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O lendário Manuel



Manuel Sísifo levanta-se sempre muito cedo, umas vezes na sua cama, ao lado do pedregulho esférico, outras, no entanto, num dos patamares das escadas do prédio ou deitado de viés sobre os degraus. Tem sonhos agitados devido às preocupações, dúvidas e dívidas que o atormentam, e acorda cedo porque se sente forçado a isso. Para começar, Manuel Sísifo está desempregado, alimenta-se com restos de comida e migalhas compradas com as esmolas obtidas. O quarto onde vive é alugado, ou já não o é, porque já perdeu a conta dos meses que leva sem pagar o aluguer, ainda que o senhorio tenha cambiado essa compensação financeira pelo prazer que parece sentir em persegui-lo com insultos e ameaças. Também por isso, Manuel levanta-se cedo, desce as escadas do prédio com o seu rochedo, posicionando-se na parte inferior, e amparando a pedra enquanto ela roda lentamente sobre os degraus. Na rua, as coisas são mais fáceis, o chão é plano e, com a prática que leva, Manuel consegue orientar-se com a sua pedra nos passeios sem magoar ninguém. Começa por ir à taberna do bairro, onde há sempre uns restos de café ou galão que a proprietária verte para um jarro, donde ele bebe com um pouco de açúcar, acompanhado por umas sobras de torrada ou pão-de-leite que a mesma senhora guarda para ele comer. Por vezes, Manuel oferece-se, em troca, para limpar os cinzeiros da mesa (há sempre algumas beatas mal aproveitadas, que ele enfia num saco para fumar durante o dia). Daí, Manuel segue para onde se sente inspirado, desde que seja um sítio onde possa levar o rochedo mesmo até á beirinha, porque não consegue afastar-se muito dele. Na lota, arranja sempre um trabalho para fazer, como limpar o chão ou ajudar a carregar os tabuleiros de peixe nos carros-frigoríficos (fica sempre gelado, mas já se habituou a isso) e, como é uma pessoa empreendedora, consegue sempre surripiar da lota uns restos de peixes ou vísceras, que enfia num saco e leva para o beco nas traseiras da marisqueira, ali perto, e deixa á entrada do beco para os gatos e ratazanas encherem a barriga com o petisco e manterem-se arredados das entradas e da cozinha do lugar (o dono da marisqueira não é insensível ao seu préstimo, e recompensa-o sempre com alguns trocos, ou restos de comida que lhe fazem as vezes de almoço). Um outro destino, do qual Manuel Sísifo não abdica, é a ida ao Centro de Emprego para perguntar se não existe trabalho para ele. Como anda sempre sujo, a cheirar a restos e a lixo - já para não falar daquele rochedo enorme que faz sombra em toda a parte - ele é sempre atendido na rua e quase sempre por uma senhora de idade de óculos de aros grossos com ar de bibliotecária. A senhora nunca tem trabalho para ele, mas aproveita a incumbência para fumar o seu cigarrinho, e perorar um pouco com Manuel Sísifo sobre o seu nome ou sobre o trânsito e o estado do tempo, ou sobre uma outra coisa qualquer.
- Manuel é um nome muito antigo, meu caro - Dizia-lhe -você é uma referência e uma lenda viva. Quantos não falaram já do Manuel? Deixe-me ver se me lembro…Homero, Hesíodo, indubitavelmente; Apolodoro, Diodoro da Sicília, Ovídio, este, na dúvida, o Cavaleiro da Flor de Lis, Pseudo-Plínio e mais perto de nós, gigantes como Camus ou Sartre…
Pereré, pororó, e a senhora fumava outro e outro cigarro, e Manuel ouvia-a durante perto de uma hora, muito entediado, até não aguentar mais e retirar-se com muitos agradecimentos e pedidos de desculpa. Com um sentimento de impotência e frustração a enrolar-se no seu peito, ia à procura de outros trabalhos e outros trocados. Arrumador na avenida, limpar vidros dos quiosques da marginal (andava preparado para tudo), reservar lugares de estacionamento com o seu rochedo (que retirava depois de receber a gratificação), ou prensar as tocas de toupeira dos relvados do parque municipal.
À noitinha, regressava ao prédio, e começava a empurrar a pedra pelos degraus acima até ao quarto. Se o dia havia corrido minimamente bem, Manuel Sísifo conseguia alcançá-lo, e atirava-se para cima da cama para dormir como uma pedra. Mas se o dia fora um pouco mau, o que era quase uma constante – se nada dera resultado, se havia outros desgraçados a pedir nos mesmos lugares do que ele, se a fome roía no estômago – o mais certo era o rochedo pesar imenso e não conseguir levá-lo até ao quarto, e deixá-lo e deixar-se num dos patamares da escada.

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...