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Outros dados, e cartas, no final da página

Sereia

Jangada

Chuva

...

(des) arrazoado

Os universos paralelos tocam-se amiúde, acariciam-se, trocam coisas, beijos, objetos, emoções, lugares e visões.

Deve existir um universo paralelo com um planeta como o nosso onde os habitantes sejam apenas mulheres, leves como o ar, que se passeiam sobre as nuvens com mantos brilhantes, as mesmas que inspiraram as visões de Atena, Pachamamma, e da Nossa Senhora.

Noutro, só há animais híbridos e bizarros, que aparecem ao artista que compõe a sua iluminura, ou ao escultor de gárgulas. Diz-se que Bosch, o holandês, conseguira estar junto de alguns desses animais, e que possuía na cara um lanho provocado pela unha dum grifo.

Muitas vezes, alcança-se um outro universo ao cruzar um pórtico transdimensional ou ao subir uma escada sem fim que surge suspensa dum buraco nos céus ou, por fim, por formas mais comuns, como a vulva. É tido como certo que a vulva pode transportar um homem a um universo distinto.

A teoria dos universos paralelos pode também explicar a existência dos alegados sósias, duplicados ou almas-gémeas; uma pessoa como nós que vive num universo semelhante ao nosso, mas diferente e semelhante por serem um negativo nosso – de nós e do nosso universo - um gémeo especular simétrico. Isso dá-me que pensar. Não sei se o meu sósia vive e trabalha enquanto eu durmo, mas estou certo de que ele tem tudo o que me falta deste lado: as riquezas, a felicidade e a paz. Cabrão do sósia!

I.I.

Hambrelín ou a Tabuada das Ratazanas, no Infinitamente Improvável


Primeira história com moral

   Um homem, que aqui nomearemos por João, está no elétrico, em pé, apoiado às costas dum banco. Junto a si, um casal discute, furiosamente, ou com mais rigor se dirá que ele grita com ela, e ela respondia com palavras sem nexo como se elas pudessem amainar a fúria do seu companheiro proceloso.
    João sabe que não tem que ver com o assunto, ninguém tem, mas, por capricho ou destino, ele e o casal saem na mesma paragem - e quando saem os três, o jovem vira-se para ela e aperta-lhe o braço com uma mão enquanto que com a outra lhe bate na nuca com vontade e força.
   João sai da sua zona de conforto, do seu perímetro de segurança, para uma coisa estúpida: dizer ao tipo que não havia necessidade de bater daquela forma. O que se seguiu foi tão rápido como um piscar de olhos, o homem estica o braço para ele, e João nota que ele tem uma navalha na mão, apenas algumas frações de segundos antes dessa navalha o esventrar dos rins ao plexo solar. Cai por terra, e assiste, estupidificado, ao modo como as suas vísceras saem de sí como imundícies dum saco de lixo rasgado.

   Moral da história: para morrer, que se morra desta forma, por alguma coisa que valha realmente a pena!

A espera

    Ana esperava. Esperava apenas. Sentada num banco de ripas junto á paragem do autocarro, com a pasta de executivo aos pés e o iPod esquecido no regaço. Tinha os lábios num fio, e grossas olheiras em redor dos olhos, marcas do cansaço daquele dia e de todos os dias. Mas permaneceu quieta e indiferente ao ruído e ao fumo dos carros, às vozes e grunhidos dos transeuntes, ao olhar perscrutador dos motoristas dos autocarros que paravam junto a ela. Esperou horas. Ao anoitecer, quando os pombos se aconchegavam nos beirais e se ouvia fechar os estores das janelas dos prédios, chegou finalmente o unicórnio. Desceu a rua, com os cascos a golpear o alcatrão, e parou perto de si a dessedentar-se num pequeno charco que se formara junto ao lancil do passeio. Ela levantou-se, com movimentos lentos, para não o assustar, e aproximou-se até conseguir afagar a sua crina prateada e húmida. O unicórnio levantou a cabeça e fitou nela os olhos muito negros, durante longos momentos. Em seguida, sacudiu levemente a cabeça, e continuou a descer a rua. Depois de o ver desaparecer, ela foi consultar o horário dos autocarros. Agora, já se podia ir embora.


Um caso

O patinho feio

Um rapaz

     O rapaz era forte e tímido como um pugilista acanhado. Fixava-a pelo canto do olho quando entrava na loja, falava para ela de olhos baixos, uma voz abafada e longínqua solta num tremor da garganta e uns olhos que deveriam brilhar, tanta era a emoção que ela detetava nos seus gestos descoordenados. A ela, enternecia-lhe a paixão ou o carinho que aquele rapaz deveria nutrir por ela; e pensava nele como um “rapaz” porque uns bons dez anos separavam a idade de ambos, ainda que ele já fosse adulto, e tivesse o seu carrito, e fumasse tanto que os dedos da mão já haviam adquirido aquela tonalidade amarelada tão caraterística. Foi pois, sem surpresas, que ela descobriu no saco de mercearias da loja uma delicada margarida, um sinal simbólico inequívoco deixado por ele. Na vez seguinte que teve de ir á loja, ela bem notou o seu nervosismo, e os gestos tensos de quem espera que um raio caia em cima da sua cabeça. Mas ela não se desmanchou e, quando recebeu o troco das mãos dele, afagou-lhe discretamente as costas da mão, fazendo-o corar. No outro dia, ela trazia no bolso do casaco uma margarida como aquela que ele lhe tinha oferecido, e ele mostrou-se radiante e airoso, borboleteando pela loja como o mais feliz dos mortais. Tal como ela esperava, nesse dia, no meio das compras, tinha um bilhete dele, em letra irregular, embora legível, a marcar um encontro no miradouro da vila, para a tarde seguinte. O miradouro era um terraço calcário a meia encosta, onde existia um estacionamento junto a uma capela em ruínas, e era tão isolado e tão longe de qualquer casa, que se tornava no lugar ideal para quem desejava planear um encontro amoroso, ou estar no mel com a namorada.
     Na tarde seguinte, ela preparou-se para ir ao encontro do rapaz no miradouro. Tomou banho, perfumou-se, e vestiu uma t’shirt e umas calças negras muito justas. Enquanto se maquilhava ao espelho, notou como tinha fome, uma sensação álgida nas paredes do estômago. Mas perseverou, dizendo para consigo: “Mais um pouco, e estou no miradouro!”.

Portugal 2

Portugal 1

amigos

- Tenho medo de morrer sozinho - disse num fio de voz, deitado na cama de Hospital - nunca soube fazer amigos, estimá-los, transmitir-lhes o quanto gosto das outras pessoas e de como a sua presença me traz alegria e prazer. Vivi toda a vida dentro duma redoma, entretido com a minha imaginação, e isolando-me das pessoas de carne e osso; a tal ponto que, se tenho família, não sei onde ela pára, ou se saberão de mim e dos meus dissabores.
- Nada temas, porque não estarás sozinho quando o teu corpo descer á terra.
- Quem mo garante? Olha para ti, estás á cabeceira da minha cama, mas há quanto tempo não te via nem falava contigo? Percebes o que eu quero dizer?
- Sei dos teus receios, mas eles são infundados. Eu estive sempre por perto, ainda que não me conseguisses ver. Eu e os teus outros amigos imaginários. Criaste-nos desde a infãncia e povoaste connosco a tua solidão e a tua erma rotina, e nós estaremos contigo até ao fim, e depois disso. Estaremos por perto enquanto respirares, e far-te-emos companhia no velório e no funeral, estaremos lá, uma multidão de gente, em pé por entre as campas ou sentados no muro caiado do cemitério.
- Juras que estarás lá?
- Alguma vez precisei de juar alguma coisa quando me convocavas para brincar aos caubóis ou para correr na lezíria?

crueza

A vida é crua. Não quero isso dizer que ela careça de cozedura, tempero, preparação. É apenas crua, desnuda, punge ao olhar e à sensibilidade. A parteira que te dá um açoite para não atrasares o pranto, a fome que se insinua no teu ventre para que saibas que não és um deus, a mão pesada dum pai ou dum professor, os dramas ocultados por quem se aproveita de ti, e destrói a tua paz como se pisasse uma beata no chão. A vida é crua, mais vale perceberes isso. Não há super-heróis, santos, deuses ou anjos que suspendam a pancada, o golpe, a dor profunda. Não te queixes então, do destino ou da injustiça da vida. Já sabias que a vida era assim antes de destapares o esgoto do teu azedume, e tirares a vida a outra pessoa, que diante do teu ato se sentiu tão desguarnecida e oprimida como tu próprio sempre te sentiste.

Hospitalidade

  Os hospitais, os corredores dos hospitais, eu nos corredores dos hospitais, as outras pessoas neles, põem-me doente. Sei porque todos vamos lá, para recobrar saúde, acho, sei que muitas vezes o conseguimos, e sentimos gratidão por este médico ou por aquela instituição, mas os hospitais não são hospitaleiros, os hospitais não são de fiar, tal como um lobo que julgamos domesticado e deixamos a dormir dentro na nossa casa ao lado da cama do bebé. E desconfio dos hospitais porque são como fábricas onde um paciente cumpre diversas etapas como se estivesse numa passadeira rolante duma linha de produção, e é visto e sentido como tal. A cara que surge aos funcionários num balcão ou num guiché é um produto, uma coisa, como também é um produto a criatura que geme numa sala de espera, que vai fazer exames pré-operatórios, que vai à consulta de anestesia, que se deita na sala de operações para ser cortado.
   - Ah, é injusto! – protesta a enfermeira que acumulou dois turnos sem o desejar e negligenciou uma tarefa rotineira que originou que um fulano baqueasse na sala de operações.
   - Isso é falso e maldoso! – reforça o médico, que com palavras enérgicas afunda no olvido um movimento menos cuidadoso do pulso que provocou um golpe no intestino ou no estômago quando nem sequer era a sua intenção tocar neles.
   O Hospital sabe disso, das falhas e das desculpas, mas reduz o pessoal, sobrecarrega de trabalho os que permanecem, e cria as condições favoráveis ao aumento de falhas e erros. Para fora, exibe o rosto sereno e granítico da fachada do Hospital. Os seus responsáveis prometem inquéritos quando as coisas saltam à vista dos familiares dos lesados; ou fazem saber por terceiros, que o comunicam a quartos e a quintos, que um familiar que vá buscar um corpo à casa mortuária tem de confirmar que não deseja fazer nenhuma autópsia. A autópsia é uma coisa horrível, dêem descanso aos mortos e aos vivos. E os vivos dão descanso, e os erros médicos dissipam-se como o fumo do escape do carro funerário.
   Os Hospitais põem-me doente, e de cada vez que preciso de ir a um, penso de imediato: “Desta vez é que fico cá!”


A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...