A espera

    Ana esperava. Esperava apenas. Sentada num banco de ripas junto á paragem do autocarro, com a pasta de executivo aos pés e o iPod esquecido no regaço. Tinha os lábios num fio, e grossas olheiras em redor dos olhos, marcas do cansaço daquele dia e de todos os dias. Mas permaneceu quieta e indiferente ao ruído e ao fumo dos carros, às vozes e grunhidos dos transeuntes, ao olhar perscrutador dos motoristas dos autocarros que paravam junto a ela. Esperou horas. Ao anoitecer, quando os pombos se aconchegavam nos beirais e se ouvia fechar os estores das janelas dos prédios, chegou finalmente o unicórnio. Desceu a rua, com os cascos a golpear o alcatrão, e parou perto de si a dessedentar-se num pequeno charco que se formara junto ao lancil do passeio. Ela levantou-se, com movimentos lentos, para não o assustar, e aproximou-se até conseguir afagar a sua crina prateada e húmida. O unicórnio levantou a cabeça e fitou nela os olhos muito negros, durante longos momentos. Em seguida, sacudiu levemente a cabeça, e continuou a descer a rua. Depois de o ver desaparecer, ela foi consultar o horário dos autocarros. Agora, já se podia ir embora.


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