Um toque de génio

            Era a primeira hora de treva celeste e a cidade parecia estender os membros exaustos sob a luz dos néones e candeeiros – já quase todos tinham regressado a casa, e as pessoas jantavam ou emburravam-se diante dum televisor, ou as duas coisas e outras ocupações muito diversas que poderiam solicitar uma chibata e uma fronha de almofada, espelhos de toucador e meias de ligas, crias calvas de texugo ou alimárias com urticária.
            Manu Mau descia a rua pelo passeio e viu, a cerca de um metro duns contentores de reciclagem, uma lata solitária no chão. Manu Mau vinha irritado, a ressacar dum dia de trabalho estúpido, e nada mais lhe ocorreu do que dar um valente pontapé na lata, e esta saiu disparada numa trajetória diagonal, chocou contra a esquina duma casa, ricocheteou e atingiu o anúncio de néon duma academia de croché, para vir cair aos pés de Manu Mau. Mano puxou a culatra atrás, ou melhor, o calcanhar atrás, e preparava-se para desferir um novo pontapé na lata quando, para sua surpresa, viu formar-se uma nuvem arroxeada junto à ponta do seu pé que logo adquiriu uma forma semi-humana, ou seja, continuava a ser uma nuvem da cintura para baixo e desta para o topo parecia agora um génio de bigode e turbante.
            - Quem és tu? – perguntou Manu Mau, e pôs-se a adivinhar – o génio da lâmpada? Um golpe publicitário? Ou…um golpe baixo?
            - Sô ó génio da láta de fejão cat’rino – esclareceu o génio numa irrepreensível pronúncia da Damaia – e concédu-te u’único déséju.
            Manu Mau ensimesmou. Um desejo, apenas um, não era como os três desejos da lâmpada de Aladino, mas também já não existiam lâmpadas dessas, e o desejo mudara muito desde então. Manu Mau sentiu que não podia desperdiçar a oportunidade e, depois de muito refletir, com a mão na boca para não desperdiçar involuntariamente um pedido, acabou por concluir que, em vez de pedir um carro, uma televisão de plasma ou uma alimária com urticária, o melhor mesmo era fazer um pedido vago e abrangente que poderia, com um pouco de sorte, incluir essas coisas entre muitas outras.
            - Génio – anunciou – eu vou agora para casa, para o meu modesto flat e, quando lá chegar, quero encontrar as divisões da casa preenchidas até ao teto com as melhores coisas que tu consigas arranjar. É esse o meu singelo pedido.
            O génio executou uma vénia para indicar que iria satisfazer o seu pedido, e regressou ao interior da lata de feijão. Manu Mau deu um grito de alegria e correu para casa, galgou os degraus da entrada do prédio, os quatro lances de escada até ao apartamento, rodou a chave na fechadura e tentou abrir a porta de entrada. Não conseguiu, por mais que empurrasse, porque o interior deveria estar cheio como um ovo. De riquezas, acreditava Manu, que supunha existir do outro lado, uns milhares de barras de ouro, à mistura com jóias, computadores, televisões, Harley-Davidson’s, bonecas insufláveis e fronhas de almofada.
            Manu Mau sentou-se no chão com as costas apoiadas na porta e pensou na melhor maneira de aceder a essas riquezas. Poderia fazer um buraco pequeno na madeira da porta com um prego grosso, enfiar por ele a lâmina duma serra tico-tico, cortar uma pequena área circular e retirar por aí o maior número de coisas que conseguisse; depois, alargava mais uma ou duas vezes o buraco, até sacar do interior o número suficiente de itens para não ficar soterrado quando abrisse uma nesga da porta. A operação tornar-se-ia então muito mais simples: esvaziaria por inteiro a sala, e em seguida ocupar-se-ia da cozinha, do quarto e da casa-de-banho.
            Tudo isto levaria o seu tempo, até porque Manu Mau não tinha com ele nenhuma serra tico-tico para iniciar a empreitada, nem dinheiro para sair para a rua e comprar uma. Devido a esses empecilhos, não vamos deixar o leitor preso indefinidamente a este relato enquanto Manu Mau procura desenvencilhar-se deles, e podemos antecipar ou pré-visualizar as riquezas que aguardavam por ele no interior do seu flat modesto. A divisão principal do apartamento, uma sala de estar que funcionava também como sala de refeições, estava cheia até ao teto com latas hermeticamente fechadas de feijão catarino. Já o quarto fora eleito para depósito de latas de feijão manteiga, à cozinha calhou as latas de cogumelos laminados e, por fim, a casa-de-banho foi recheada de latas de grão de bico. Acrescente-se ainda que, apesar das expetativas de Manu Mau, o génio da lata de feijão catarino fora um mãos-largas naquilo que sabia fazer, e teve a decência de baixar o tampo da sanita antes de encher aquela divisão com latas de grão de bico.



Mensagens populares deste blogue

A viagem

Abril de 1918 - o caminho para uma Primavera de sangue