no portão de ferro junto á estrada. A anciã atendia-as e fazia-as entrar para o vestíbulo. Não lhes perguntava nada porque sabia ao que vinham. Todas vinham ter com ela para lhe pedir que lhes guardasse um segredo. Era esse, desde sempre, o seu ofício e a sua paixão. Entregavam á velha mulher um segredo, e ela encafuava-o numa das muitas divisões do casarão. Por vezes, era um segredo pequeno, toscamente embrulhado numa folha d…

Às portas de Tebas

Sentia-se saturado da vida de todos e da sua própria vida de todos os dias e todos os lugares, não suportava a rotina, os mecanismos e repetições que desempenhava no trabalho, em casa, ou quando estava um pouco com os amigos. Fugiu, então. Conduziu o seu carro para longe, desfiando estradas até se acabar a gasolina. Prosseguiu a pé, enquanto não lhe doeram os pés. Quando já não conseguia andar, teimou em continuar, a gatinhar como um bebé. E foi assim que chegou á porta da casa da mãe. Mas não pôde entrar. Na porta, o anúncio da agência funerária com a fotografia dela revelava-lhe que tal já não era possível.



ilusão

As pessoas olham e vêem-me, acenam, cumprimentam, permutam comigo saudações e banalidades ocas.
Mas eu não acredito nelas.
Não acredito na menina da bilheteira, no revisor do comboio, no porteiro do prédio, na telefonista do escritório, no velho de patilhas do quiosque de jornais que gosta de evocar o tempo em que matava turras em África. Nesses e em tantos outros. Gente da rua, da  Lua, do trabalho, da casa em que moro com a família, das divisões de casas e prédios em que pareço estar unido a estranhos por rotinas oblíquas e liames inconsistentes.
Não acredito nelas quando fingem que me vêem.
Eu sei que mentem, por condescendência. E conivência.
Fingem que eu estou ali, como fingem que viram uma coisa qualquer na televisão de que toda a gente fala, ou que ouviram aquele estampido do disparo quando o vizinho do quinto andar estoirou com os miolos.
Tenho a certeza absoluta de que mentem. Dispo a minha gabardina de Homem Invisível, e permaneço ao seu lado, no meio deles, a rir como um l…