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A mostrar mensagens de Maio, 2013

Se se confia nos escritores de viagens

A casa devoluta no final da minha rua pertenceu a um bombista anarquista e, diante dela, ainda se pode sentir no ar o cheiro da pólvora e o eco longínquo dos gritos de dor, há um rochedo aqui perto com umas estranhas marcas no seu dorso liso que sugerem pés humanos e que se tem como certo dever-se á passagem dum assassino condenado a caminho do patíbulo; a moura encantada duma das lendas da terra faz com que nunca chova na encosta poente do monte onde se encontram as ruínas da torre de Salir, as cegonhas nunca levantam um dos pés nos nossos campos de arroz porque temem que o chão lhes fuja, os castanheiros são um espetáculo ímpar para a vista e fazem-nos acreditar que há esperança para o planeta e para a galáxia inteira, o centeio do vale tem propriedades afrodisíacas porque junto a esses campos existiu outrora um templo romano a Ísis.
               Eu sou um escritor de viagens e podem confiar em mim, porque descubro todos esses prodígios na marca circular que os cop…

catás-estrofe

(depois da catástrofe, homens e mulheres montaram roldanas e cordame e uniram esforços para reerguer a grande ceiba caída, enquanto o xamã tentava sarar as raízes partidas e, em volta, as crianças recolhiam os frutos capsulares para os devolver de alguma forma aos ramos despidos; e ninguém se lembrou de que a árvore sagrada poderia preferir permanecer assim, como um guerreiro cansado a agonizar de rosto encostado ao da mãe).

Micro-Ensaio Sobre a Cor

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Não sou um cientista, não faço ideia de quais foram as causas (talvez uma afeção ocular pandémica, mas isso para mim são apenas palavras), apenas posso relatar os efeitos á minha volta. As pessoas, todas as pessoas, deixaram de conseguir ver a maioria das cores, e os seus olhos tornaram-se apenas sensíveis às cores preta, branca, e à paleta de tons cinza que se estendem entre ambos.

   O mundo reagiu em conformidade, criaram-se máquinas para saber quais as cores que estavam presentes em fotos e imagens, e as cores exteriores a essas três passaram a ser legendadas ou acompanhadas de simbolos cuja atribuição depressa se convencionou á escala global. Há símbolos nos semáforos, nos álbuns de fotos, nos arquivos cinematográficos, nos manuais escolares, e na imaginação dos poetas.

  A linguagem mudou, não havia lugar para sonhos cor-de-rosa, para se estar verde de inveja ou para o amarelar da cobardia. O negro permaneceu como o ícone da angústia, da dor, da desesperança. O branco e os to…

Projeto para um conto (transcrição de um registo áudio)

«Escrever um conto intitulado Senuf, o Olvidoso, por oposição ao Funes, de Borges. O personagem seria uma imagem negativa de Funes - um homem com uma cultura enorme, complexa e renascentista, que se vê a regredir no tempo, e assiste de uma forma inerte ao modo como a sua ignorância cresce na proporção inversa da dissolução da sua memória. O conto seguiria o mais fielmente possível a atmosfera, os tempos e os tons do conto original. Se Funes se sente avassalado pela intensidade e completitude das suas recordações, Senuf vai mergulhando no olvido e no sono, reagindo com instintivos porquês a situações em que era suposto conhecer de antemão as devidas respostas. Na cena final do conto, e divergindo de Borges, Senuf ouve tocar a campainha da porta da sua casa, um toque ténue, quase impercetível, como se a pessoa que ali se encontrava não tivesse força nos dedos ou tentasse não o assustar. Senuf abre a porta e é uma mulher. Senuf não a conhece, não se lembra dela, nem se poderia lembr…

inconsequente

Varo Vargas, o ditador, foi alvo dum atentado. Um opositor do regime emboscou-se por trás dum contentor de lixo e, quando Vargas passou, de pé no carro presidencial, disparou dois tiros. A primeira bala saiu paro o alto e perfurou o peito dum pombo pousado numa varanda, e a segunda saiu muito para baixo, esfolou um pouco o alcatrão da rua e foi defletida de encontro ao taipal duma camioneta de carga, onde ficou incrustada. Apesar de terem sido dois tiros muito dolorosos para Vargo Vargas, não foram suficientes para o matar.

Um toque de génio

Era a primeira hora de treva celeste e a cidade parecia estender os membros exaustos sob a luz dos néones e candeeiros – já quase todos tinham regressado a casa, e as pessoas jantavam ou emburravam-se diante dum televisor, ou as duas coisas e outras ocupações muito diversas que poderiam solicitar uma chibata e uma fronha de almofada, espelhos de toucador e meias de ligas, crias calvas de texugo ou alimárias com urticária.             Manu Mau descia a rua pelo passeio e viu, a cerca de um metro duns contentores de reciclagem, uma lata solitária no chão. Manu Mau vinha irritado, a ressacar dum dia de trabalho estúpido, e nada mais lhe ocorreu do que dar um valente pontapé na lata, e esta saiu disparada numa trajetória diagonal, chocou contra a esquina duma casa, ricocheteou e atingiu o anúncio de néon duma academia de croché, para vir cair aos pés de Manu Mau. Mano puxou a culatra atrás, ou melhor, o calcanhar atrás, e preparava-se para desferir um novo pontapé na lata qua…

O aeroporto (ficção verniana)

O aeroporto está localizado à beira do rio, protegido deste por um sistema engenhoso de muros, taludes e canais de drenagem. Estamos perante um aeroporto duplo, geminado, que se estende pelas duas margens e desempenha uma função elementar: proporciona um meio de cruzar pelos ares o rio perigoso até à margem oposta. A periculosidade do rio não se deve apenas á velocidade e à violência das suas águas, mas também aos animais terríveis que o povoam, hipopótamos, crocodilos, e carpas albinas hematófagas. Devido a tudo isto, atravessá-lo a nado ou de barco é impensável, e cair nele equivale a uma morte certa. Encerremos este preâmbulo e passemos a uma breve descrição do aeroporto, enquanto organismo físico e organizacional.                As aeronaves que cruzam os ares duma para a outra margem são muito semelhantes entre si: dispõem duma quilha larga fabricada numa liga metálica ultraleve, rodas à frente e atrás, e um mastro grande com vela quadrangular que serve, também, d…

Entrada de diário

2013/05/11
   Estou sentado na sala de espera do dentista, quando a porta da entrada se abre - em parte pela vontade humana, em parte pela força involuntária do vento – para dar passagem a uma mulher de meia-idade, que se senta ao meu lado compondo o chalé sobre os ombros; os lábios azulados do frio, os cabelos ruivos desgrenhados.    - Um tempo horrível, este… – comenta, fazendo conversa – um tempo fora do tempo, com frio e vento numa hora em que devíamos estar a caminhar na areia da praia em fato de banho.    E depois, surpreendendo o meu olhar vestigial sobre os seus ombros guarnecidos, prossegue.    - Gosta do meu chalé? Eu adoro-o! Encanta-me a cor das suas telhas, e os alpendres vigorosos que me protegem os ombros, mas, sobretudo, adoro este odor rústico e autêntico na sua malha que me evoca vivências e quadros; como as vacas no prado, os queijos a curar, o linho pendurado nas paredes de tábuas, ou as noites estreladas amadas a partir dum alpendre nos Alpes enquanto se bebe um …

Pogrom

Na digna República dos Bananas, a concórdia era geral nos estratos superiores da sociedade. Os Bananas elegiam os seus representantes para o Senado, mais um chefe de Estado que se incumbia das missões mais solenes e decorativas. Havia deles para fingir que trabalhavam e que eram parte do aparelho produtivo da nação, e havia outros que dispensavam esse teatro supérfluo e existiam apenas para encher os seus ventres esbranquiçados e mercadejar cargos e influências. O único senão para a excelência da República dos Bananas, é que eles não estavam sozinhos. Os Bananas exploravam despudoradamente o trabalho servil do Cocos; eram estes quem verdadeiramente produzia a riqueza do país, quem lavrava os campos e mourejava nas minas e fábricas. Mas lá veio um dia em que os Cocos dobraram a esquina do sofrimento de que falava Engels. Saíram a uma mesma voz dos seus descampados e tugúrios e, como as mãos e os pés dum mesmo gigante, começaram a exterminar a eito os Bananas, cujos corpos frágeis fora…

do estado da nação

O capitalismo é um sistema perverso no qual o dinheiro é a arma. Quanto mais armas houver, melhor o sistema funciona, mesmo que isso implique haver atiradores e alvos, e muitas, muitas vítimas, que proliferam como insetos agonizantes no exterior paupérrimo dos arsenais. 
- O país está em crise, mais vale emigrarem, procurarem a sorte noutro lado, ser um elemento menos a receber ajudas do Estado, que já não tem com que ajudar - pronunciou a voz de autómato do governante. - Mas emigrar para onde, se está tudo em crise? - O país está em crise, mais vale emigrarem, procurarem a sorte noutro lado, ser um elemento menos a receber ajudas…

O espaço que o ser ocupa

A Dona Adozinda está sempre à janela da sala, e todos acenam para ela, os vizinhos, o carteiro, as crianças que brincam na rua. Mas um dia suspeitam de algo, e comunicam à polícia, que intervém. A Dona Adozinda está morta, o seu corpo apodrece no chão do quarto. Era à sua imagem, à recordação que dela retinham, que todos prodigalizavam acenos.

O lendário Manuel

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Manuel Sísifo levanta-se sempre muito cedo, umas vezes na sua cama, ao lado do pedregulho esférico, outras, no entanto, num dos patamares das escadas do prédio ou deitado de viés sobre os degraus. Tem sonhos agitados devido às preocupações, dúvidas e dívidas que o atormentam, e acorda cedo porque se sente forçado a isso. Para começar, Manuel Sísifo está desempregado, alimenta-se com restos de comida e migalhas compradas com as esmolas obtidas. O quarto onde vive é alugado, ou já não o é, porque já perdeu a conta dos meses que leva sem pagar o aluguer, ainda que o senhorio tenha cambiado essa compensação financeira pelo prazer que parece sentir em persegui-lo com insultos e ameaças. Também por isso, Manuel levanta-se cedo, desce as escadas do prédio com o seu rochedo, posicionando-se na parte inferior, e amparando a pedra enquanto ela roda lentamente sobre os degraus. Na rua, as coisas são mais fáceis, o chão é plano e, com a prática que leva, Manuel consegue orientar-se com a sua ped…