Entrada de diário


2013/05/11

   Estou sentado na sala de espera do dentista, quando a porta da entrada se abre - em parte pela vontade humana, em parte pela força involuntária do vento – para dar passagem a uma mulher de meia-idade, que se senta ao meu lado compondo o chalé sobre os ombros; os lábios azulados do frio, os cabelos ruivos desgrenhados.
   - Um tempo horrível, este… – comenta, fazendo conversa – um tempo fora do tempo, com frio e vento numa hora em que devíamos estar a caminhar na areia da praia em fato de banho.
   E depois, surpreendendo o meu olhar vestigial sobre os seus ombros guarnecidos, prossegue.
   - Gosta do meu chalé? Eu adoro-o! Encanta-me a cor das suas telhas, e os alpendres vigorosos que me protegem os ombros, mas, sobretudo, adoro este odor rústico e autêntico na sua malha que me evoca vivências e quadros; como as vacas no prado, os queijos a curar, o linho pendurado nas paredes de tábuas, ou as noites estreladas amadas a partir dum alpendre nos Alpes enquanto se bebe um sublime chocolate quente.
   E perguntei, tinha de lhe perguntar:
   - E não lhe pesa, o chalé?
   - Não, o chalé não me pesa, de todo, as pessoas estranham quando digo isto, mas é a pura verdade. Não me pesa, ou não me pesa tanto que me sentisse obrigada a pô-lo de parte. Gosto de sentir o aconchego do chalé sobre mim, dá-me conforto e proteção, assim tipo um amigo especial que só existisse para nós e que se materializasse ao nosso lado nos momentos em que precisamos de alguém para nos abraçar. O que me pesa, o que eu não aguento mesmo, é o frio; e no meu léxico pessoal, o frio é um antónimo de chalé, percebe o que eu digo?

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