O aeroporto (ficção verniana)


               O aeroporto está localizado à beira do rio, protegido deste por um sistema engenhoso de muros, taludes e canais de drenagem. Estamos perante um aeroporto duplo, geminado, que se estende pelas duas margens e desempenha uma função elementar: proporciona um meio de cruzar pelos ares o rio perigoso até à margem oposta. A periculosidade do rio não se deve apenas á velocidade e à violência das suas águas, mas também aos animais terríveis que o povoam, hipopótamos, crocodilos, e carpas albinas hematófagas. Devido a tudo isto, atravessá-lo a nado ou de barco é impensável, e cair nele equivale a uma morte certa. Encerremos este preâmbulo e passemos a uma breve descrição do aeroporto, enquanto organismo físico e organizacional.
               As aeronaves que cruzam os ares duma para a outra margem são muito semelhantes entre si: dispõem duma quilha larga fabricada numa liga metálica ultraleve, rodas à frente e atrás, e um mastro grande com vela quadrangular que serve, também, de eixo para o balão de hélio que todas possuem. Estas aeronaves não suportam o peso de cargas inertes, pelo que todas as malas são levadas para a outra margem através dum sistema de cabos de aço que são movidos entre duas rodas de aço. Os passageiros, enquanto aguardam a hora do embarque, podem comer qualquer coisa no bar-refeitório, ler, ver televisão ou brincar com os filhos no parque infantil de temática náutica. Enquanto isso, as suas bagagens são rotuladas e expedidas, verifica-se o gás do balão, e os carros-rebocador (com pneus atados em volta para não se danificarem nas manobras) conduzem a aeronave até á zona de embarque. Respondendo a um som semelhante à sereia dos navios, os passageiros entram nela e acomodam-se nos seus respetivos lugares. Quando estão todos dentro, retira-se a escada da aeronave, fecha-se a pequena portinhola, e a aeronave percorre um pequeno troço de pista enquanto os pilotos controlam a posição da vela quadrangular e procuram o que eles apelidam de “ponto de volatização”, no qual o balão se revela capaz de elevar a aeronave nos ares, convertendo-a num aeróstato, ou seja, torna-a mais leve do que o ar.
               Uma vez no ar e enquanto sobrevoa o rio, a nave é conduzida com extremo cuidado e atenção, com sentinelas sempre atentos à altura a que estão da água, e às movimentações dos predadores naturais, sobretudo, as carpas albinas. Quando aterram na outra margem, e apesar da confiança que todos depositam nos técnicos e nos serviços do aeroporto, é sempre visível o alívio na fisionomia dos passageiros. Estes saem, por fim, da aeronave, e vão recolher as suas bagagens e seguir com as suas vidas, enquanto os carros-rebocador arrastam a nave para a margem da pista para ser inspecionada e preparada para o próximo e arriscado voo.

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