Projeto para um conto (transcrição de um registo áudio)

     «Escrever um conto intitulado Senuf, o Olvidoso, por oposição ao Funes, de Borges. O personagem seria uma imagem negativa de Funes - um homem com uma cultura enorme, complexa e renascentista, que se vê a regredir no tempo, e assiste de uma forma inerte ao modo como a sua ignorância cresce na proporção inversa da dissolução da sua memória. O conto seguiria o mais fielmente possível a atmosfera, os tempos e os tons do conto original. Se Funes se sente avassalado pela intensidade e completitude das suas recordações, Senuf vai mergulhando no olvido e no sono, reagindo com instintivos porquês a situações em que era suposto conhecer de antemão as devidas respostas. Na cena final do conto, e divergindo de Borges, Senuf ouve tocar a campainha da porta da sua casa, um toque ténue, quase impercetível, como se a pessoa que ali se encontrava não tivesse força nos dedos ou tentasse não o assustar. Senuf abre a porta e é uma mulher. Senuf não a conhece, não se lembra dela, nem se poderia lembrar porque ela morrera ao dá-lo á luz. Senuf sente uma ponta de medo porque a mulher desconhecida tem o ventre a descoberto, e este encontra-se aberto, uma longa incisão horizontal abaixo do umbigo, como dois lábios sangrantes e disformes entreabertos. "Quem és tu?" - pergunta Funes, como sempre. "Sou a tua mãe e venho buscar-te para te refugiares de novo em mim". Esta última fala pode ser alterada para ter mais efeito. Agora, é á campainha da minha porta que estão a tocar...engraçado...é um toque como o que descrevi há pouco, ao de leve como se a pessoa que ali se encontra não tivesse força nos dedos ou tentasse não me assustar. Porquê??».



Funes, o Memorioso, em tradução brasileira de Marco Antonio Franciotti.

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