Uma mesa


Na minha sala tenho uma mesa antiga. Uma mesa rústica, de carvalho. Tem quatro pernas, como quase todas as mesas, interligadas entre si a dois palmos do chão por travessas que formam um I - uma travessa comprida ao meio colada e aparafusada a duas travessas perpendiculares mais pequenas. A mesa tem uma personalidade própria, como todos os objetos que as pessoas tocam muitas vezes, deixando-lhes resíduos dos seus odores e medos, do magnetismo, da aura. É apaixonada e melancólica, serena e vibrante, está impregnada com a alegria de quem se senta à sua beira e conta uma história divertida, e da angústia de quem espera um sinal ou uma notícia que pode ser má, com a cabeça apoiada nas mãos e o íntimo tão denso e comprimido como um nó da madeira. A mesa de carvalho tem o tampo muito maltratado, e mesmo com o verniz com que velaram as suas cicatrizes, elas ainda são nítidas; fissuras, cortes, raspões. O gume duma faca que cortou o pão de centeio de côdea rija; marcas de talheres, bicadas de garfos, amolgadelas do cabo da colher do menino que não queria comer as papas de sarrabulho. No centro geométrico do tampo da mesa, e sob um dado ângulo, também se nota uma marca oval precisa, o lugar onde posicionavam a fruteira pesada, guarnecida com a fruta que recolheriam de árvores do quintal ou que comprariam no mercado da aldeia. Olhando para essa marca, consegue-se imaginar ou ver a fruteira, em louça antiga, com relevos frutiformes e foliculares pintado em tons de ocre e creme, com uma pequena racha circular num rebordo, assinalando o sítio onde se quebrou um bocado que foi colado de imediato, com cuidados maternais.
Há muitas mais coisas que eu poderia escrever sobre esta mesa, mas essas coisas, vocês conhecem tão bem ou melhor do que eu, agora que esta mesa se ergue na vossa sala e na vossa fantasia.



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Inspirado num outro texto de Borges:

«A descrição dos objetos é muito enfadonha. Os objetos não podem interessar senão em função dos homens. Com rigor, poder-se-ia fazer um romance onde não houvesse a descrição desta cadeira e desta mesa. Mas eu creio que ninguém leria um romance dessa natureza e ninguém o quereria escrever, a não ser para figurar na história da literatura como a primeira pessoa que escreveu um romance para falar somente de uma mesa»

Citado de “Entrevistas com Jorge Luís Borges” de Georges Charbonnier, Editora Início, Lisboa, s/data (edição original da Gallimard, ano de 1967).

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