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Micro-Ensaio Sobre a Cor

   Não sou um cientista, não faço ideia de quais foram as causas (talvez uma afeção ocular pandémica, mas isso para mim são apenas palavras), apenas posso relatar os efeitos á minha volta. As pessoas, todas as pessoas, deixaram de conseguir ver a maioria das cores, e os seus olhos tornaram-se apenas sensíveis às cores preta, branca, e à paleta de tons cinza que se estendem entre ambos.

   O mundo reagiu em conformidade, criaram-se máquinas para saber quais as cores que estavam presentes em fotos e imagens, e as cores exteriores a essas três passaram a ser legendadas ou acompanhadas de simbolos cuja atribuição depressa se convencionou á escala global. Há símbolos nos semáforos, nos álbuns de fotos, nos arquivos cinematográficos, nos manuais escolares, e na imaginação dos poetas.

  A linguagem mudou, não havia lugar para sonhos cor-de-rosa, para se estar verde de inveja ou para o amarelar da cobardia. O negro permaneceu como o ícone da angústia, da dor, da desesperança. O branco e os tons claros do cinza acumularam sobre si as virtudes da luz e do céu luminoso, da alegria, da paixão, da esperança, do sublime. Quando querem desejar algo de bom, as pessoas usam agora o alvo, o claro, o luminoso, a menos que o destinatário da mensagem ame o negro e a noite. Assim, num sentido geral, lato, deseja-se um dia claro, um futuro radiante, um casamento desassombrado, uma alva viagem. Por ironia, tornou-se comum a expressão descinzentar para indicar um regresso da alegria e do prazer de viver, ainda que, em último grau, ela possa significar que as coisas ficaram ainda mais negras e difíceis.

   A arte mudou com a revolução P/B, tudo o que antes interessava e apaixonava os criadores e os amantes da arte mudou. Por ora, todos procuram as ideias-força, os símbolos de impacto, as formas cruas; que prescindam da cor para chegar ao recetor da mensagem. A literatura está a atravessar uma evolução semelhante. As descrições dos romances assemelham-se a quadros de Rembrandt, e emergem dum mundo claro/escuro; a acção ganhou mais relevo do que a forma como a vemos, os personagens e a trama são mais realistas, quase em carne-viva, e os monstros e a dor encolhem-se como répteis malignos nos recantos negros da nossa imaginação. A poesia, ao invés, tornou-se mais conceptual e, pelo menos, momentaneamente, um pouco desligada da experiência quotidiana e da agonia da cor. Julgo que isto será apenas uma fase, uma crisálida de transição de onde emergirá a nova arte, próspera e profícua como um prado num dia claro.

   Uma última nota sobre o cinema, o que se faz nos dias de hoje e as películas de arquivo. Logo nos primeiros tempos em que as cores vivas desertaram dos nossos olhos, as pessoas sentiram um prazer inexplicável em regressar aos filmes que sabiam terem sido criados a preto e branco. A publicidade e os painéis publicitários resgataram fotos de Bogart, Dietrich, ou Rita Hayworth. Os realizadores redescobriram Ozu, Eisenstein, Renoir ou Buñuel, realizaram versões dos seus filmes, e procuraram reconquistar a tensão e a melancolia das imagens a preto e branco. E ouso dizer que o conseguiram.

(Imagem de "Viagem a Tóquio", de Ozu)

Geena

                No rincão das matas enegrecidas, onde as árvores carbonizadas se assemelhavam a costelas fraturadas do corpo de uma ...