O esteta

   Contemplou com muita atenção o quadro que tinha diante de si. No meio duma cela, um homem de carne e osso, muito magro, tinha uma das mãos atadas a uma coxa e o outro braço e mão, também seguros por atilhos e nós ao pescoço, malseguravam um candelabro em equilíbrio no cimo da cabeça. Aos seus pés, um galgo morto, estava disposto no chão em volta dum planisfério pintalgado de sangue, ao lado duma cobra estendida em espiral sobre um vestido roxo de mulher.
   O quadro era pobre. O gigante olhou para uns e outros motivos, a pensar se haveria algum modo de os tornar mais significativos, de sugerirem algo, de serem a porcaria duma coisa qualquer, por mais rebuscada que fosse.
   - Vocês são uma metáfora sem sentido e uma alegoria de coisa alguma – considerou por fim, decidido a devorá-los de empreitada, a começar pelo galgo, que lhe parecia deveras suculento.

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