Mau feitio


Norb Bron (os subalternos tinham sempre estes nomes parvos), funcionário de Manutenção, foi chamado ao terraço do prédio.
— Eis o que precisamos de ti — explicou-lhe um dos trinta e quatro supervisores que tinha acima de si — o vento despregou parcialmente os painéis de propaganda e tens de os pregar de novo antes que se soltem por completo. Dirige-te à Secção 21 no sexagésimo oitavo piso e requisita um martelo inteligente para teres êxito na incumbência.
Norb obedeceu. Desceu à Secção 21, piso 68º, e foi-lhe atribuído um martelo inteligente. Ligou-o, mas foi logo advertido:
— Não pode usar o martelo inteligente sem primeiro comparecer à Secção 34, a de Ética Asimoviana. Mas previno-o já que esse martelo que aí leva é muito temperamental. Tem de estar sempre de olho nele.
Norb olhou bem o martelo. Parecia-lhe vulgar. As duas pontas metálicas em bola, com o cabo axial de alta tecnologia provido duma abertura ocular onde uma pequenina luz vermelha seguia todos os seus movimentos. Encolheu os ombros e rumou à Secção 34. Aí, solicitaram-lhe que elaborasse um projeto de trabalho onde constasse minuciosamente o motivo pelo qual requisitara o martelo e o uso que dele faria. Concluído o projeto, foi enviado com ele ao jurista de trabalho, que o sancionou, e daí foi encaminhado para o supervisor curricular, que teria de avaliar se Norb possuía a experiência e o know-how necessários para o trabalho descrito no projeto. Uma vez mais, passou no exame, mas foi-lhe exigido que levasse toda a documentação reunida ao supervisor que o encarregara do trabalho, para o informar do andamento do processo e receber a aprovação final de que carecia. Norb assim fez, não notando que a luzinha da abertura ocular do martelo inteligente estava um pouco maior e se movia dum lado para outro com tiques de impaciência.
Depois de passar pelo gabinete do supervisor, e dispondo finalmente de todas as autorizações necessárias, Norb subiu até ao terraço para pregar os painéis de propaganda. Para sua surpresa, já não havia painéis. O vento levara-os. Confuso, Norb apanhou do chão alguns pregos soltos e pensou que, pelo menos, poderia pregá-los à estrutura que suportara os painéis e, assim, a sua missão não seria um completo fracasso. Colocou o primeiro deles a jeito com a mão esquerda e empunhou o martelo com a outra. Mas o martelo já esgotara a paciência e, intempestivamente, começou a martelar-lhe todos os dedinhos da mão.


(escrito para o Infinitamente Improvável)

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