Um homem inteiro

Eis Júlio Monge, a quem chamam Julião, um homem inteiro.
Mas nem sempre ele foi assim.
Há quatro meses atrás, Julião não sabia onde deixara as pernas, arrastava-se por todo o lado à procura, mas não sabia delas, e todos acabaram por se habituar a vê-lo assim, e a responder com negativas às suas insistentes e angustiadas perguntas a respeito do delicado assunto.
Há dois meses, foi a orelha direita do Julião, cuja falta ele só notou quando decidiu mudar o lado em que traçava o sulco da risca do penteado, destapando assim o lado, o direito, que era aquele onde, como é evidente, se deveria encontrar a dita orelha.
Há apenas duas semanas, Julião notou a falta do dedo indicador da mão esquerda enquanto tamborilava numa mesa de bar o Mack The Knife cantado pela Ella. Já um tanto habituado a esses desaparecimentos misteriosos, nem se atreveu a perguntar a alguém por ele, ainda que fosse um facto notório para todos os presentes, que ele seguiu o resto da música sem continuar a tamborilá-la com os dedos.
E então, há apenas dois dias atrás, essa sucessão de desaparecimentos inverteu-se. Começou por acordar de manhã com as duas pernas que tinham desaparecido. Levantou-se, a dar pulos de alegria e quando se viu diante do espelho do roupeiro do quarto, notou que também tinha a orelha direita no lugar, o que o levou à mais completa euforia. Mas agora, que já foram levados a pensar que tudo isto não fora mais do que um pesadelo do Julião, un cauchemar, que se esfumou por completo na hora de despertar, devo elucidar que assim não foi, e que essas partes do seu corpo que a ele costumam estar ligadas, desapareceram de facto, e que o dedo indicador da mão esquerda continuou desaparecido depois dessa manhã, e assim permaneceu até há uma hora atrás, quando o Julião regressou ao bar onde dera pela sua falta, e o dono do bar lho trouxe. Encontrara-o num cinzeiro cheio de beatas e guardara-o dentro duma caixa vazia de charutos à espera que ele voltasse ao seu estabelecimento.
Julião, felicíssimo, colocou o dedo no seu devido lugar, mesmo a tempo de eu aludir à sua pessoa com a frase de abertura deste texto.


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