Se se confia nos escritores de viagens

               A casa devoluta no final da minha rua pertenceu a um bombista anarquista e, diante dela, ainda se pode sentir no ar o cheiro da pólvora e o eco longínquo dos gritos de dor, há um rochedo aqui perto com umas estranhas marcas no seu dorso liso que sugerem pés humanos e que se tem como certo dever-se á passagem dum assassino condenado a caminho do patíbulo; a moura encantada duma das lendas da terra faz com que nunca chova na encosta poente do monte onde se encontram as ruínas da torre de Salir, as cegonhas nunca levantam um dos pés nos nossos campos de arroz porque temem que o chão lhes fuja, os castanheiros são um espetáculo ímpar para a vista e fazem-nos acreditar que há esperança para o planeta e para a galáxia inteira, o centeio do vale tem propriedades afrodisíacas porque junto a esses campos existiu outrora um templo romano a Ísis.

               Eu sou um escritor de viagens e podem confiar em mim, porque descubro todos esses prodígios na marca circular que os copos de vinho deixam no tampo de mármore do bar da minha aldeia.

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