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Um rapaz

     O rapaz era forte e tímido como um pugilista acanhado. Fixava-a pelo canto do olho quando entrava na loja, falava para ela de olhos baixos, uma voz abafada e longínqua solta num tremor da garganta e uns olhos que deveriam brilhar, tanta era a emoção que ela detetava nos seus gestos descoordenados. A ela, enternecia-lhe a paixão ou o carinho que aquele rapaz deveria nutrir por ela; e pensava nele como um “rapaz” porque uns bons dez anos separavam a idade de ambos, ainda que ele já fosse adulto, e tivesse o seu carrito, e fumasse tanto que os dedos da mão já haviam adquirido aquela tonalidade amarelada tão caraterística. Foi pois, sem surpresas, que ela descobriu no saco de mercearias da loja uma delicada margarida, um sinal simbólico inequívoco deixado por ele. Na vez seguinte que teve de ir á loja, ela bem notou o seu nervosismo, e os gestos tensos de quem espera que um raio caia em cima da sua cabeça. Mas ela não se desmanchou e, quando recebeu o troco das mãos dele, afagou-lhe discretamente as costas da mão, fazendo-o corar. No outro dia, ela trazia no bolso do casaco uma margarida como aquela que ele lhe tinha oferecido, e ele mostrou-se radiante e airoso, borboleteando pela loja como o mais feliz dos mortais. Tal como ela esperava, nesse dia, no meio das compras, tinha um bilhete dele, em letra irregular, embora legível, a marcar um encontro no miradouro da vila, para a tarde seguinte. O miradouro era um terraço calcário a meia encosta, onde existia um estacionamento junto a uma capela em ruínas, e era tão isolado e tão longe de qualquer casa, que se tornava no lugar ideal para quem desejava planear um encontro amoroso, ou estar no mel com a namorada.
     Na tarde seguinte, ela preparou-se para ir ao encontro do rapaz no miradouro. Tomou banho, perfumou-se, e vestiu uma t’shirt e umas calças negras muito justas. Enquanto se maquilhava ao espelho, notou como tinha fome, uma sensação álgida nas paredes do estômago. Mas perseverou, dizendo para consigo: “Mais um pouco, e estou no miradouro!”.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...