Hospitalidade

  Os hospitais, os corredores dos hospitais, eu nos corredores dos hospitais, as outras pessoas neles, põem-me doente. Sei porque todos vamos lá, para recobrar saúde, acho, sei que muitas vezes o conseguimos, e sentimos gratidão por este médico ou por aquela instituição, mas os hospitais não são hospitaleiros, os hospitais não são de fiar, tal como um lobo que julgamos domesticado e deixamos a dormir dentro na nossa casa ao lado da cama do bebé. E desconfio dos hospitais porque são como fábricas onde um paciente cumpre diversas etapas como se estivesse numa passadeira rolante duma linha de produção, e é visto e sentido como tal. A cara que surge aos funcionários num balcão ou num guiché é um produto, uma coisa, como também é um produto a criatura que geme numa sala de espera, que vai fazer exames pré-operatórios, que vai à consulta de anestesia, que se deita na sala de operações para ser cortado.
   - Ah, é injusto! – protesta a enfermeira que acumulou dois turnos sem o desejar e negligenciou uma tarefa rotineira que originou que um fulano baqueasse na sala de operações.
   - Isso é falso e maldoso! – reforça o médico, que com palavras enérgicas afunda no olvido um movimento menos cuidadoso do pulso que provocou um golpe no intestino ou no estômago quando nem sequer era a sua intenção tocar neles.
   O Hospital sabe disso, das falhas e das desculpas, mas reduz o pessoal, sobrecarrega de trabalho os que permanecem, e cria as condições favoráveis ao aumento de falhas e erros. Para fora, exibe o rosto sereno e granítico da fachada do Hospital. Os seus responsáveis prometem inquéritos quando as coisas saltam à vista dos familiares dos lesados; ou fazem saber por terceiros, que o comunicam a quartos e a quintos, que um familiar que vá buscar um corpo à casa mortuária tem de confirmar que não deseja fazer nenhuma autópsia. A autópsia é uma coisa horrível, dêem descanso aos mortos e aos vivos. E os vivos dão descanso, e os erros médicos dissipam-se como o fumo do escape do carro funerário.
   Os Hospitais põem-me doente, e de cada vez que preciso de ir a um, penso de imediato: “Desta vez é que fico cá!”


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