O estranho homem de chapéu e coco

(foto de Rodney Smith)


   O autor primoroso vagueou pelos bosques em busca de palavras e imagens primorosas. Perseguiu um vocábulo desusado que passou por ele aos saltos para se esconder nalguma toca no meio dos tojos, antojou um par de substantivos heteronímicos que se riram dele enquanto se desvaneciam no éter, chamou a si, sem êxito, um latinismo acessório que o ignorou e se manteve no ar a bater as asas reticuladas sobre uma flor vitruvianamente proporcional.
   Cansado, e casado ao seu cansaço, parou diante dum velho carvalho a admirar umas letras gravadas no tronco. Tirou o chapéu de coco para limpar o suor da testa, e sentiu o baque duma framboesa que o atingiu no meio da calva.
   Olhou para cima e viu um homem semelhante a ele em tudo, e sentado num tronco da árvore como uma gárgula esfíngica de carne e osso. Também possuía um chapéu e um coco.
   - Sei o que procuras, e tenho algo para ti – disse-lhe o estranho numa voz que era idêntica à sua.
   - Procuro palavras e imagens primorosas.
   - Tenho algumas para ti. Ei-las: cânhamo, cordame, cordoalha, sisal.
   - Fácil, corda é a palavra do outro lado do prisma.
   - Tenho outras ainda: finado, cláusula, trânsito, libitina, irmã de Morfeu, númen insensível.
   - Essa é ainda mais fácil, referes-te à morte, irmã do sono, deusa indócil, como grafou Bluteau. Não tens mais nada para mim?
   - Palavras, não. Mas dei-te duas palavras à qual chegaste a partir de outras, e estou numa árvore. Isso não te sugere nenhuma imagem primorosa?



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