INSTRUÇÕES:

Outros dados, e cartas, no final da página

Se se confia nos escritores de viagens

               A casa devoluta no final da minha rua pertenceu a um bombista anarquista e, diante dela, ainda se pode sentir no ar o cheiro da pólvora e o eco longínquo dos gritos de dor, há um rochedo aqui perto com umas estranhas marcas no seu dorso liso que sugerem pés humanos e que se tem como certo dever-se á passagem dum assassino condenado a caminho do patíbulo; a moura encantada duma das lendas da terra faz com que nunca chova na encosta poente do monte onde se encontram as ruínas da torre de Salir, as cegonhas nunca levantam um dos pés nos nossos campos de arroz porque temem que o chão lhes fuja, os castanheiros são um espetáculo ímpar para a vista e fazem-nos acreditar que há esperança para o planeta e para a galáxia inteira, o centeio do vale tem propriedades afrodisíacas porque junto a esses campos existiu outrora um templo romano a Ísis.

               Eu sou um escritor de viagens e podem confiar em mim, porque descubro todos esses prodígios na marca circular que os copos de vinho deixam no tampo de mármore do bar da minha aldeia.

catás-estrofe

(depois da catástrofe, homens e mulheres montaram roldanas e cordame e uniram esforços para reerguer a grande ceiba caída, enquanto o xamã tentava sarar as raízes partidas e, em volta, as crianças recolhiam os frutos capsulares para os devolver de alguma forma aos ramos despidos; e ninguém se lembrou de que a árvore sagrada poderia preferir permanecer assim, como um guerreiro cansado a agonizar de rosto encostado ao da mãe).

Micro-Ensaio Sobre a Cor

   Não sou um cientista, não faço ideia de quais foram as causas (talvez uma afeção ocular pandémica, mas isso para mim são apenas palavras), apenas posso relatar os efeitos á minha volta. As pessoas, todas as pessoas, deixaram de conseguir ver a maioria das cores, e os seus olhos tornaram-se apenas sensíveis às cores preta, branca, e à paleta de tons cinza que se estendem entre ambos.

   O mundo reagiu em conformidade, criaram-se máquinas para saber quais as cores que estavam presentes em fotos e imagens, e as cores exteriores a essas três passaram a ser legendadas ou acompanhadas de simbolos cuja atribuição depressa se convencionou á escala global. Há símbolos nos semáforos, nos álbuns de fotos, nos arquivos cinematográficos, nos manuais escolares, e na imaginação dos poetas.

  A linguagem mudou, não havia lugar para sonhos cor-de-rosa, para se estar verde de inveja ou para o amarelar da cobardia. O negro permaneceu como o ícone da angústia, da dor, da desesperança. O branco e os tons claros do cinza acumularam sobre si as virtudes da luz e do céu luminoso, da alegria, da paixão, da esperança, do sublime. Quando querem desejar algo de bom, as pessoas usam agora o alvo, o claro, o luminoso, a menos que o destinatário da mensagem ame o negro e a noite. Assim, num sentido geral, lato, deseja-se um dia claro, um futuro radiante, um casamento desassombrado, uma alva viagem. Por ironia, tornou-se comum a expressão descinzentar para indicar um regresso da alegria e do prazer de viver, ainda que, em último grau, ela possa significar que as coisas ficaram ainda mais negras e difíceis.

   A arte mudou com a revolução P/B, tudo o que antes interessava e apaixonava os criadores e os amantes da arte mudou. Por ora, todos procuram as ideias-força, os símbolos de impacto, as formas cruas; que prescindam da cor para chegar ao recetor da mensagem. A literatura está a atravessar uma evolução semelhante. As descrições dos romances assemelham-se a quadros de Rembrandt, e emergem dum mundo claro/escuro; a acção ganhou mais relevo do que a forma como a vemos, os personagens e a trama são mais realistas, quase em carne-viva, e os monstros e a dor encolhem-se como répteis malignos nos recantos negros da nossa imaginação. A poesia, ao invés, tornou-se mais conceptual e, pelo menos, momentaneamente, um pouco desligada da experiência quotidiana e da agonia da cor. Julgo que isto será apenas uma fase, uma crisálida de transição de onde emergirá a nova arte, próspera e profícua como um prado num dia claro.

   Uma última nota sobre o cinema, o que se faz nos dias de hoje e as películas de arquivo. Logo nos primeiros tempos em que as cores vivas desertaram dos nossos olhos, as pessoas sentiram um prazer inexplicável em regressar aos filmes que sabiam terem sido criados a preto e branco. A publicidade e os painéis publicitários resgataram fotos de Bogart, Dietrich, ou Rita Hayworth. Os realizadores redescobriram Ozu, Eisenstein, Renoir ou Buñuel, realizaram versões dos seus filmes, e procuraram reconquistar a tensão e a melancolia das imagens a preto e branco. E ouso dizer que o conseguiram.

(Imagem de "Viagem a Tóquio", de Ozu)

Projeto para um conto (transcrição de um registo áudio)

     «Escrever um conto intitulado Senuf, o Olvidoso, por oposição ao Funes, de Borges. O personagem seria uma imagem negativa de Funes - um homem com uma cultura enorme, complexa e renascentista, que se vê a regredir no tempo, e assiste de uma forma inerte ao modo como a sua ignorância cresce na proporção inversa da dissolução da sua memória. O conto seguiria o mais fielmente possível a atmosfera, os tempos e os tons do conto original. Se Funes se sente avassalado pela intensidade e completitude das suas recordações, Senuf vai mergulhando no olvido e no sono, reagindo com instintivos porquês a situações em que era suposto conhecer de antemão as devidas respostas. Na cena final do conto, e divergindo de Borges, Senuf ouve tocar a campainha da porta da sua casa, um toque ténue, quase impercetível, como se a pessoa que ali se encontrava não tivesse força nos dedos ou tentasse não o assustar. Senuf abre a porta e é uma mulher. Senuf não a conhece, não se lembra dela, nem se poderia lembrar porque ela morrera ao dá-lo á luz. Senuf sente uma ponta de medo porque a mulher desconhecida tem o ventre a descoberto, e este encontra-se aberto, uma longa incisão horizontal abaixo do umbigo, como dois lábios sangrantes e disformes entreabertos. "Quem és tu?" - pergunta Funes, como sempre. "Sou a tua mãe e venho buscar-te para te refugiares de novo em mim". Esta última fala pode ser alterada para ter mais efeito. Agora, é á campainha da minha porta que estão a tocar...engraçado...é um toque como o que descrevi há pouco, ao de leve como se a pessoa que ali se encontra não tivesse força nos dedos ou tentasse não me assustar. Porquê??».



Funes, o Memorioso, em tradução brasileira de Marco Antonio Franciotti.

inconsequente

     Varo Vargas, o ditador, foi alvo dum atentado. Um opositor do regime emboscou-se por trás dum contentor de lixo e, quando Vargas passou, de pé no carro presidencial, disparou dois tiros. A primeira bala saiu paro o alto e perfurou o peito dum pombo pousado numa varanda, e a segunda saiu muito para baixo, esfolou um pouco o alcatrão da rua e foi defletida de encontro ao taipal duma camioneta de carga, onde ficou incrustada. Apesar de terem sido dois tiros muito dolorosos para Vargo Vargas, não foram suficientes para o matar.

Um toque de génio

            Era a primeira hora de treva celeste e a cidade parecia estender os membros exaustos sob a luz dos néones e candeeiros – já quase todos tinham regressado a casa, e as pessoas jantavam ou emburravam-se diante dum televisor, ou as duas coisas e outras ocupações muito diversas que poderiam solicitar uma chibata e uma fronha de almofada, espelhos de toucador e meias de ligas, crias calvas de texugo ou alimárias com urticária.
            Manu Mau descia a rua pelo passeio e viu, a cerca de um metro duns contentores de reciclagem, uma lata solitária no chão. Manu Mau vinha irritado, a ressacar dum dia de trabalho estúpido, e nada mais lhe ocorreu do que dar um valente pontapé na lata, e esta saiu disparada numa trajetória diagonal, chocou contra a esquina duma casa, ricocheteou e atingiu o anúncio de néon duma academia de croché, para vir cair aos pés de Manu Mau. Mano puxou a culatra atrás, ou melhor, o calcanhar atrás, e preparava-se para desferir um novo pontapé na lata quando, para sua surpresa, viu formar-se uma nuvem arroxeada junto à ponta do seu pé que logo adquiriu uma forma semi-humana, ou seja, continuava a ser uma nuvem da cintura para baixo e desta para o topo parecia agora um génio de bigode e turbante.
            - Quem és tu? – perguntou Manu Mau, e pôs-se a adivinhar – o génio da lâmpada? Um golpe publicitário? Ou…um golpe baixo?
            - Sô ó génio da láta de fejão cat’rino – esclareceu o génio numa irrepreensível pronúncia da Damaia – e concédu-te u’único déséju.
            Manu Mau ensimesmou. Um desejo, apenas um, não era como os três desejos da lâmpada de Aladino, mas também já não existiam lâmpadas dessas, e o desejo mudara muito desde então. Manu Mau sentiu que não podia desperdiçar a oportunidade e, depois de muito refletir, com a mão na boca para não desperdiçar involuntariamente um pedido, acabou por concluir que, em vez de pedir um carro, uma televisão de plasma ou uma alimária com urticária, o melhor mesmo era fazer um pedido vago e abrangente que poderia, com um pouco de sorte, incluir essas coisas entre muitas outras.
            - Génio – anunciou – eu vou agora para casa, para o meu modesto flat e, quando lá chegar, quero encontrar as divisões da casa preenchidas até ao teto com as melhores coisas que tu consigas arranjar. É esse o meu singelo pedido.
            O génio executou uma vénia para indicar que iria satisfazer o seu pedido, e regressou ao interior da lata de feijão. Manu Mau deu um grito de alegria e correu para casa, galgou os degraus da entrada do prédio, os quatro lances de escada até ao apartamento, rodou a chave na fechadura e tentou abrir a porta de entrada. Não conseguiu, por mais que empurrasse, porque o interior deveria estar cheio como um ovo. De riquezas, acreditava Manu, que supunha existir do outro lado, uns milhares de barras de ouro, à mistura com jóias, computadores, televisões, Harley-Davidson’s, bonecas insufláveis e fronhas de almofada.
            Manu Mau sentou-se no chão com as costas apoiadas na porta e pensou na melhor maneira de aceder a essas riquezas. Poderia fazer um buraco pequeno na madeira da porta com um prego grosso, enfiar por ele a lâmina duma serra tico-tico, cortar uma pequena área circular e retirar por aí o maior número de coisas que conseguisse; depois, alargava mais uma ou duas vezes o buraco, até sacar do interior o número suficiente de itens para não ficar soterrado quando abrisse uma nesga da porta. A operação tornar-se-ia então muito mais simples: esvaziaria por inteiro a sala, e em seguida ocupar-se-ia da cozinha, do quarto e da casa-de-banho.
            Tudo isto levaria o seu tempo, até porque Manu Mau não tinha com ele nenhuma serra tico-tico para iniciar a empreitada, nem dinheiro para sair para a rua e comprar uma. Devido a esses empecilhos, não vamos deixar o leitor preso indefinidamente a este relato enquanto Manu Mau procura desenvencilhar-se deles, e podemos antecipar ou pré-visualizar as riquezas que aguardavam por ele no interior do seu flat modesto. A divisão principal do apartamento, uma sala de estar que funcionava também como sala de refeições, estava cheia até ao teto com latas hermeticamente fechadas de feijão catarino. Já o quarto fora eleito para depósito de latas de feijão manteiga, à cozinha calhou as latas de cogumelos laminados e, por fim, a casa-de-banho foi recheada de latas de grão de bico. Acrescente-se ainda que, apesar das expetativas de Manu Mau, o génio da lata de feijão catarino fora um mãos-largas naquilo que sabia fazer, e teve a decência de baixar o tampo da sanita antes de encher aquela divisão com latas de grão de bico.



O aeroporto (ficção verniana)


               O aeroporto está localizado à beira do rio, protegido deste por um sistema engenhoso de muros, taludes e canais de drenagem. Estamos perante um aeroporto duplo, geminado, que se estende pelas duas margens e desempenha uma função elementar: proporciona um meio de cruzar pelos ares o rio perigoso até à margem oposta. A periculosidade do rio não se deve apenas á velocidade e à violência das suas águas, mas também aos animais terríveis que o povoam, hipopótamos, crocodilos, e carpas albinas hematófagas. Devido a tudo isto, atravessá-lo a nado ou de barco é impensável, e cair nele equivale a uma morte certa. Encerremos este preâmbulo e passemos a uma breve descrição do aeroporto, enquanto organismo físico e organizacional.
               As aeronaves que cruzam os ares duma para a outra margem são muito semelhantes entre si: dispõem duma quilha larga fabricada numa liga metálica ultraleve, rodas à frente e atrás, e um mastro grande com vela quadrangular que serve, também, de eixo para o balão de hélio que todas possuem. Estas aeronaves não suportam o peso de cargas inertes, pelo que todas as malas são levadas para a outra margem através dum sistema de cabos de aço que são movidos entre duas rodas de aço. Os passageiros, enquanto aguardam a hora do embarque, podem comer qualquer coisa no bar-refeitório, ler, ver televisão ou brincar com os filhos no parque infantil de temática náutica. Enquanto isso, as suas bagagens são rotuladas e expedidas, verifica-se o gás do balão, e os carros-rebocador (com pneus atados em volta para não se danificarem nas manobras) conduzem a aeronave até á zona de embarque. Respondendo a um som semelhante à sereia dos navios, os passageiros entram nela e acomodam-se nos seus respetivos lugares. Quando estão todos dentro, retira-se a escada da aeronave, fecha-se a pequena portinhola, e a aeronave percorre um pequeno troço de pista enquanto os pilotos controlam a posição da vela quadrangular e procuram o que eles apelidam de “ponto de volatização”, no qual o balão se revela capaz de elevar a aeronave nos ares, convertendo-a num aeróstato, ou seja, torna-a mais leve do que o ar.
               Uma vez no ar e enquanto sobrevoa o rio, a nave é conduzida com extremo cuidado e atenção, com sentinelas sempre atentos à altura a que estão da água, e às movimentações dos predadores naturais, sobretudo, as carpas albinas. Quando aterram na outra margem, e apesar da confiança que todos depositam nos técnicos e nos serviços do aeroporto, é sempre visível o alívio na fisionomia dos passageiros. Estes saem, por fim, da aeronave, e vão recolher as suas bagagens e seguir com as suas vidas, enquanto os carros-rebocador arrastam a nave para a margem da pista para ser inspecionada e preparada para o próximo e arriscado voo.

Entrada de diário


2013/05/11

   Estou sentado na sala de espera do dentista, quando a porta da entrada se abre - em parte pela vontade humana, em parte pela força involuntária do vento – para dar passagem a uma mulher de meia-idade, que se senta ao meu lado compondo o chalé sobre os ombros; os lábios azulados do frio, os cabelos ruivos desgrenhados.
   - Um tempo horrível, este… – comenta, fazendo conversa – um tempo fora do tempo, com frio e vento numa hora em que devíamos estar a caminhar na areia da praia em fato de banho.
   E depois, surpreendendo o meu olhar vestigial sobre os seus ombros guarnecidos, prossegue.
   - Gosta do meu chalé? Eu adoro-o! Encanta-me a cor das suas telhas, e os alpendres vigorosos que me protegem os ombros, mas, sobretudo, adoro este odor rústico e autêntico na sua malha que me evoca vivências e quadros; como as vacas no prado, os queijos a curar, o linho pendurado nas paredes de tábuas, ou as noites estreladas amadas a partir dum alpendre nos Alpes enquanto se bebe um sublime chocolate quente.
   E perguntei, tinha de lhe perguntar:
   - E não lhe pesa, o chalé?
   - Não, o chalé não me pesa, de todo, as pessoas estranham quando digo isto, mas é a pura verdade. Não me pesa, ou não me pesa tanto que me sentisse obrigada a pô-lo de parte. Gosto de sentir o aconchego do chalé sobre mim, dá-me conforto e proteção, assim tipo um amigo especial que só existisse para nós e que se materializasse ao nosso lado nos momentos em que precisamos de alguém para nos abraçar. O que me pesa, o que eu não aguento mesmo, é o frio; e no meu léxico pessoal, o frio é um antónimo de chalé, percebe o que eu digo?

Pogrom


Na digna República dos Bananas, a concórdia era geral nos estratos superiores da sociedade. Os Bananas elegiam os seus representantes para o Senado, mais um chefe de Estado que se incumbia das missões mais solenes e decorativas. Havia deles para fingir que trabalhavam e que eram parte do aparelho produtivo da nação, e havia outros que dispensavam esse teatro supérfluo e existiam apenas para encher os seus ventres esbranquiçados e mercadejar cargos e influências. O único senão para a excelência da República dos Bananas, é que eles não estavam sozinhos. Os Bananas exploravam despudoradamente o trabalho servil do Cocos; eram estes quem verdadeiramente produzia a riqueza do país, quem lavrava os campos e mourejava nas minas e fábricas.
Mas lá veio um dia em que os Cocos dobraram a esquina do sofrimento de que falava Engels. Saíram a uma mesma voz dos seus descampados e tugúrios e, como as mãos e os pés dum mesmo gigante, começaram a exterminar a eito os Bananas, cujos corpos frágeis foram esmagados e pilados pelos robustos e encouraçados cocos. Num suspiro de Zéfiro, já não havia Bananas em lado algum, apenas os seus cadáveres e o ódio residual que todos os Cocos ainda nutriam por eles.
Agora, os Cocos detinham as fábricas e o senado, as minas e os palácios, mas havia hiatos e lacunas evidentes na orgânica da sociedade. Num instante pensavam nisso e, no instante seguinte, os Cocos deitavam o olho às laboriosas Uvas, ali tão próximas, úteis e prestáveis. Não seria uma ideia absurda conceder-lhes o privilégio de trabalhar nas minas, nos campos e nas fábricas; trabalho que só enobrecia quem o desempenhava e criava riqueza para todos. E os impantes Cocos tinham sérias dúvidas de que as Uvas, em toda a sua pequenez e fragilidade, pudessem recusar uma oferta tão generosa.

do estado da nação


O capitalismo é um sistema perverso no qual o dinheiro é a arma. Quanto mais armas houver, melhor o sistema funciona, mesmo que isso implique haver atiradores e alvos, e muitas, muitas vítimas, que proliferam como insetos agonizantes no exterior paupérrimo dos arsenais. 


- O país está em crise, mais vale emigrarem, procurarem a sorte noutro lado, ser um elemento menos a receber ajudas do Estado, que já não tem com que ajudar - pronunciou a voz de autómato do governante.
- Mas emigrar para onde, se está tudo em crise?
- O país está em crise, mais vale emigrarem, procurarem a sorte noutro lado, ser um elemento menos a receber ajudas…

O espaço que o ser ocupa


   A Dona Adozinda está sempre à janela da sala, e todos acenam para ela, os vizinhos, o carteiro, as crianças que brincam na rua. Mas um dia suspeitam de algo, e comunicam à polícia, que intervém. A Dona Adozinda está morta, o seu corpo apodrece no chão do quarto. Era à sua imagem, à recordação que dela retinham, que todos prodigalizavam acenos.

O lendário Manuel



Manuel Sísifo levanta-se sempre muito cedo, umas vezes na sua cama, ao lado do pedregulho esférico, outras, no entanto, num dos patamares das escadas do prédio ou deitado de viés sobre os degraus. Tem sonhos agitados devido às preocupações, dúvidas e dívidas que o atormentam, e acorda cedo porque se sente forçado a isso. Para começar, Manuel Sísifo está desempregado, alimenta-se com restos de comida e migalhas compradas com as esmolas obtidas. O quarto onde vive é alugado, ou já não o é, porque já perdeu a conta dos meses que leva sem pagar o aluguer, ainda que o senhorio tenha cambiado essa compensação financeira pelo prazer que parece sentir em persegui-lo com insultos e ameaças. Também por isso, Manuel levanta-se cedo, desce as escadas do prédio com o seu rochedo, posicionando-se na parte inferior, e amparando a pedra enquanto ela roda lentamente sobre os degraus. Na rua, as coisas são mais fáceis, o chão é plano e, com a prática que leva, Manuel consegue orientar-se com a sua pedra nos passeios sem magoar ninguém. Começa por ir à taberna do bairro, onde há sempre uns restos de café ou galão que a proprietária verte para um jarro, donde ele bebe com um pouco de açúcar, acompanhado por umas sobras de torrada ou pão-de-leite que a mesma senhora guarda para ele comer. Por vezes, Manuel oferece-se, em troca, para limpar os cinzeiros da mesa (há sempre algumas beatas mal aproveitadas, que ele enfia num saco para fumar durante o dia). Daí, Manuel segue para onde se sente inspirado, desde que seja um sítio onde possa levar o rochedo mesmo até á beirinha, porque não consegue afastar-se muito dele. Na lota, arranja sempre um trabalho para fazer, como limpar o chão ou ajudar a carregar os tabuleiros de peixe nos carros-frigoríficos (fica sempre gelado, mas já se habituou a isso) e, como é uma pessoa empreendedora, consegue sempre surripiar da lota uns restos de peixes ou vísceras, que enfia num saco e leva para o beco nas traseiras da marisqueira, ali perto, e deixa á entrada do beco para os gatos e ratazanas encherem a barriga com o petisco e manterem-se arredados das entradas e da cozinha do lugar (o dono da marisqueira não é insensível ao seu préstimo, e recompensa-o sempre com alguns trocos, ou restos de comida que lhe fazem as vezes de almoço). Um outro destino, do qual Manuel Sísifo não abdica, é a ida ao Centro de Emprego para perguntar se não existe trabalho para ele. Como anda sempre sujo, a cheirar a restos e a lixo - já para não falar daquele rochedo enorme que faz sombra em toda a parte - ele é sempre atendido na rua e quase sempre por uma senhora de idade de óculos de aros grossos com ar de bibliotecária. A senhora nunca tem trabalho para ele, mas aproveita a incumbência para fumar o seu cigarrinho, e perorar um pouco com Manuel Sísifo sobre o seu nome ou sobre o trânsito e o estado do tempo, ou sobre uma outra coisa qualquer.
- Manuel é um nome muito antigo, meu caro - Dizia-lhe -você é uma referência e uma lenda viva. Quantos não falaram já do Manuel? Deixe-me ver se me lembro…Homero, Hesíodo, indubitavelmente; Apolodoro, Diodoro da Sicília, Ovídio, este, na dúvida, o Cavaleiro da Flor de Lis, Pseudo-Plínio e mais perto de nós, gigantes como Camus ou Sartre…
Pereré, pororó, e a senhora fumava outro e outro cigarro, e Manuel ouvia-a durante perto de uma hora, muito entediado, até não aguentar mais e retirar-se com muitos agradecimentos e pedidos de desculpa. Com um sentimento de impotência e frustração a enrolar-se no seu peito, ia à procura de outros trabalhos e outros trocados. Arrumador na avenida, limpar vidros dos quiosques da marginal (andava preparado para tudo), reservar lugares de estacionamento com o seu rochedo (que retirava depois de receber a gratificação), ou prensar as tocas de toupeira dos relvados do parque municipal.
À noitinha, regressava ao prédio, e começava a empurrar a pedra pelos degraus acima até ao quarto. Se o dia havia corrido minimamente bem, Manuel Sísifo conseguia alcançá-lo, e atirava-se para cima da cama para dormir como uma pedra. Mas se o dia fora um pouco mau, o que era quase uma constante – se nada dera resultado, se havia outros desgraçados a pedir nos mesmos lugares do que ele, se a fome roía no estômago – o mais certo era o rochedo pesar imenso e não conseguir levá-lo até ao quarto, e deixá-lo e deixar-se num dos patamares da escada.

A sombra dos dias

               Um galão direto e uma torrada com pouca manteiga  - pediu a empregada no balcão à colega. Podia até ter pedido antes,...